Sonhar sempre foi polêmico para mim. Pessimista nata, qualquer coisa boa que vier pra mim já conta como lucro. Mas o mais engraçado é que, mesmo tentando me convencer o tempo todo de que eu não tinha sonhos, eles estavam lá, bem escondidos. Na verdade, antes da faculdade eu tinha um sonho muito claro: dar o fora da escola e entrar na faculdade mais incrível, no curso mais criativo e viável como carreira que tinha na universidade. E não é que consegui de primeira? Foi até fácil demais! Depois disso, os sonhos começaram a se esconder, tornando-se abstrações vagas: “quero estabilidade, um emprego legal e um dia morar em um bairro melhor”, tudo isso sem pensar muito no que eu sentia falta, pensando só em acréscimos às conquistas já riscadas na checklist. Tudo isso na surdina, escondido atrás de uma fachada blasé: “não tenho sonhos, deixa a vida me levar!”. Mas é claro que quando você está ocupada com 3 trabalhos de faculdade simultâneos, estágio e todo o caos que o mundo nos entregou nos últimos anos, a própria rotina insana da vida te empurra para onde você é obrigada a ir, sem espaço ou tempo para sonhar, até pelas poucas horas de sono. Mas só vou falar dos sonhos que temos quando dormimos no final desse texto.

Pois bem. Um dia a faculdade acaba. Outras coisas muito importantes que estavam inevitavelmente ligadas à faculdade também acabaram ao mesmo tempo. O sentimento é de que eu estava num barco, que levava minha vida para aquele ideal vago, e o vento simplesmente parou de existir, me obrigando a nadar por conta própria no mar aberto*. Isso deve acontecer com todo mundo em algum momento, e para algumas pessoas é bem pior, então eu reconheço que estou reclamando sentada numa pilha de privilégios. Mas como a metáfora é a de um mar e não de uma piscina olímpica, não vale a pena montar uma competição de sofrimento. Você se vê sem saber no que sonhar agora, e onde colocar esses sonhos que nem sabia que tinha até ter que encarar a mortalidade deles.

* O irônico é que eu só vi o mar na vida real duas vezes (até agora).

“It’s such a burden to carry ‘round
The vestiges of dead dreams
And I don’t want to make a wake out of my life

I just had to let you go”

– Of Montreal, Requiem for O.M.M.2

A nostalgia é uma droga perigosa nesses momentos. Eu olhava para aquela paisagem do passado, com a protagonista nem aí pro futuro, sentindo que já estava vivendo seu sonho definitivo por ter conquistado coisas inimagináveis por ela alguns anos antes. Faculdade renomada, relacionamento feliz, carreira promissora, rodeada de pessoas descoladas e conversas interessantes. O que mais uma pessimista poderia querer? Eu me sentia lisonjeada pela sorte que tive, mas era meio arrogante. Nunca pensei muito na transitoriedade desses contextos, ou que existiam outros mundos fora desse, que poderiam ou não ser mais interessantes que esse em que eu vivia. Achava que tudo conquistado até agora era sólido, inquebrável e eterno.

É óbvio que pensar esse passado de um jeito idealista era uma armadilha. Esse sonho, com cara de monolítico porém na verdade feito de vários sonhos menores, está no passado. E esses cacos de sonhos continuavam habitando minha cabeça, como cadáveres ou fantasmas. Então me veio à mente: e se eu tratasse eles como verdadeiros fantasmas, como conceitos intangíveis que só podem ser analisados, mas nunca realmente percebidos? Tento me imaginar como uma arqueóloga ou uma historiadora: eu não conheci aquela criança que morreu em 1865 e só deixou um caderno rabiscado como evidência de sua existência, assim como não estava em Woodstock em 1969 para saber qual teria sido minha experiência lá. Aí entra a fantologia, uma ideia que vou tentar explicar e associar com tudo isso.

A fantologia (do inglês hauntology, uma junção de haunt e ontology) é um modo de pensar que gira em torno de ver elementos culturais ou sociais do passado como se eles continuassem entre nós, sob a forma de fantasmas. É um termo usado na crítica literária, política e na arte. Na música e na arte, costuma se manifestar através da nostalgia por futuros perdidos, com toques de retrofuturismo e uma tentativa de vislumbrar e reinterpretar o que nossos antepassados imaginavam para o futuro (pense nos carros voadores dos Jetsons). Um exemplo musical da fantologia é a banda Broadcast, formada em 1995, que usava samples e motifs musicais remetentes aos anos 1960 sem a intenção de mimetizar o período, mas sim de experimentar com seus fantasmas culturais e criar releituras experimentais, perambulando espaços liminares e talvez causando reações como: ‘De que ano é essa música? 2005?! Não pode ser. Mas pensando bem, é experimental demais para ser de 1968 sem ser Velvet Underground.’

“Memories over memories

Can I see more than I’m programmed to be

Constellation of Orion

A picture with a past

A future so vast

A mnemonic game

On the arc of a journey”

– Broadcast, Arc Of A Journey

Ver esses sonhos mortos como fantasmas é um jeito de enterrá-los. Pelo menos há um fechamento, pois finalmente consigo admitir que eles não estão mais aqui. O destino final deles é inconclusivo, eles podem ir para debaixo da terra assim como podem transformar-se em vapor e subir para a atmosfera. Mas todos esses fantasmas tinham algum objeto ou lugar real associado a eles. Seja um videogame, um pedaço de papel, o hall do prédio de alguém que você nunca mais vai visitar ou o banco da praça onde você bebeu vinho barato com seus amigos depois de seu último dia de aula naquele colégio. O interessante é que, numa tentativa de processar esse luto, acabei trombando com meu subconsciente.

Finalmente cheguei na parte sobre os sonhos de dormir: antes que eu imaginava, um desses artefatos do passado apareceu em um sonho meu e revirou meu estômago mais do que qualquer pesadelo seria capaz. Não era um susto normal, era surpresa. Como algo tão recorrente na minha vida até tempos recentes foi parar no fundo do iceberg da minha cabeça nessa rapidez? Nem adianta buscar explicações simbólicas, é mais interessante simplesmente reconhecer que a mente tem seus mecanismos malucos de lidar com informações. Nesse caso, ela transformou um sonho figurativamente morto em outro sonho, que não vive nem morre, mas é esquecido caso não seja anotado. Pensei no conceito de lugares liminares e como cada um de nós carrega memórias de locais que nunca mais visitaremos, que talvez não existam mais ou estejam completamente irreconhecíveis. Qual era o seu sonho quando você esteve nesse lugar pela última vez? Esse local já apareceu em seus sonhos?

Apesar da tristeza em findar ideais que já não cabem mais na minha vida, a história está bem longe de acabar. Novos sonhos virão e não sei seus destinos: talvez sejam realizados, talvez não, e todos eles têm chance de se encontrar no limbo do meu subconsciente um dia. Quando outros sonhos morrerem, não vou mais ser nostálgica: vou observá-los como um espectro, um fenômeno para além do meu alcance, e darei espaço para que novos sonhos tomem seus lugares.

por Caroline Speridião

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