Como posso não saber viver sem ela? Passei tanto tempo da minha vida sabendo. Não, eu ainda não a havia conhecido. Não tem como esquecer alguém que você nunca conheceu. Então porque, após ter lhe conhecido tão intimamente, sinto que ainda não sei nada sobre você? E o que eu sabia, não existe mais? Eu amo uma desconhecida. Uma fantasma que se esgueira e aparece quando eu estou no meu pior. Só penso em você quando estou jogada na lama das desventuras. Como se pensar em você fosse me tirar de lá. Mas, na verdade, eu sei que só me faz afundar mais. Até ser completamente engolida. E o mais interessante é que não luto, não falo, não me mexo, eu aceito a fatalidade, a falta de ar, o fim da vida. Há um certo conforto em saber o que vai acontecer, talvez não seja um pesadelo, mas um sonho. Acordo repentinamente no meio da noite. Um sonho que tive há mais de dez anos retorna e invade a minha mente. Este sonho melancólico foi um dos que mais mexeu comigo, diferentemente dos comuns sonhos de perseguição, violência e as mais complexas teias narrativas, semelhantes a filmes de ação e suspense, que sonhava com frequência desde sempre. Esse era mais próximo da realidade, e por isso me tirava dos eixos. Eis o que me recordo dele, afinal faz quase quinze anos: Eu e meus amigos íamos embora da nossa cidade natal e não poderíamos retornar nunca mais. Deveríamos viver por nós mesmos, sem olharmos para o passado. Vagamos a pé pelos mais distintos lugares, alguns bastante habitados, com inúmeras pessoas andando pelas ruas e avenidas, pareciam formigas até, locais ensolarados e locais que faziam um frio quase impossível de acreditar, outros inóspitos e inabitados, e tudo aquilo era muito lindo e diferente. E eu não sentia falta de nada. Contudo, um dia, no meio de uma multidão eu a vi. Ela andava na minha direção. Eu queria desesperadamente falar com ela, mas nada saia da minha boca. Na verdade, eu nem a abri, e eu nem sabia o que deveria dizer, apenas queria dizer alguma coisa, que ficou entalada na minha garganta assim como acontecia com frequência na vida real. Ela fez menção a um sorriso e passou por mim e eu não podia olhar para trás. Fui arrebatada e paralisada pela sua presença e minha incapacidade de me expressar me chocou. Posteriormente, eu e meus amigos embarcamos em um trem que nos levou de volta para casa. Seria meu desejo inconsciente de tentar vê-la novamente? Chegando em casa, nada era como antes, as casas e as pessoas. Voltamos para nossa família, mas não eram exatamente eles. Nunca mais poderíamos regressar, esse era o trato. Parecia um outro universo. Eles nos enchem de beijos e abraços, mas não eram quem nós um dia conhecemos. Parecia casa mas não tinha nada de casa, se é que alguma vez algum de nós soube o que era isso. E eu não a vi por lá. Ainda sentada na cama, pensando rapidamente nesse sonho, e sem entender o porquê dele me aparecer. Uma vez que eu há muito tempo não era mais amiga daquelas pessoas e mal lembrava de quem ela era. Meu celular toca, acordando assim minha namorada. Era um número desconhecido, mas atendi por impulso, como se fosse uma justificativa para o ato de minha namorada ter sido acordada, não seria em vão. Eu não reconheço a voz que pergunta pelo meu nome, mas confirmo que sou eu. É uma voz feminina, ela não se identifica, será que acha que lembro dela?

Texto por Camila Simões

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