Meu primeiro sonho envolvendo a casa a colocava sob uma luz amarela de um sol quentinho. O quarto não era como realmente era – ele tinha uma passagem para um cômodo secreto, que era tão grande como aquele quarto. No sonho, eu e meus primos brincávamos de escorrega em portas de madeira na cor cinza e fugíamos de nossos pais nos chamando pra almoçar.

Natal de 2003

O segundo sonho colocou como protagonista o banheiro daquela suíte. Marcou minha infância por ser o maior banheiro que já vi e por ter uma banheira, eu nunca tinha visto uma banheira. Nesse sonho, eu explorava o cômodo sozinha. No teto, apareceu uma janela que dava para um mar translúcido e brilhante que refletia a luz do sol no meu rosto. Eu sabia e sentia que o que eu via e onde eu estava não era real, mas eu podia sentir o chão gelado do piso do banheiro e o tecido macio do tapete que ficava em frente à pia.

E veio mais um. Esse próximo me colocou na pequena área externa que ficava atrás da sala de estar. Nunca entendi exatamente pra que ela servia já que nunca ficávamos lá e a única entrada (ou saída) pra ela era por um porta de vidro que ficava atrás do sofá onde  ditchan passava o dia inteiro assistindo televisão e lendo jornal. Mas nesse sonho eu estava lá e a luz do sol tornou o chão quentinho e eu encontrei uma saída para uma floresta.

Descrevi poucas ocorrências, mas a verdade é que desde que eu me entendo como gente eu sonho com aquela casa. A casa da batchan e do ditchan. Tinha cheiro de incenso e jornal guardado, cortinas brancas e sofás que me abraçaram toda vez que eu dormia neles.

Passei muitos anos indo, ficando e saindo daquela casa, em datas comemorativas, em dias normais, em férias escolares, convivendo com a minha família materna e observando hábitos que eram muito remotos para mim – pelo menos 2 vezes ao dia batchan ia em frente ao butsudan e fazia os mesmos gestos (não tínhamos butsudan em casa em São Paulo). Quando dava cinco horas da tarde, a mesa da cozinha ficava igual à do café da manhã e a televisão da cozinha falava junto com a gente (em casa eu lanchava sozinha sem pôr a mesa e não tínhamos televisão na cozinha). A televisão a cabo o dia inteiro alternando entre NHK e canais brasileiros na sala onde meus avós ficavam e em canais de desenho e séries estrangeiras na sala onde meus primos ficavam (demoramos muitos anos para ter televisão a cabo em casa e não tínhamos duas salas).

Por muito tempo as coisas continuaram sendo como sempre foram com poucas mudanças de cenário. A casa ocupou desde sempre o mesmo lugar na minha cabeça, um lugar de neutralidade fora do que eu conhecia mas que ainda era um lugar de conforto e encontro.

Até que em 2020, ditchan adoeceu e morreu. Manter aquela casa apenas para a batchan não faria mais sentido nenhum. A penúltima vez que fui lá, foi no dia que enterramos o ditchan e a última vez que eu fui. foi para ajudar com a mudança. Algo sobre essas últimas vezes trouxe uma nova luz, mais azul e fechada, para aquela casa que sempre teve um calor inerente.

Enquanto folheava fotos antigas, ajudava minha tia com caixas de roupa, eu sentia minha mente se descolando do meu cérebro. Era a hora de dizer tchau para aquela casa e eu não conseguia entender como ela poderia deixar de ser parte das nossas vidas, mas aceitei, enxuguei o suor debaixo da máscara (fazer uma mudança durante a pandemia não é coisa leve ou prática) e só soube que não teria mais como entrar naqueles cômodos.

Algum tempo depois, descobrimos que a casa foi demolida. E passamos em frente daquele lugar, que antes era um lugar de tantos objetos de observação e encontro pra mim, e que agora era apenas um terreno.

Os sonhos com aquele lugar se intensificaram de uma maneira que nunca previ ser tão maluca. Já é uma verdade que terei encontros com aquela casa pelo menos 2 vezes ao mês nos meus sonhos. E eles continuam me mostrando o que era antes, o que eu via desde criança. Sonhos que começam com esse lugar tão familiar mas sempre mostrando uma saída, uma passagem ou vista secretos, enfatizando como meus olhos infantis absorveram um lugar conhecido mas que ao mesmo tempo me expôs a rotinas diferentes da minha pela primeira vez na minha vida, que tinha coisas e objetos que nunca vi, comidas que hoje quando como, têm gosto de casa da batchan, a casa que eu vejo nos meus sonhos. É como se uma versão minha, com um cérebro muito mais fértil e suscetível ao imaginário, tivesse ficado naquela casa. Ou melhor, hoje, naquele terreno.

Mesmo sabendo que tenho uma visita marcada nessa casa a qualquer momento quando despejo a cabeça no travesseiro, torço quase todos os dias para sonhar com esse lugar e com as sensações que hoje só encontro nos meus sonhos. É uma maneira de manter ela viva e intacta, como se ela ainda fosse um lugar que eu pudesse ir. E também, uma forma de entrar em contato com uma criança que eu era e viveu por muito tempo em fascínio constante com o que tinha do outro lado daquele portão cinza escuro.

Comemorando lá, o que muito provavelmente foi meu aniversário de 2 anos. Ninguém sabe me dizer do que era esse bolo mas parecia estar muito bom.

Quanto aos dias de agora, apesar de demolida, restou um muro no fundo que ainda possui a marca e silhueta da churrasqueira. A única coisa sobrevivente que consigo reconhecer naquele terreno. Penso que foi ali naquela área externa a última vez que vi o ditchan – eu e meu irmão atravessamos sua hortinha, que deixou de ser cuidada para que ele fosse quem recebesse os cuidados, para chegar na janela do seu quarto onde demos a ele um tchauzinho (eu sabia, mas não imaginava que seria o último). Ditchan, assim como a casa, eu também só vejo hoje nos meus sonhos.

Olhei fotos antigas para encontrar uma para incluir nesta publicação. Encontrei as de um natal de uns 20 anos atrás e lembrei daquela noite, de quando eu, meu irmão e meus primos tiramos as almofadas do sofá e criamos rampas para escorregar. Eu tinha esquecido que isso era uma memória que morava na minha cabeça. Agora consigo entender de onde vem o primeiro sonho que relatei no começo deste texto.

Mapa sentimental da casa.

Texto escrito por Luana L. Arimura Meira

2 respostas para “Encontro marcado”.

  1. que texto mais lindo! 😔

    Curtido por 1 pessoa

  2. me emocionei :’)

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário