“Todas as manhãs ela deixa os sonhos na cama, acorda e põe sua roupa de viver.” Diria Clarice. Mas eu sou mulher onírica, de sonhar o tempo todo. Cortinas rosas, estupefatas, empoeiradas pelo tempo. Entre bichinhos de pelúcias, luminosas velas de cereja, aqueles livros velhos e rasgados, manchados de café. É manhã chuvosa e meus pensamentos vão junto à chuva, rápidos, irrigando, afogando. Me afogando. Sonho todo tipo de sonho. Os mais recorrentes são vislumbres da carne, do pecado. Tão vividos que sinto na minha pele, queimando. Sonhar acordada é minha brincadeira de criança. É como se algo me conduzisse a esses momentos doces e fúnebres e, ao mesmo tempo, eu fosse a eles por vontade própria. Para saciar algo. Enfeitar a vida, mórbida. É uma ansiedade por imaginar o que pode acontecer e uma ânsia dilacerante por aquilo que nunca acontecerá. É etéreo, é sonâmbulo. São milhares de anjos caindo, mortos, sob o céu. É delírio louco e sangrento. Hoje, me vi como fada do dente, mágica e angelical. Colecionando dentinhos e entrando nos sonhos das crianças. Observava seus quartos, descalça, com as asinhas batendo silenciosamente. Também me imaginei como a Deusa Afrodite, bela e afortunada. Olhos iridescentes, profundos, prontos para o acaso. Sou esse conjunto de lembranças, memórias que jamais acontecerão, doces sonhos matinais, esses que tenho.
Texto por Bruna




Deixe um comentário