Depois que você partiu,
Ano passado
Todos os meninos da nossa cidade ganharam asas
Vez ou outra,
de olhos fechados na cama,
te avisto na estação
E amarramos laços nos calcanhares
E voamos sobre catracas
E voltamos pra casa
Tempos atrás,
quando não éramos nada,
venerávamos carcaças à beira do lago
Galhos ornados sobre sangue de gafanhoto, lagarto, pardal
Coroa de amoras, amor-perfeito
na gruta da minha goela
E um punhal enferrujado no seu olhar
que me fazia rogar e me fazia morrer e me
fazia sonhar
Saltei sobre seus braços quando cheguei na cidade, você me esperando,
registrando o vento contra o tempo no caderno, rodopiando,
desengonçado,
entre pilastras na rodoviária
Subi na sua moto por meses enquanto me guiava de casa em casa, aulas de
teatro contra o sofá de madrugada, olhos de botão, cristal
sobre carne de pano pixelada nos filmes que te pagavam
em saídas de bares,
banheiros escritórios garagens
pra que você gravasse
e eu estrelasse
Eles me destruíram, me devastaram
Cruzaram e escavaram rotas por dentro de mim
Depois me marcaram e embrulharam em mapas
Mas nunca senti nada
Toda corda e lágrima, expressão vaga
de desespero
castrado, costurado na face
Era nossa
Nunca deles
Você apontava a câmera,
me projetava o mundo
e eu o revelava pra si mesmo
Saímos correndo pra mata, depois da aula,
naquele nosso aniversário
Mas eles foram mais rápidos
Me amarraram no tronco,
vela rosada rija acesa equilibrada na
cabeça impregnando
cabelos cílios
sobrancelhas narinas bochechas
Unhas fincadas na sua nuca e pulso, pólvora manchando seus all-stars verdes
Eles gritando, às gargalhadas, pra que mirasse, não errasse,
enfiasse…
Tudo que fizemos, depois disso,
foi só isso,
vez após vez,
mas agora você era Deus
e eu confiava
(sombra pregada na escuridão do
quarto, na
cruz do
quadro,
alugada e
coordenada)
que sempre seria ressuscitado
Quando subi as escadas e te
encontrei de bruços,
mês passado
Pensei que era eu mesmo, me encarando no espelho
Peguei a câmera
pra ser você
mas seu corpo sem alma no chão era
amarelinha, só um
rabisco de giz de cera
Desde então ando na rua como quem não tem nome nem nunca teve
E é toda rua
E é todo ser ou
tudo camufla, sem
nunca ser, agora
que sei que Deus morreu
Vasculhando o armário, encontrei uma caixa com um pedaço da vela que
marquei com os dentes, segurando o choro,
quando você acertou em cheio e a cera desceu me
derretendo
Brinquei com ela no bolso a viagem toda no ônibus, em Dezembro, e me desculpei,
assim que acabou a ceia,
pra correr até o mato
lançá-la no lago
com asas de laço
e assisti-la voar e assisti-la tentar então
afundar
Todas as árvores soltaram seiva
E os meninos,
agora anjos,
riram e berraram, como daquela vez,
atirando contra as estrelas…
Tudo morreu
E nunca mais lembrei,
depois que despertei,
De nome ou idade ou rua ou
rosto algum
Meu, seu,
Deus
Da minha prece,
com a pele aberta à
luz de velas
eretas, jorrando
cera, na floresta
ou na tela da TV
Que confiei à sua mira, a
seus dedos
E que um dia te amei…
Texto por Pedro Minet



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