Ser uma menina é um pesadelo ou um sonho? Sempre me pergunto isso quando fico sozinha em casa e ligo a luz do quarto com medo de um monstro imaginário. Escuridão. Medo. Solitude. Hipocondria. Sangue. Rosa. Fadas. Parece que o meu universo feminino se resume a essas e algumas outras palavras obscuras e fofas.
Possibly in Michigan é como escutar um álbum industrial do Cocteau Twins, se ele existisse. Ou como assistir Ms. 45 do Abel Ferrara e ter a mesma satisfação da protagonista em seu cotidiano sangrento e violento – apesar desse filme não ser como um sonho, mas sim um noir feito para meninas maiores de idade. É isso que dizem: a arte é a representação dos nossos maiores medos, sentimentos e pesadelos.
Em paralelo a isso, fiquei me questionando: por que nós, mulheres, temos tanto fascínio com coisas grotescas, etéreas? Será porque faz parte da nossa vida ou do nosso imaginário de medo? Lembrei que há algum tempo li um artigo chamado “Why Are Women Obsessed with Horror?”, da Study Breaks Magazine e embora a resposta da pergunta anterior possa parecer óbvia, é interessante refletir a relação entre horror x mundo feminino.

Desde cedo amamos vampiros. Somos as maiores fãs de Crepúsculo, Entrevista com o Vampiro, Drácula de Bram Stoker e outros vários filmes que surgem com um protagonista grotesco (mas sempre apaixonado, romântico). Às vezes me parece que Hollywood descobriu um dos nossos fetiches e resolveu capitalizar – tenho quase certeza que é assim que eles pensam.
Por que figuras tão medonhas despertam desejo? Seria um tipo de síndrome de estocolmo enraizada que criou toda uma estética que por um acaso eu adoro? Sinceramente, tenho medo da resposta e ao mesmo tempo gosto dela. Nossa mente é tão fértil para coisas fantásticas que conseguimos entender de onde vêm as ideias da Emily Brontë, Mary Shelley e outras autoras que conseguem expressar tão bem o grotesco por meio das próprias perspectivas e experiências.

O horror na figura feminina
Se por um lado, mulheres têm atração no grotesco, muitas obras audiovisuais têm mulheres no papel central em uma trama de horror. E muitas das vezes, os diretores dessas obras são homens. Não é o caso de Possibly in Michigan, em que boa parte da produção é feminina.
Pergunto-me se há uma correlação entre a figura feminina e arte no horror. Por que quase todos grandes filmes retratam mulheres em papéis centrais fugindo de uma figura masculina, perdendo a sanidade ou sendo a peça central de um acontecimento sobrenatural? Um belo exemplo são os filmes de giallo que retratam acontecimentos sanguinolentos – muitas vezes pra lá de sensuais – com mulheres bem vestidas, elegantes e desejadas. Em O Chicote e o Corpo (1963), vemos uma protagonista que sofre com um amor sádico e torna-se refém disso. O engraçado aqui é que ela gosta da relação sadomasoquista com o personagem do Christopher Lee (que já havia feito Drácula anteriormente) e conquista o telespectador com um romance doentio em um filme gótico com luzes neon e o desejo pelo brutal.

Além disso, ainda existe o termo final girl visto em diversos filmes de horror antigos e contemporâneos, como em O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Pânico (1996) que confirma que mulheres são sim a força motriz do horror e grotesco. Talvez pelo contraste entre o amável e o feroz versus a vida e a morte.
Sendo assim, por que não abraçar essa verdade proibida? Que façam mais filmes grotescos para que a gente possa assistir e usar fantasias charmosas sanguinolentas no Halloween. Possibly in Michigan traz tudo isso junto a uma imensa sensação de bad trip e paranoia que só mulheres entendem pra valer e por isso a Cecilia Condit é tão importante aqui: ela retrata uma dor feminina que é sempre contada pelo lado masculino.





Deixe um comentário