assim como todas as pessoas decentes que conheço, fiquei mexida com a notícia da vinda de madonna pro brasil. e o melhor termômetro pra saber se de fato uma coisa mexeu comigo é se ela invadiu minha casa durante a noite e entrou no meu sonho.
por um tempo fiz a tal da análise junguiana, e me debruçava em cima dos meus sonhos, anotava todos pra levar pras sessões e ficar tirando deles significados. quanto mais eu anotava, mais eu lembrava. desde então olho com outros olhos pra esses surtos que acontecem dentro enquanto durmo. sempre dão alguma pista do que realmente importa. é assim com angústias e desejos. de menores a maiores. e não ia ser diferente depois de saber que alguém que é quase um ser místico no meu imaginário iria estar física material presencialmente na praia de copacabana de graça em um sábado. vi por um tweet e, de noite, nas aventuras do meu inconsciente: lá estava ela!
(um pequeno parênteses: fui uma adolescente viciada em youtube e lembro de quebrar minha cara quando vi um vídeo, se não me engano, da jou tjout, dizendo que ninguém se importa com seu sonho. os argumentos dela eram muito fortes e na época eu comecei a reparar que realmente não achava incríveis os sonhos que minhas amigas contavam tão empolgadas; e via os olhares dessas mesmas amigas desviarem distraídos quando eu contava os meus. que horror. pra quem tá de fora da cabeça de quem sonhou, as coisas não vão ter a mesma força, porque não vão fazer parte de uma experiência compartilhada, afinal aconteceram no único lugar que nos é particular. e a gente fica nessa frustração de tentar passar pro outro as sensações viscerais de beijar a professora, comer um quibe de abóbora perfeito recheado com ricota ou até mesmo… ir em um show da madonna.
(mas eu acho que daí também parar de contar os sonhos é bobagem. então, vim aqui me frustrar.)
começou já no caminho pro show. eu estava ansiosa, animada, com medo de não chegar a tempo. o show estava marcado pras seis da tarde em um teatro que de tão igualzinho ao joão caetano devia ser.

(mais um: enquanto escrevia e rememorava isso, pensei no quanto a imagem do sonho é uma coisa interessante. pensei em como são feitas as representações de sonho em alguns filmes: esses dias revi Perfect days (Wim Wanders, 2023) e, nele, os sonhos do protagonista são em p&b como as fotos que ele tira. geralmente têm um leve movimento, umas imagens que se escondem e se revelam em luz e sombra, uma convergência entre natureza e gente. e dessa vez que reassisti, pensei que o sonho refletia muito de como ele percebia o mundo. lembrei também dos sonhos do cachorro Bruno na animação Bicicletas de Belleville (Sylvain Chomet, 2003), que também são em preto e branco e têm uma dramática mudança de proporções das coisas. acho que eu nunca tinha pensado muito sobre uma estética do sonho. fiquei com vontade de perguntar pra amigues não com o que se sonhou, mas como se sonha e o que isso revela da nossa perspectiva do mundo. como é a cor, a posição da “câmera”? nesse meu sonho do show da madonna, acho que tinha focos de cor onde minha atenção estava. tudo se passava a partir da minha visão mesmo, mas poucas vezes a “câmera” saía dos meus olhos pra me mostrar inserida em cena. e as texturas das coisas pareciam meio trocadas……. voltemos ao sonho 🙂
eu estava acompanhada de alguma família que não era a minha, pessoas com quem não tinha intimidade e ninguém que de fato me acompanhar na saga de 4 de maio. o corte do transporte pro teatro era brusco, como costuma acontecer nos sonhos. estávamos lá, eu e família x, acomodados em cadeiras bem próximas ao palco (bobinha, eu pensava: nossa, conseguimos os melhores lugares!).
olhando em volta, eu de cara estranhava. além de nós, pouquíssima gente na plateia. umas trinta pessoas no máximo. eu olhava o relógio: seis horas. que isso, já ia começar! e no meio desse estranhamento, o show começava. numa música emblemática (que provavelmente era a mistura que minha mente conseguiu produzir de Vogue, Like a Virgin, 4 Minutes e Hung Up). muitos sentimentos. madonna descendo do teto coberta de papel crepom colorido ia sendo desenrolada como uma múmia. flashes. luzes. madonna descendo e papel crepom colorido. efeitos. equipe. fumaça. madonna descendo. eu estava tão animada, senti o coração bater forte e as lágrimas brotando (choro acontece esquisito nos meus sonhos, parece uma coisa que não sai direito, é só uma falta de ar, uma pequena apneia).
a performance perfeita babilônica mesopotâmica me deixava boquiaberta e eu gritava UHUUL no que meu grito ecoava no teatro. foi aí que eu percebi que meus poucos companheiros de plateia estavam apáticos. sentados. quietos. ?????????? a música acabava e era ela: MADONNA, braços pro alto, ofegante. eu batia palmas efusivas, as palmas ecoavam. o que estava acontecendo?! minha mente começou a trabalhar muito rápido tentando encontrar motivos praquele silêncio incompreensível.
madonna olhava pros lados séria, analisando o seu entorno. meu coração apertou e quando eu vi, minha boca já estava abrindo e direcionando pra ela a seguinte frase (sim, em um inglês de escola): there’s a lot of traffic in rio at 6 pm (–tem muito trânsito no rio às 18h), na minha tentativa genuína de acalentar a possível decepção que aquela plateia vazia e blasé poderia estar causando na minha amiga diva lá do palco.
ela me olhava, impassível, com o desprezo de quem pensa: “bitch, i’m madonna, não preciso do consolo de uma zé ninguém”. talvez não fôssemos tão amigas assim…
e nesse momento, sem poder ver o resto do show e nem se era o trânsito ou o atraso carioca que tinham impedido a chegada de um público digno até o joão caetano pra ver a rainha, eu acordei.
não tenho mais aquela terapeuta pra me ajudar a espremer desse sonho arquétipos e sentidos pessoais. provavelmente eles girariam em torno de (1) querer ser a madonna; (2) decepções com amigas imaginárias; (3) alguma questão com minha mãe; (4) meus 4 anos.
uma plateia xoxa nunca vai acontecer para madonna e eu nunca de novo vou sentir a necessidade de consolá-la considerando a multidão louca que vai estar se esgoelando diante dela, fazendo coreografias e pondo a própria vida em risco nas areias de copacabana. porém, talvez ela abra o show se desenrolando como uma múmia de algo mais chique do que papel crepom. PS: ao longo dessa escrita, fui ouvindo o álbum Ray of life (indicação da espetaculosa dora guerra), em que dá pra se sentir pulando de nuvem em nuvem, dentro de um sonho mesmo. madonna não existe! ou existe? vamos ver…

Texto por Mabel Boechat




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