Quando eu era criança eu passava muito tempo na casa da minha avó materna completamente encantada com um antigo dicionário dos sonhos. Ficava fascinada com a ideia de que todo aquele teatro onírico poderia ter um sentido e, após folhear algumas páginas, eu poderia entender porque havia sonhado com pássaros amarelos ou que estava no meio do mar durante a noite. Quando minha avó faleceu eu herdei esse dicionário dos sonhos e guardo ele comigo até hoje. Muito tempo se passou – muito tempo? – desde que eu era essa criança curiosa. Recentemente, adulta e trabalhando como psicanalista, me vi conversando com outra criança da minha família que compartilhou sobre sua curiosidade em relação aos sonhos. Isso me fez refletir sobre como minha relação com meus sonhos – e com o sonhar – mudou muito desde que eu tinha a mesma idade que ele e também buscava uma resposta para meus sonhos. 

Me formei como psicanalista, abandonei de certa maneira o dicionário e aprendi a questionar meus sonhos de outros jeitos. Uma das premissas básicas da psicanálise é que o sonho é da sonhadora, tudo ali faz parte do universo simbólico de quem sonha. Eu posso sonhar com um papagaio e outras pessoas podem também sonhar com um papagaio: mas o papagaio dos meus sonhos será unicamente meu, tudo que eu possa vir a falar sobre esse  pássaro vai relacionar-se com meu inconsciente, minha vida e todo o contexto cultural que eu estou inserida. 

Ou ainda, o que será que é aquele papagaio do meu sonho? Nesse teatro onírico, quem ou o que esse pássaro representa? Deslocamento e condensação – os principais mecanismos dos sonhos – nos confundem e muitas vezes acordamos perplexas pensando ‘’Nossa, não é possível que isso tenha algum sentido… não é possível que sonhar com comer a pizza de The Sims 2 junto com aquela minha vizinha possa ser algo… não tem o menor sentido…’’

Narrando, em associação livre, começamos a questionar os elementos do sonho, criando uma rede de palavras e conexões formando uma teia complexa cheia de elementos importantes para a interpretar o sentido daquele sonho. O sem sentido, a confusão, as risadas e a perplexidade desse processo pode ser algo muito prazeroso e/ou assustador. 

Recentemente estava relendo o começo de Alice no País das Maravilhas e comecei a entender um pouco mais porque esse filme me intrigava tanto quando criança. Tudo o que acontecia com Alice era porque ela era uma garota cheia de perguntas e tudo parecia um grande sonho… era tudo um sonho? Tudo parecia absurdo, sem sentido, curioso.

Estava relendo toda sua aventura de ir atrás de um coelho após uma tarde tediosa, cair em um buraco, dormir, acordar e ficar grande e depois pequena… e isso me lembrou muito o processo de me escutar em análise falando sobre um sonho: ‘’Sonhei com um papagaio vermelho… eu não tenho um papagaio, eu tenho uma calopsita… O nome é vidinha, chegou do nada na minha casa… é engraçado, eu nunca pensei que poderia amar um pássaro mas as vezes sonho que ele foge de casa… quando eu era criança, bem criança mesmo, tinham passarinhos em casa… fico tão triste pensando às vezes se ele fugir… eu não planejei isso… como é amar algo que pode fugir? Acho tão curioso, ele tem a gaiolinha dele e também fica solto… mas prefere ficar na gaiolinha… Não entendo ele… Isso me remete a uma situação que…’’ 

O jeito que falamos sobre nossos sonhos têm um lugar central de importância na hora de sua interpretação. Convido quem está deitada no divã para demorar nos detalhes,  pergunto mais sobre os elementos do sonho, pergunto inclusive sobre seus esquecimentos e estranhamentos frente alguns elementos. Fica mais difícil entrar em contato com certos conteúdos e desejos inconscientes quando estamos acordadas, e é a partir do convite para uma associação livre dos sonhos que vamos, palavra por palavra, associação por associação, conseguir interpretar nossos sonhos. 

O sonho é essa manifestação inconsciente que nos interessa justamente pelo seu mistério e pela maneira críptica que ele oculta um desejo e uma verdade. Por que será que eu sonhei isso? Qual o sentido de sonhar com pássaros? Perguntar-se isso abre um enigma: o que eu realizo sonhando isso? Qual desejo animou a existência desse sonho? O que me aflige? O que eu desejo?

 Questionar o sonho te convida a ficar um tempo com a dúvida, conviver com o mistério de suportar o fato que – ainda bem – não controlamos nosso inconsciente. 

Como psicanalista, sempre me interesso com a reação das pessoas quando falo que o sonho delas é algo importante e tem espaço nas sessões: tem quem se empolgue, tem quem procure uma análise justamente para poder falar sobre seus sonhos e investigá-los. Outras vezes, algumas pessoas ficam curiosas e levemente desconfiadas com a proposta de dar atenção aos sonhos como ‘’a estrada real para o inconsciente’’: algumas ignoram, outras chegam com um caderno de sonhos, tem ainda quem afirme repetidamente que não adianta, não lembram dos seus sonhos e tem a certeza que não sonham. 

Trabalhar tão intensamente o sonho dos outros é curioso. Em algumas ocasiões me pego sentada no metrô refletindo sobre esses sonhos que escuto, é impressionante como cada pessoa é capaz de criar conexões inesperadas.

Propor um espaço onde o sonhar é valorizado é algo que anima minha vida profissional e pessoal. Gosto de trabalhar com aquilo que é misterioso, fugidio e fora do controle consciente. Me emociono quando pessoas que vivem em uma rotina pautada na racionalidade, onde é necessário dominar tudo sobre si e sobre o mundo, começam a se encantar pela lógica do trabalho onírico: abre-se uma possibilidade para conviver com aquilo que não sabem. Quando aprendemos a conviver com nossos enigmas em uma relação de paciência e amizade, o mistério do sonho torna-se algo a ser celebrado. Abre-se a temporalidade de ficar com os mistérios, valorizar elementos que seriam ‘’insignificantes’’ como algo que merece atenção e consideração. 

Acordada, sonho em construir uma vida adulta cultivando a curiosidade que aprendi a ter com os sonhos desde pequena. Sonho com a possibilidade de sempre encontrar novas palavras, novos cenários oníricos e novas perguntas. Espero sonhar com minha avó, queria contar para ela que encontrei novas maneiras de pensar sobre a relação da minha vida com meus sonhos.

Texto por Drica

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