Ontem finalmente consegui agradecê-la, encontrei ela por acaso em um sonho. Já faziam alguns anos que eu queria fazer isso, satisfazer esse desejo estranho de mostrar a importância que ela teve na minha vida. Nunca tinha conseguido imaginar a reação da minha professora, mas se eu conseguisse, teria imaginado da forma que aconteceu no meu sonho: um pouco estóica, seguida de algumas palavras se rebaixando, pois ela não se acha grande o suficiente para impactar a minha vida e não entende a alegria que me traziam suas aulas. Ok, foi só um sonho, é só uma suposição, mas sonhar isso fez eu me sentir muito bem por finalmente realizar esse desejo, fiquei pensando por dias na satisfação desse momento.
Mas uma coisinha… ela não está morta nem tem nada que realmente me impeça de falar com ela, eu provavelmente poderia encontrá-la facilmente na internet e transformar esse momento em realidade. Mas por que eu não faço isso? São algumas paredes invisíveis que existem na minha mente. Todo o grande esforço de conseguir o contato dela online (5 minutos) e depois todos os impeditivos emocionais de escrever e enviar a mensagem. Ia ser muito estranho aparecer depois de alguns anos falando “oi, obrigado por mudar minha vida”? Talvez, mas não me importo com isso de verdade. Vergonha de expressar afeto? Eu acho que superei isso há um tempo. Achar que talvez ela não vá se importar por não acreditar que ela pode ter sido importante? Talvez isso me incomode. Não posso dizer que entendo o que é essa parede invisível, mas ela existe na minha cabeça.
Esse sonho me intrigou, pois durante ele, todas as paredes invisíveis foram quebradas pois fui colocado em uma situação ideal para conversar com ela. Não era um daqueles sonhos em que perdemos o nosso senso crítico e somos controlados como bonecos por uma força maior, eu estava totalmente consciente das minhas emoções e atitudes. Também me intriga como ter feito isso deixou o resto do meu dia mais leve, e me fez novamente pensar em ir atrás dela e agradecer.
Parece meio desconexo, mas me lembrei recentemente de uma história engraçada que aconteceu há uns 10. Encontrei um conhecido que estava com o dedo quebrado e perguntei o motivo. Ele disse que tinha enfiado o dedo no ventilador porque queria ver o que acontecia. Na hora eu simplesmente achei que ele fosse meio burro, mas agora, depois de uma década, eu não consigo aceitar que tenha sido só isso. Primeiro porque é muito surreal, e segundo porque meu pior traço de personalidade é tentar encontrar sentido em todas ações, por mais absurdas que sejam. Vamos descartar a possibilidade dele estar mentindo e realmente ter feito isso porque queria saber o que acontecia. Simplesmente foram suspensas todas as paredes invisíveis que o impediam de enfiar o dedo no ventilador, como se ele estivesse em um sonho. A parede nesse caso seria o “medo de perder o dedo”, durante um momento essa barreira não existiu e ele conseguiu viver essa fantasia e descobrir.
Os sonhos são ambientes ideais pros nossos coraçõezinhos cheios de desejos viverem emoções sem as paredes impostas pelo medo das consequências. Podemos ser o bichinho de luz que entra na casa quentinha pois não há mais janelas, ou o saco de lixo que entra no bueiro porque a grade não está mais lá (escolha a metáfora mais compátivel com sua autoestima). E eu acredito que a forma como reagimos nesses sonhos podem dizer muito sobre nós.
Vamos imaginar uma maldição muito comum: você tem um emprego que você odeia (talvez uma das experiências mais universais nos últimos 100 anos). E você tem um sonho que você é demitido ou sua empresa declara falência. Juro que já escutei esse sonho de três pessoas diferentes no último mês. E em um dos casos pude saber dos detalhes, que foram “eu me senti chocada no momento, mas depois eu me senti extremamente aliviada, calma e pronta para achar outro emprego. Eu também xinguei meu chefe.”. Infelizmente não sei tudo o que aconteceu depois, mas com esse sonho ela percebeu que ela não está realmente presa nesse emprego e que por mais que ela se preocupe com questões financeiras, ela vai ficar bem melhor em outro lugar (ela nem recebe um salário bom). Normalmente nós trazemos nossa vida pra montar nossos sonhos, mas nossos sonhos também revelam muitas verdades sobre nossa vida.
Ok, uma maldição mais incomum e muito mais dolorosa: você está apaixonado pela pessoa casada com seu melhor amigo. Nesse sonho eles terminaram, sua paixão confessa que te ama (uma parede a menos e um cenário pra você reagir), e seu amigo tá extremamente de boa com vocês ficarem juntos (outra parede demolida). Deu certo pro George Harrison e pro Eric Clapton, então, pode dar certo pra vocês. Isso é muito legal né? Você pode falar o que você sente e ver se vocês se gostam.
E bom… você acorda. Como você se sente? Você acorda e sente um incômodo disso nunca poder se tornar realidade? Você sente um alívio de finalmente poder ter expressado seus sentimentos sem precisar “enfiar o dedo no ventilador”, assim como senti no sonho em que pude agradecer minha professora? Acho que esse caso é bem mais complexo do que o sonho do emprego, as barreiras criadas para você não declarar sua paixonite fazem muito mais sentido. Eu já tive muitos sonhos bobos, nada realistas, que tornaram um dia mais feliz ou triste e tenho certeza que se eu estivesse nesse cenário ficaria dias pensando na minha realidade.
Também conseguimos descobrir se você é babaca com um cenário parecido. A pessoa quer ter um caso com você, seu amigo não sabe, vocês têm o caso ou não? Você está bem consciente das suas escolhas no seu sonho e você aceita. Parabéns, você é babaca. Ok, talvez não, mas acho que vale a pena pensar sobre isso com muito cuidado para não se tornar babaca.

Acho que esses resíduos de sonhos que contaminam nossa realidade podem ser muito saudáveis, principalmente como ferramenta de autoconhecimento. Por mais que consigamos imaginar cenários de realidades alternativas acordados, nunca é tão intenso quanto sonharmos com situações em que somos obrigados a encarar nossos sentimentos. Sem contar também o quanto eles nos trazem ideias novas para nossa realidade, sabia que o refrão de “The Killing Moon” veio de um sonho do Ian McCulloch? Mas acho que isso é um assunto pra outro texto.
Cuide bem dos seus fragmentos de sonho, não vou dizer o que fazer com eles, só por favor, não enfie o dedo no ventilador literalmente.
Texto por Nicolas Torresan




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