Alguns meses atrás, perguntei pra ele o que ele tinha feito com minha foto 3×4 que guardava na carteira, ele disse que ela ainda estava lá e me mandou essa foto. Fiquei um pouco surpresa, acho que perguntei sem esperar uma resposta ou esperando me decepcionar com um ‘por que vc tá me perguntando isso sua esquisita? me esquece logo!’.
Atrás da foto ele guardou também um cartão do Snoopy que eu tinha comprado pra ele na Castorino Santana, não muito antes dele me trair. O cartão dizia “se isso for um sonho, por favor não me deixe acordar” ou alguma coisa assim. Na frente do cartão ele guardou a chave que costumava ser minha da casa que compartilhávamos. Fiquei pensando sobre ele me carregar no bolso de trás do jeans esburacado dele, e toda vez que precisasse entrar num ônibus ou pagar alguma coisa ele sendo confrontado pelo meu rosto com aquela expressão de ‘lembra daquilo que você fez comigo?’.
É muito irônico tudo isso, um pouco engraçado, um pouco trágico. Eu acho que tem gente que gosta de viver nessas fantasias, o tempo inteiro buscando desesperadamente uma forma de se sentir uma criança de novo. Falta de maturidade mascarada de inocência, desrespeito mascarado de erro, irresponsabilidade mascarada de sonho. Mas é que a vida acontece fora dos sonhos. Foi a minha vida pela dele, o sonho dele pelo meu, e meus sonhos que se fodam e a culpa disso é minha. Chegou um ponto do nosso relacionamento em que todos os meus sonhos eram realizar os dele, hoje com meus olhos muito mais cansados e pesados e quase caindo no sono eu vejo como fui patética.
Sonhar comigo foi tão natural e veio em formato de vingança. Ontem assisti o filme ‘A paixão segundo G.H’, baseado na obra da Clarice Lispector, e tem esse trecho do livro que é fantástico, ela escreve: “Muitas vezes antes de adormecer – nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior – muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono. E quando mesmo assim não tenho coragem, então eu sonho.”
Eu me sentia assim, com medo do que ainda não existia e dependeria apenas de mim para ter a permissão de existir. Eu lutava contra saber que minha realidade não era o que eu via, mas o que eu decidia que estava vendo, e com o fato de que eu não queria mais fazer sentido dos meus sonhos, ou ser justa com os sonhos dele, e então, segurando o que parecia ser a mão da minha própria consciência, eu fui dormir.

autor anônimo




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