Consolidamos city grrl como pauta do mês depois de muito fantasiar e fins de reuniões com suspiros de “ai… vamos de city grrrl?” e essa decisão veio com muitas ideias e curiosidade sobre que tipo de conteúdo sustentaria essa ideia que passamos semanas lapidando e dormindo com. Uma das dúvidas que tivemos ao discutir sobre pessoas convidadas para a Expo Blush era: e se a pessoa for do interior? Será que ela se identificaria com o tema ou ele não é abrangente o suficiente?
Mas pra tudo se tem um jeito e uma interpretação: toda cidade é uma cidade, ainda que pequena, e toda grrrl é uma grrrl. Pessoas ainda são pessoas e espaços ainda são espaços; acreditamos que é quase impossível você fazer parte de um lugar (seja por um segundo ou por duas décadas) e não ter o que falar sobre ele.
Com isso em mente, chamamos Julia Caus, uma city grrrl que enxergamos com grande confiança e admiração, para trazer aqui para a Blush como a Chorona cria, corta, recorta, cola, compõe, junta e transborda como é ser uma city grrrl, ainda que a city seja pequena. Entre shows, zines, quadrinhos e lágrimas, ela é guiada pelo seu coração e pela necessidade de se expressar, se entregando à beleza da imperfeição e de sua vulnerabilidade.

Você se lembra quando e como veio o seu interesse por artes? Quais suas referências? Como foi a trajetória do seu trampo?
Eu acho que comecei a gostar de arte quando era criança. Eu era aquela ‘desenhista da turma’, mas minha glória durou pouco. Chegou uma menina nova que fazia aulas de pintura e desenhava bem melhor do que eu. Ela pintava paisagens e essas coisas. Aí desisti por pirraça, não queria saber de desenhar se eu não fosse a melhor da turma. Só voltei a desenhar depois de muitos anos, por volta de 2017. Depois que meus avós faleceram, entrei numa depressão e usei muito o desenho para botar pra fora tudo que estava embolado internamente, fazia quadrinhos especialmente. Tudo muito deprê, muito dramático. Não consigo olhar para esses cadernos hoje sem sentir uma vergonha astronômica, mas sei que eu precisava daquilo. Eu tinha 15 anos, quem não sente vergonha do que fez com 15 anos?
Querendo ou não, minha vida é minha maior fonte de inspiração. É extremamente difícil para mim separar meu trabalho da vida pessoal. Tudo que faço tem, de certa forma, alguma coisa a ver com o que já aconteceu comigo ou minha opinião sobre determinado assunto. Acho que minhas referências são muito espalhadas, não consigo parar em um formato de criação e não me limito também. Tudo que vejo e que eu gosto entra no meu arquivo pessoal de ‘coisas legais’ e fica instalado no meu subconsciente, constantemente me inspirando e dando ideias.
Quando penso em coisas que me influenciaram artisticamente, lembro de: filmes da Agnès Varda, a série de livros do ‘Querido Diário Otário’, serigrafia, tatuagens de marinheiro, flyers dos anos 70, bichos que se parecem com seus donos, quadrinhos da Alison Bechdel, livros da Eva Furnari, ilustrações da Mariana Massarani, casas com personalidade, a cor rosa, arte da Niki de Saint Phalle, camisetas ‘pega turista’, capas de vinil, e eu poderia ficar muito tempo aqui listando milhões de outras coisas.







A zine Chorona é um projeto que todas da Blush amam! Como foi o processo? Você juntou muita gente e fez um trabalho editorial lindo.
Em 2019, mais ou menos, comecei a escutar muito punk: Destroy Boys, Sleater Kinney, Mannequin Pussy, Mommy Long Legs, e especialmente Bikini Kill. Eu me apaixonei pela banda depois de escutar o álbum ‘The Singles’. Depois, pesquisando sobre a banda, descobri o que eram essas fanzines que elas faziam e achei aquilo incrível. Algum tempo depois, pensei em fazer um projeto de capa de zine. Eu estudava design na época e fiz sem pretensão de realmente realizar o projeto. Pensando em um nome que tem a ver comigo, cheguei em ‘Chorona’. Sempre fui melancólica e gostava muito de chorar, então achei apropriado. Postei no meu Instagram e algumas pessoas comentaram perguntando se seria publicado, e pensei: por que não?
Foi uma gestação que durou mais ou menos 1 ano e meio. Com quase nenhuma experiência em diagramação e um notebook Lenovo chegando muito perto de explodir, trabalhos de 29 garotas e muitas, muitas, muitas lágrimas depois, diretamente de dentro das trincheiras e com muita dificuldade, nasce a primeira Chorona.
Eu tinha muitas coisas para dizer, passei meses fazendo pesquisa, tentando organizar do melhor jeito possível, mas o dinheiro não me permitiu fazer tudo. Meu orçamento era muito pequeno, tudo saiu do meu bolso e não tive nenhum apoio, então tive que mudar muitas coisas, tanto o número de páginas quanto temáticas abordadas e cor. Foram muitos processos até chegar no projeto Chorona_final_final_FINAL_FINAL23.
A zine foi uma companheira para mim durante um ano muito difícil e corrido. Toda janela de tempo que eu tinha, eu estava fazendo algum layout, desenho ou borda decorativa. E a recepção dela foi muito melhor do que eu poderia sonhar! O plano da zine é ser anual e colaborativa. Todo ano teremos um tema diferente. A chamada desse ano deve sair em junho.
A Chorona é um personalidade de muita presença e originalidade, conta pra gente como foi que surgiu a ideia dessa figura?
A personagem Chorona foi aparecendo bem devagar, e não foi uma coisa pensada; ela só apareceu um dia e no meu caderno nunca mais foi embora. É meio que um fluxo da minha mente que se manifesta em quadrinhos bobos. Tudo que penso e tudo que preciso vomitar emocionalmente, fico mais à vontade expressando através dela. Eu gostaria de ter outros personagens, mas por enquanto só ela apareceu.
Outro projeto incrível foi a performance da banda Chorona que você montou especialmente pro seu aniversário. Você pretende seguir com a música?
Eu sou megalomaníaca quando se trata de aniversários; é o único dia do ano onde posso obrigar meus amigos a fazerem a maluquice que eu quiser e eu me aproveito bastante disso. Esse ano foi a banda, e dei uma sorte imensa dos meus amigos animarem a fazer esse show. Era para ser brincadeira de aniversário, mas viramos uma banda de verdade! Nós amamos nos apresentar. Foi fantástico ver todo mundo gritando, pulando e feliz! Continuamos ensaiando e tentando compor depois do nosso show em janeiro e agora fomos convidados para apresentar no evento ‘Mundo Pequeno’ dia 10 de maio. Estamos super ansiosos para nosso segundo show! Vai ser no terraço da nação aqui em Vitória.
Porta Aberta, 2020
Julia Caus
tinta acrílica sob tela
Por fim, sendo City Grrrl o tema desse mês, a gente queria saber como é sua relação com a sua cidade. O que você mais gosta? E o que NÃO gosta? Tem lugares preferidos?
Eu sempre digo que sou um rato da cidade. Gosto de observar o movimento das pessoas, o passo frenético de quem vai bater ponto, as construções antigas escurecidas pelo pó de minério, lojinhas do centro com milhões de bibelôs e maquiagem barata. O silêncio me deixa agoniada e eu amo o tremelique barulhento do ônibus quando ele não está absurdamente lotado e tem lugar para sentar. A cidade é suficientemente estimulante para mim.
Eu sou apaixonada pelo centro da minha cidade, sonho em ter um cantinho daquele lado e odeio quem odeia o centro. É um lugar que está acabado, com certeza, por inúmeros motivos, mas eu tiro muito proveito observando e participando do que resta e do que resiste por lá. Os museus da cidade, o porto de Vitória, as pastelarias que não foram reformadas desde os anos 80, os bares sujos e baratos, as senhorinhas com as roupas de lycra mais espalhafatosas do mundo, as bancas de revista, brechós escondidos, centros culturais, sebos, lojas de vinil, os prédios mais lindos que eu queria muito que não estivessem caindo aos pedaços. Ainda que pequena, existe uma movimentação criativa e cultural muito bonita acontecendo no centro. Espero participar da regeneração desse lugar que amo tanto.

Acesse o portfólio da Julia para conhecer mais sobre o seu trabalho e suas visões! ˚ ♡ ⋆。˚ ୨ৎ













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