Eu estou sentada no chão com as pernas cruzadas. As paredes e o teto são um bege claro e o chão parece um granito azulado de uma borracha lisa. Só há mulheres aqui e alguns meninos, crianças, com suas mães. Algumas delas usam blusa do Brasil e seguram bandeirinhas da Marinha. Uma senhora usa óculos escuros mesmo estando no túnel e eu não sei se ela está me encarando ou não. Ela tem os cabelos curtos, lisos e loiros e está bem arrumada, usa um par de brincos grandes de prata. Algumas meninas sentam no chão e algumas mulheres se seguram com as mãos, em pé, nas barras. Todos os assentos estão ocupados. Algumas pessoas estão indo ou voltando do trabalho, e eu estou voltando pra casa depois de passar a noite na balada. Tem muitas mães aqui, mais do que normalmente. De onde eu estou, vejo 5 mulheres mexendo no celular, e todas elas tem capinhas e modelos de telefone iguais, mas de cores diferentes. A maioria das pessoas aqui não tem expressão alguma ou tem expressões de cansaço, tristeza, descontentamento, eu acho que também tenho essa expressão. Ouço há uns bons minutos o barulho incessante dos trilhos e da corrente de vento, que finalmente cessa junto com o surgimento da vista lá de fora nas janelas. O céu está azul, a grama muito verde e está sol e calor, mas bate uma brisa boa. Eu esqueci meu fone de ouvido e tento recitar na minha cabeça uma música do Leonard Cohen, mas eu não sei ela do começo ao final e fico matutando a mesma frase o caminho inteiro. Estou com uma tosse irritante, que tento segurar. Também estou com cólica. E sede. De onde estou vejo muitos pés e conto 9 mulheres usando chinelos e 11 usando sapatos fechados. Dois lugares vagam e são logo ocupados, não sinto vontade de pegar um lugar no banco para mim, está confortável no chão. Uma criança para em pé na minha frente e duas mulheres do meu lado. Logo depois, o aviso sonoro me diz que “sentar no chão ou agachar atrapalha o embarque e o desembarque dos passageiros”. As pessoas que acabaram de chegar do meu lado parecem perceber que entraram no vagão feminino sem querer, e falam isso em voz alta em meio a risos e piadas. Quando olho para cima vejo que, na verdade, eram duas meninas adolescentes, uma mulher mais velha de cabelos curtos vermelhos e que o menino deve ter uns 15 anos. Gosto muito da vista do céu azul e da pontinha das árvores no caminho, parece que o trem está no céu. As pessoas que entraram sem querer saem correndo pra entrar num outro vagão, de maneira meio desengonçada. Tenho que descer na próxima estação, me lembro. Uma mãe segura um bebê numa daquelas bolsas que ficam presas na frente da barriga, ele dorme muito sereno, ela parece estar quase dormindo também, mas um sono cansado. Gosto de observar o que as pessoas estão vestindo e imaginar a história da vida delas. Enquanto passo pelos outros vagões, vejo que eles estão muito cheios, mas hoje é feriado.




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