i.
A imagem de mato solitário sempre foi linda, linda, principalmente quando amigas me comentam que é o sonho delas, e, sim, como aproveito, com uma família roceira, as passadas eventuais no campo – é absurdo, mesmo, o silêncio, o céu, é tudo isso, sim. Mas, mesmo nestes tempos, não sai da minha cabeça a cidade, não sei. Voltar pra ela fica mais gostoso.

Primeiro que combato um pouquinho a noção de vida campestre com mais essência, especialmente das fazendas que conheço. É muito ter mais cores para olhar, mais vida e menos cimento. Mas Ideia de existência natural, a gente sabe, não é nada tão mais, sei lá, moral, nada realmente puro de toque humano, se isso for o que se busca evitar. A paisagem que olho é a paisagem de mil e uma arquitetações arquitetônicas, ancestrais ou mais recentes do que se pensa, todos antes fazendo decoração ou buscando certa funcionalidade, milhares de cercas, plantações estáveis, meio delineadas.

A imagem do campo me é, sim, belíssima, mas não por motivos de contato com seja lá quais tantos espíritos se não, com certo ênfase, o nosso… E, desse jeito, não consigo estar nessas fazendas sentindo qualquer repulsa por voltar a ver a vista de construções e bate-e-volta. Acho-as, sim, muito próximas.

ii.
Mais nova, sentia que todos meus gostos eram um segredo. Morar sozinha, hoje, me retoma um pouco do sentimento. Me alegrando de saber melhor, de novo, ficar só, e me guardar os interesses mais empolgados por um tempo, lembro de quando era flagrada de madrugada e levava gritos por estar na sala de estar, no escuro, com cara de manhosa e deslumbrada, ouvindo alguma coisa, filmes que hoje não gosto mais, pensando em combinações, possibilidades belas de ocorrências.

O que machucou, nos últimos dias, foi ser levada à reflexão por alguém mais velho de que, nessa época, me “aproveitar” não era por escolha, e que pensava, na verdade, a cada instante, na vontade de ter alguém para viver comigo.

Então volto aos meus hábitos com uma satisfação alegre triste de quem também anda sentindo que o que tenho a compartilhar tem este ar de impossibilidade.

Mas eu morava numa casa com muito espaço vazio, rodeada de ruas com postes de lâmpada amarela, e agora estou num apartamento pequeno, branco, e com obra na frente. É mais fácil se sentir a garota que se independe sozinha, a força disso, por mais que seja tão difícil.

A psicóloga veio e disse que a específica estruturação da minha infância e meus traumas, que tenho, assim como todo, todo mundo, me trouxeram e permitiram a sensibilidade exacerbada, de me emocionar até demais com pop, quando assisto Reels, quando me contam histórias, quando penso em perder meus pais, por exemplo, e de sentir com facilidade o que uma mãe sente quando chora calada na minha frente, às 22 horas no metrô, logo depois da filhinha, séria, terminar seu lanchinho do Mc Lanche Feliz e deitar a cabeça no seu colo. Tentei esconder e morri de vergonha de que ela visse que uma desconhecida espelhou seu choro.

Cidade não é fácil, não me impede de ver o outro, não tenho como não ver, não tenho como deixar o mundo de fora.

Passo o dia todo na cidade curiosa, de verdade. É difícil quando ando na calçada e as pessoas tem cara de chatas demais, ou são bonitas demais, mas não posso olhar todas nos olhos, uma ou outra escapole. Em dias atarefados reparo em tantos da cabeça aos pés e me questiono quando fazem o mesmo. Eu me controlo além do normal. Quando alguém parece interessante até demais, viro pro chão, tento não pensar no que pensaram de mim.

Não sei se muitas têm o mesmo problema que eu, mas encontro mulheres estonteantes, absolutas, capazes de dar obsessão, em quase todo lugar. Tento não me sentir assombrada. No vagão feminino do metrô é difícil, sempre tem uma adolescente, uma adulta, uma de salto, ou cheia de joias, ou com uniforme. Percebo o que as mulheres business estão usando, as adolescentes, essas principalmente, e as velhas e pequenininhas só às vezes. Sei que tento encontrar o rumo.

iii.
Minha mãe cresceu em cidadezinhas, mas rapidamente se tornou uma garota da vida noturna, agitada, a partir de uns 15 anos. Aos 18 arriscou ir só para São Paulo, e sempre me contou que andava para o orelhão, debaixo de Sol ou chuva, para falar com o pai, tanto na saudade quanto naquele desespero de “não ter um puto no bolso”… chorava quase todo dia, por razões meio inexplicáveis. E foi expulsa da república que morava por levar um garoto, o que era proibido.

Se mudou para uma mais ou menos grande, mais perto daqui, de onde estou agora. Ela me diz: não sei como aguentei uma cidade tão mesquinha. Namorou quase que exclusivamente filhos de político, as irmãs só mantinham amizades com herdeiro, mas, de tantos círculos, foi em grande parte convivendo com a juventude pechinchadora de LPs, gostava muito de música, ouvindo The Cure e Thin Lizzy alto na sala enquanto passava tempo com o homem que viria a ser meu pai.

“Nós queríamos estar juntos o tempo todo. Só que, numa época, eu fiquei a semana toda na frente do telefone e nada. Ele começou a inventar desculpas, simplesmente se cansava de mim às vezes. Quando confrontei, disse que eu estava sufocando, mas, quando dei um basta, ele voltou atrás, desesperado, e disse que não vivia sem mim.”
– Mamãe

Eu sempre respondo: “Por que homem é assim?” (Ainda estão juntos, com suas dificuldades).

Depois de muito tempo, muita festa, muitas viagens de praia, popularidade, crescer bastante, minha mãe se afastou de tudo. Me teve com 35 anos. Comprou lote numa cidade quando tudo ainda meio que era mato, sem nenhum parente ou amigo por perto, e dormia só, ouvindo barulho de rato, enquanto grávida.

Ela pediu para que eu tirasse fotos suas na viagem hoje e percebi, pela primeira vez, a história que originou suas poses, feitas para outro tipo de imagem, de beleza adolescente, de lente analógica com qualidade, que meu celular não permite, não deixa os momentos com o tom oficial, magistral e condensado, que ela já teve. Mas o que impressiona é que ela não sente
falta, gosta das novas formas de fotografia.

Faz muitas gracinhas, ri, mas, na maior parte do tempo, trabalha. A minha mãe consegue ser a última a ainda aguentar bebida na festa, a estar balançando os braços e dizendo piadas quando todos os outros já estão naquela energia pesada, mas também consegue ser a que não descansa por semanas e fala com leveza só com os mil gatos que alimenta da rua.

Ela é a pessoa mais e menos espontânea que eu já conheci, mais e menos controlada, que mais se constrange em falar e a que mais constrange os outros sem querer falando. Mais solitária, mais interna, mais presente, mais externa. Que já senti como a mais preocupada comigo, que já senti que é a que menos liga.

Testo as mesmas possibilidades, longe dela, na busca por caminho e juventude, até virar tão velha e tão nova. Eu também estava chorando todo dia, igual mamãe jovem, mas estou começando a ver as coisas de outro jeito.

texto por Ana Carolina Franco Silva

Uma resposta para “questões de raízes no centro”.

  1. que preciosidade ler isso aqui, 23h dum domingo à noite (vocês sabem como dói). foi um afago no coração e, por hora, não me sinto tão sozinha. tô a 1400 quilômetros de casa, dessa cidade grande em que nasci. tô dentro da minha própria casa, agora no meio do mato. é difícil, nunca sinto casa em nenhum desses lugares / é complexo, são noções de casa que dão norte à maneira em que tento construir lar ~~~~
    sempre encasqueto para com as nuances em que a existência é – o que acontece entre o mais e o menos, o ancestral e o contemporâneo, o tudo e o nada, estar perto e estar longe. aos 23 já sou velha e, além disso, ainda sou tão criança! de fato, o urbano e o rural nada têm em comum. fator suficiente para torná-los idênticos. acho que é porque a vida tá acontecendo no [entre] da polaridade das coisas. estamos sendo o [entre], a linha que costura e desfaz, gostemos ou não.
    penso que o mundo não fica de fora nem do próprio mundo. é por isso que as coisas não são pontuais e absolutas. ferida aberta do que ainda pode ser (ou do que poderia ter sido!), mas também cicatriz, porque carrega resquícios do que um dia já foi.
    por causa disso que levei a distância de quase 20 anos de idade e de um estado inteiro para ficar próxima de minha mãe. puts, mais e mais percebo vestígios dela em mim. talvez o anacronismo só exista na palavra, porque o coração é integral o tempo todo.

    ecoou aqui dentro o poema “na enseada de botafogo”, de manoel de barros… me traz o mesmo sentimento. ♥

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