Fechando o mês de Maio, o Expo Blush continua a explorar a relação íntima entre arte, cidade e identidade com nossa mais nova convidada, Pauli Carvalho. Com uma abordagem que transita entre o lúdico e o perturbador, suas obras exploram temas voltados à identidade de gênero, autoimagem, espiritualidade e trauma. Sua história é contada através de elementos da infância, pelúcias, bonecas, texturas por cima de mais texturas, criando um contraste que captura de forma linda e inquietante todas as sensações agridoces de nossas passagens ou permanências em uma cidade.

pelúcia, látex, plástico e acrílica
20 x 20 cm

madeira, tecido, pelúcia, plástico, metal e cola
38 x 30 x 8 cm

tecido e porcelana
30 x 15 x 11 cm
Blush: Você se lembra quando e como veio o seu interesse por artes? Quais suas referências? Como foi a trajetória do seu trampo?
Pauli: No ensino médio, acredito. Comecei a rabiscar a fim de sublimar uma série de conflitos internos da puberdade (em relação a espiritualidade, sexualidade, identidade de gênero, psique e trauma, autoimagem etc). Mal tinha formação artística – não vim do berço da elite cultural e em casa nunca se falou de arte. Peguei uns livros emprestados de amigos e (é claro) a internet… No terceiro ano [do ensino médio] prestei vestibular pra artes visuais no Instituto de Artes da Unesp, passei e comecei a levar a produção mais a sério, num lugar profissional e tudo mais. Sobre as referências imediatas… Tracey Emin, Marcia X, Leda Catunda, Nelson Leirner, Mike Kelley, Antonio Dias…


óleo sobre tela
20 x 30 cm

técnica mista
47 x 25 cm
Blush: Existe alguma obra de arte (sua ou de outro artista) que você considera particularmente significativa para a sua trajetória?
Pauli: Os “Kaminhas Sutrinhas” de Marcia X: corpos de bonecas decapitados formando um tipo de centopeia humana numa caminha.

Márcia X
Plástico, madeira pintada e tecido
Blush: Como você vê a relação entre identidade, expressão artística e o lugar em que você vive?
Pauli: A produção do artista pode entregar muito ou nada sobre quem é (não quero iniciar nenhum debate sobre expressividade e formalismo, acho que tem hora e espaço pra tudo, o legal é experimentar). São Paulo tem uma “poluição visual” enorme, acho que a gente precisa pensar um pouco nesse termo também: poluição é pejorativo, acho que vale pra sujeira da propaganda capitalista (especialmente quando promove assepsia/higienização), mas sou encantadíssima nos murais de comércios feitos à mão e nas piadas/jogos de linguagem de certos anúncios, letreiros e… enfim, minha arte é bem “suja” também… gosto das mil camadas e das sobreposições e da mancha e…

pinos de cocaína
dimensões variáveis

tampinhas de garrafa e pérola artificial
Blush: Nós da Blush ficamos encantadas com os contrastes encontrados nas suas obras – o grotesco que se encontra com bonecas, elementos da infância e o feminino. Como essa abordagem ajuda a amplificar as mensagens ou temas que você deseja explorar em suas obras?
Pauli: Esquadrinhando um pouco a primeira resposta, encontrei inicialmente na linguagem e na forma do desenho infantil (ou do desenho animado, do cartum etc) um lugar interessante pra elaborar certo tipo de inocência perdida e de disfuncionalidade – também sempre me fascinou a violência desses: animais personificados perseguindo um ao outro com bombas dinamite, bigornas e… Na minha arte, de certa forma, a representação de uma infância traumática e um desafio à lei paterna (o “Nome-do-Pai” [Lacan]) e à ordem simbólica do mundo. Hal Foster escreve em “O retorno do real” sobre Mike Kelley: Kelley estabelece grande contribuição pra crítica com sua provocação infantilizada, evoca o corpo materno nos brinquedos e cobertores profanados “pensando o materialismo por meio de fatos psicológicos ou sociais”… Os elementos da infância, as bonecas e o feminino se relacionam [entre si e] com o grotesco nesses tópicos centrais da minha produção: a violência de gênero, a perversão… Gosto também de ver como um resgate de “brinquedos de meninas” que eram proibidos ou no mínimo não incentivados – e aí uma questão da transexualidade…

plástico, borracha e tecido

assemblage com ferro, porcelana e plástico
dimensões variáveis
Blush: Por fim, sendo City Grrrl o tema desse mês, a gente queria saber como é sua relação com a sua cidade, o que você mais gosta? E o que NÃO gosta? Tem lugares preferidos?
Pauli: Gosto do pixo, do design amador, dos cinemas de rua e dos espaços culturais independentes. Gosto das festas. Não gosto dos centros corporativos, da cultura de trabalho (exaustivo) e da gentrificação pesada. O Museu de Arte Contemporânea da USP tem um acervo muito maneiro, a Pinacoteca também. CineSesc (e os Sescs também na verdade, que promovem lazer e cultura de forma até que bastante acessível). Raul é um senhor muito querido que tem um barzinho na Cardeal Arcoverde, recomendo tanto quanto os bolinhos e as dezenas de cachaças do [bar do] Gonzaga (seu irmão, acho) a alguns passos de distância. Parque da Aclimação, restaurantes da Liberdade e o Teatro Municipal.

Conheça mais do trabalho da Pauli aqui •。˚⋅



Deixe um comentário