Para o primeiro Expo Blush do mês de Amores, Desejos & Obsessões, convidamos Valentina Penner, cineasta e diretora de arte de Brasília, pra falar sobre seu próximo curta:
Um curta ousado desde a trilha sonora (que conta com gemidos bem sem vergonha) até o figurino (com lingeries de sex shop, saltos cor de rosa, pérolas e tramp stamp) passando pela maquiagem extravagente e pelo cenário à luz de velas, holofotes e luzes vermelhas. Criando, juntos, essa atmosfera sensual, que ao mesmo tempo brinca com os clichês das sex scenes e da caracterização da mulher no Cinema. E o que é mais nítido: tudo pelo ponto de vista de uma mulher – que é ao mesmo tempo Lady e Tina.
Conversamos sobre ousar mais no (curso de) Cinema, delimitar o que seria a “objetificação da mulher”, a repressão dos desejos femininos pela culpa cristã, ser uma mulher errada, e sobre divas pop, Courtney Love, breguice glamourizada e Pabllo Vittar.


Blush: Conta pra gente um pouco sobre você e sua carreira, o que você faz e mais gosta de fazer, o que te inspira, referências de vida e profissionais…
Tina: Oi Blush!! Sou conhecida como Tina, curso Cinema e me considero multiartista. Trabalho atualmente como diretora de arte e me arrisquei pela primeira vez como diretora e roteirista no Quente Sedução. Eu amo dirigir pelas ruas do plano piloto ouvindo música bem alto, ver clipes musicais na tv com meus amigos, sair à noite e ir ao cinema. Divas pop são as minhas maiores inspirações desde criança, e até hoje eu sou apaixonada por essa esfera cultural. Protagonismo feminino, liberdade sexual e a breguice glamourizada me encantam. Talvez minha maior inspiração atualmente seja a Madonna, por ela ser essa figura que atinge todos os públicos. É difícil não ser nichada na arte, e acho que ela navega muito bem entre o mainstream e o conceitual. De vida é a Courtney Love, ela é muito chata e ela sabe disso. Amo mulheres chatas. Além disso, as músicas dela me fazem me sentir um pouco melhor sobre não ser uma mulher “certa”.

Blush: Você considera que se inspira, de alguma forma, nos seus próprios desejos, amores & obsessões pra fazer seus trabalhos? Como é esse processo pra você e de que maneira isso influencia suas obras (em especial o Quente Sedução) ?
Tina: Os meus amores, desejos e obsessões são coisas que ocupam muito minha cabeça diariamente e não consigo lidar muito bem com eles na vida real. Na ficção, eu deixo fluir, sem pensar demais. Mas a inspiração mesmo, na minha experiência, parece que só fica clara depois que eu vi o filme finalizado. Tive um momento meio ”ahhhhhhhh, era isso que eu queria dizer e não tava conseguindo!”. É um rolê meio inconsciente mesmo, e inevitável, de verdade. Sou uma pessoa muito sensível, sempre fui. Minha falta de talento em me expressar por palavras cria esse espaço no qual posso vomitar meus pensamentos por imagens, transformando a obra em um espaço visual muito rico.
Blush: Deve ter sido no mínimo desafiador realizar – especialmente na faculdade e sendo mulher – um curta que retrata o feminino, o corpo e o sexo de maneira tão fiel e sensível ao mesmo tempo. Você enfrentou opiniões adversas a respeito do seu trabalho no curta ao longo do caminho?
Tina: Primeiramente, obrigada! Fico feliz com esse feedback. Sim, foi desafiador. Mas eu tava caçando esse incômodo também. Queria sair um pouco da zona de conforto que via presenciando na minha faculdade, e até que eu via no cinema brasileiro atual. Presenciei desconfiança no meu trabalho por ser um filme erótico, com uma protagonista feminina, tinham medo que pudesse acabar caindo numa narrativa problemática por conta de todos os atributos ligados à feminilidade: como pérolas, lingerie, salto alto; e toda a atmosfera abertamente sexual do filme. O que achei meio estranho de início, pois minha cabeça não faz essa associação de objetos considerados símbolos da feminilidade com a objetificação do corpo. O que eu queria mesmo era brincar com o clichê e o orgânico de como o sexo é retratado no cinema. Acho que consegui.

Blush: O seu filme ressoa intimamente com um sentimento que provavelmente toda mulher já sentiu alguma vez na vida. O que significa, pra você, retratar esse desejo feminino?
Tina: Como é um filme experimental, o sentimento fica ao seu critério. Eu espero que as pessoas que assistam a esse filme, sintam suas próprias culpas representadas. Como mulher, a violência simbólica é um encosto que carregamos a vida inteira. Desde Maria Madalena, o desejo feminino é considerado obsceno, proibido, enquanto o masculino é viril. O que o Quente Sedução e a Lady significam pra mim, e esperançosamente pra quem assistir também, é a libertação da culpa cristã e a liberação do desejo absoluto.

Blush: Pra finalizar, compartilhe com a gente: 1 amor, 1 desejo e 1 obsessão do momento.
Tina: 1 amor: anos 70; 1 desejo: dirigir um clipe da Pabllo Vittar; 1 obsessão: meu Palinho 2009.

stay tuned:
Quente Sedução deve estrear em festivais até o ano que vem,
acompanhe esse e outros trabalhos de Tina em @verdyesmeralda
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