Estou escrevendo esse texto com uma certa temática que me designaram, que fala sobre os outros. Impossível, pensei. Em minha profissão é necessário saber criar histórias sobre todos os assuntos possíveis e impossíveis, mas, em tudo que já escrevi, e, pretendo que continue assim, não por gosto ou capricho, mas por algo mais vil e cruel por trás, uma letárgica e fulminante sensação de sou o que sou e nunca mudarei. E, mesmo não amando quem sou, é o que eu tenho. Precisamos aceitar algumas verdades universais de nós mesmos, não da vida. Por trás deste desgosto em ser o que não quero, há uma maldade crônica de gostar de ser repugnante e maliciosa. Um mundo secreto doentio só meu. Porque eu posso me expor e me contorcer de dor e agonia ao escrever e falar sobre mim mas não posso fazer o mesmo com os outros? Porque precisa ser uma dor unilateral? Assim como as pessoas se usam no dia a dia, ao serem gentis umas com as outras por interesses próprios, ao foderem casualmente, duas coisas que toda pessoa faz, se quiser buscar alguma forma de benefício fácil e se sentir vivo de vez em quando. Eu uso as pessoas e elas me usam, quaisquer que sejam suas intenções e finalidades. Esta é uma verdade universal.
Quando alguém surge casualmente de noite, em alguma esquina fora de uma boate ou de um beco sujo de bar, com um sorriso puxado de lado, eu sei que sou apenas um corpo sem alma ali, assim como é o daquele boneco que se encontra na minha frente, tentando formar algumas poucas palavras que me convençam a ir com ele. Sempre me aborreço, não precisa, não preciso de nomes, onde mora, qualquer gosto mínimo, eu só preciso que você seja o que já me mostrou ali, algo para passar um certo período de tempo. Além de mentir para os outros, sou especialista em mentir para mim mesma, a verdade, que um dia achei que fosse advinda de meus pensamentos naturais e orgânicos, quase como um bebê puro, eram na verdade doentes distorções para me fazer sentir menos mal. Minto quando digo que não me doi ser só um buraco onde depositam o que querem de vez em quando, mas sempre finjo que gosto de ser assim. Mas por dentro, já matei tanto essa tristeza que não lembro mais dela, mas sim de algo pior e mais perigoso, uma vaga lembrança do que um dia foi uma emoção verdadeira.
Até que com o passar do tempo, essa grande angústia passou lentamente, quase imperceptível, mas se observasse sua mudança a longo prazo, seriam vistas as consequências deturpantes, um doentio jogo de poder. Não sei bem ao certo se faço o que faço e sou o que sou por conta de uma solidão crônica e excruciante ou se é algo mais íntimo e secreto, uma vontade desesperada de amar e ser compreendida, algo tão brutal e violento que não sei lidar normalmente, então ajo como um ser animalesco, em busca do que todo mundo quer: amar e ser amado. Mas a minha maneira. A única que sei. Então volto a me perguntar, de onde vem essa busca e desejo pelo poder? Psicólogos e terapeutas obviamente me diriam que deve ser algum trauma da infância. Talvez papai não amasse a mamãe e nem ela o amasse. Mas foda- se os dois, como pode algo que nem devia ser lembrado, ficar alojado como um parasita na minha mente e nunca sair? E, destruir ao longo dos anos, pouco a pouco, todas as minhas possibilidades de me relacionar até me tornar uma besta morbidamente entorpecida. O medo de virar meus pais foi superado, me tornei uma criatura pior que eles. O jogo está ganho.
Depois de ganhar a partida contra meus pais, me desafiei com os outros. Porque os jogos de poder estão do oposto extremo do amor? Para mim o tesão vem do poder. Nada mais divertido que testar até onde uma pessoa pode ir, ver como ela age, analisando e se deliciando com tudo que ela está lhe permitindo, sem ela desconfiar de nada. Dominar alguém não só no sexo, que é a coisa mais comum e normal do mundo, mas a sua mente, torná-la um caos e levar aos extremos. Controle da narrativa, domínio absoluto sobre o que outra pessoa pensa e faz. Adoração cega e infundada. Como é bom me usar para criar os maiores e mais perversos enredos. Escrevo este texto em pedaços fracionados, algumas partes escrevi ao lado de pessoas que estavam dormindo, narrando fragmentos do nossos breves e intensos encontros, outros, enquanto em outra aba, conversava com mais estranhos que se achavam conhecedores de mim e no controle do nosso embaraço amoroso. Nenhum nunca saberá que escrevo sobre eles, não porque eu esconda algo, nunca cogitei nem por um milésimo de segundo esconder algo das minhas afiadas palavras e meus abomináveis contos. E se um dia descobrirem eu minto. Tão simples. Se não acreditarem, não há nada que possa fazer, descomplicado assim. É excitante estar nesse limiar, entre o certo e o errado, entre o manipular e mentir e contar a verdade e sentir algo.
Até que você chegou. Soube que algo ia ser diferente, quando, depois de nos conhecermos, você adormeceu na minha cama e eu, estava escrevendo sobre como havia sido, mas não percebi que na verdade, você estava acordado, me vendo escrever e lendo. Pensei que havia sido desleixada após anos. Já tinha uma mentira preparada, mas você não esboçou nenhuma reação, apenas olhou rapidamente para mim, se levantou e fez café, me trouxe e disse: você deve estar cansada. Porque você não se importou com o conteúdo? Ou será que foi exatamente isso que você fez? Não o deste conto, um passado conturbado e desumano, mas me viu além do que eu escrevo, do que eu sou. Essa possibilidade me fez estremecer pela primeira vez na vida. Aceitar um gesto de afeto me assombrou mais que a consciência de que havia virado o monstro que eu abominava, meus pais e os malditos encontros sexuais da minha adolescência, as bestas feras que eu odiava e anos mais tarde havia virado esses mesmos monstros que tanto abominava. Depois disso eu nunca mais vi você, ignorei todas as mensagens e bloqueei, como já fiz tantas vezes. Mas talvez eu realmente vislumbrei momentaneamente algo que fosse parecido com uma relação normal com você, mas como eu não sei bem como é, se dissipou rápido. Foi o meu conto de fadas. Pela primeira vez cogitei não escrever sobre alguém, deletei algumas coisas, mudei outras, apaguei tudo, um ciclo pulsante disso e nada parecia correto. Como não é certo expor e fazer algo ruim ser favorável para mim? A todos os que se aproveitaram de mim, me humilharam, mentiram e se divertiram às minhas custas eu entrego o magnum opus da minha carreira, as cabeças de vocês, podres, carcaças imundas, ossificadas, em uma bandeja da mais fina prata para o mundo. Não sou eu quem vai servir, eu estarei em pé no meio do salão vendo os pratos serem entregues a cada pessoa. Não quero chegar perto da carne putrefata de vocês, novamente. Quero ver as pessoas comendo os horrores que saíram de mim, o caos e desespero de reações e identificações. Eu quero sentir tudo dos outros. Então percebo como sinto sua falta.
Texto por Camila Simões e arte da capa por Sofia Caruso.




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