Para o último Expo Blush do mês de Junho, convidamos Magu Bistafa, artista visual de Curitiba que nos encantou com seus retratos. Em tons de rosa, crochês, flores e técnicas de gravura e monotipia, Magu cria rostos femininos misteriosos – e a repetição de olhares melancólicos e bochechas coradas nos intrigou.
Nessa entrevista, falamos um pouco de tudo sobre amores, desejos e obsessões, e sobre como seu desejo de continuar a colorir esses rostos a levou a desenvolver seu projeto de TCC: um altar que combina pinturas com elementos mágicos, religiosos e pessoais para tentar entender quem são essas figuras, assim como homenagear as mulheres que a rodeia e todas as coisas que a inspira.
Ao mesmo tempo em que nos apaixonamos por essas mulheres, nos apaixonamos pelo amor de Magu por elas. Seu trabalho não apenas revela de forma íntima e vulnerável a profundidade de suas personagens, mas também a devoção e o carinho que a artista sente por suas criações.

Monotipia
Blush: Oii, Magu! Faça uma breve apresentação sobre você e sua carreira; o que você faz e mais gosta de fazer, o que te inspira, referências de vida e profissionais…
Magu: Oi! Obrigada pelo convite e pelo espaço 🙂 eu sou artista visual, formada em gravura pela EMBAP e tenho 28 anos. Eu trabalho com várias técnicas e materiais para criar retratos de figuras femininas imaginárias e estou no processo de expandir o universo delas. Eu gosto de caminhar no parque cedo (algo novo na minha vida) e ver minhas amigas! Minhas amigas e tias e irmã são com certeza uma grande inspiração quando evoco um universo do feminino. Pesquiso muito artistas mulheres para ter como referência e vou compartilhar duas que mudaram minha vida. A Marie Laurencin que foi uma artista francesa que fez sucesso no sec XX e quando a conheci aos 16 anos, foi a primeira vez que eu vi uma artista mulher pintando outras mulheres e isso mudou tudo! Mais recentemente vi pessoalmente o trabalho da gravadora cubana Belkis Ayón que eu já conhecia, mas ver ao vivo foi uma experiência transformadora que me fez buscar outros tipos de imagem e possibilidades na gravura.

Marie Laurencin

Belkis Ayón
Blush: Você considera que se inspira, de alguma forma, nos seus próprios desejos, amores & obsessões para a sua produção artística? Como é o seu processo criativo? Ele se diferencia muito dependendo do tipo de mídia trabalhado?
Magu: Com certeza! O meu trabalho vem de referências de coisas que eu amo, das mulheres que me rodeiam, da infância quando eu assistia sailor moon, das revistas de moda da minha mãe que eu lia quando era adolescente, das imagens católicas que estão espalhadas pela minha casa. E eu acho que a própria ideia do que é a obsessão, o próprio amor e o desejo são inspirações também, talvez eu seja obcecada pela obsessão em si? Não sei se faz sentido. E no meu processo criativo, eu parto apenas dessa obsessão com a figura e tento fazer ela tomar forma de diferentes maneiras. Daí sim, eu penso a partir da técnica na qual estou trabalhando, em como essa técnica vai comportar essa imagem do femino que eu busco. A figura já está de certa forma mecanizada, mas ao mesmo tempo a imagem não existe antes na minha cabeça, é sempre uma surpresa o que acontece durante o processo. É um processo que é parte uma figura conhecida, parte uma surpresa.



Sem título, 2023
Aquarela sobre papel com interferência de monotipia
Blush: Você conta que, em sua pesquisa do TCC, as mulheres que você desenha sempre foram misteriosas para você, como personagens de uma vida inacessível. Como você imagina que seria a vida delas? Quem elas são para você? Nos conte um pouquinho mais sobre esse trabalho!
Magu: Eu acho que esse meu TCC foi justamente expandir o universo delas para tentar entender isso. Eu desenhava essas personagens e elas ocupavam um não-lugar, um lugar flutuante, ela eram muito distantes, então eu comecei a pensar como seria a casa delas e talvez isso me permitisse entender quem elas eram. No no fim das contas, eu só aceitei que elas eram misteriosas mesmo. Então respondendo mais objetivamente, eu não sei que são elas! Isso me assusta e me fascina a fazer mais e mais trabalhos sobre elas. Eu meio que sei de onde elas vem (dessas obsessões que eu falei, como amigas, moda, infância, imagens sacras) mas elas tem uma história que acho que quem entra em contato com elas (o público) sabe dizer melhor qual é. Hoje tento não intelectualizar tanto essa questão e só me concentrar na imagem.

Instalação. Gravura em metal, cologravura, bordado, massa plástica, medalhas achadas, aquarela com interferência de gravura em metal, crochê

Blush: Percebemos que a instalação que você criou, – com uma combinação de elementos mágicos, religiosos e pessoais – é uma obra que não apenas revela um mundo imaginário, mas também uma intimidade com estas figuras… Neste mês, aqui na Blush, falamos muito sobre devoção e amor platônico – e a manifestação desse amor na produção artística. Existe alguma outra figura ou sentimento para o qual você montaria um altar? Se sim, como você imagina que seria esse altar e o que ele representaria para você?
Magu: Acho que tem tantas pessoas e coisas que merecem altares. Estou no meu quarto agora e percebo que eu já tenho pequenos altares para coisas como: minha melhor amiga, meus pensamentos / rotina / referências, para a minha fé (que nem sei muito bem como funciona) e eles são feitos de uma composição cuidadosa de imagens e velas e pequenos objetos e terços. Um caderno / diário é um altar perfeito para si mesma também. Quando vemos o cotidiano por lentes do sagrado qualquer conjunto de coisas especiais é um altar.


Casa / Altar, 2020 – 2023
Instalação. Gravura em metal, latas de bala, cerâmica plástica, medalhas achadas, medalha com resina, bordado, renda, borboleta encontrada, textos datilografados, aquarela sobre papel com monotipia e tecido

Oratório de bolso, 2021
Objeto. Gravura em metal, bordado, medalhas sobre algodão cru
Blush: Compartilhe com a gente: 1 amor, 1 desejo e 1 obsessão
Magu: 1 amor: existem muitos, mas pensei nos gatos aqui de casa. Tínhamos uma gatinha e de repente temos 4 agora, todos adoráveis .
1 desejo: ter a vida mais normal e estável possível, me esforçando para ser mais amorosa, gentil e correta e balancear isso com o entendimento de que eu posso e vou errar.
1 obsessão: me vestir com cuidado de manhã. Eu me desliguei muito de mim mesma nos anos passados, hoje tento me esforçar todo dia para pensar numa roupa e me sentir bem, isso anima meu dia .

Blush: Pensando no futuro de sua caminhada como artista, como você pretende continuar explorando os temas de amor, desejo e obsessão em seus trabalhos? Há novas abordagens ou projetos que gostaria de desenvolver?
Magu: Sim! Acho que esse tema ainda não esgotou e fiquei animada com essa pergunta, porque eu estou explorando coisas novas sim, principalmente com a ideia do amor romântico. Como sou uma solteirona crônica, o romance é um tema que me desperta curiosidade profunda, ansiedade e desejo. Estou criando objetos e pensando numa performance sobre esse tema, mas nada completamente elaborado.

Cologravura
78,5 x 105 cm

Cologravura

Cologravura
53 x 78,5 cm
Conheça mais do trabalho da Magu em @magubistafa




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