Quando eu tinha nove anos de idade, eu ouvi “Crazy for You” da Madonna pela primeira vez. Eu mal sabia inglês naquela época para entender sobre o quê ela cantava, mas toda aquela sonoridade particular dos anos 80, extremamente nostálgica e romântica, me ensinou algo indizível. Devia ser muito bom se apaixonar em 1985. 

tomando sorvete e lendo poemas depois de comprar meu ramalhete semanal de flores

Ser uma pessoa romântica parece estar fora de moda. Ou pior, talvez seja a nova inimiga do momento, feito ovo ou manteiga, que sempre fazem revezamento no papel de mocinho ou vilão de uma alimentação balanceada. Mas o que é ser uma pessoa romântica hoje? Um tema recorrente nas minhas conversas com pessoas queridas é o encontro – principalmente fora dos apps de relacionamento (o que eu gosto de chamar de flerte analógico). E para mim, ser uma pessoa romântica tem alguma ligação com essa visão de mundo que foge do pragmatismo de um match em um aplicativo. 

Entre idas e vindas de namoros e relacionamentos das mais diversas configurações, me dei conta que meu desejo não cabe num carrossel didático do Instagram – com boas maneiras de como se relacionar organizadas em tópicos e cores pasteis. Ao longo dos anos me dei o trabalho de demolir e reconstruir a ideia do que seria, e, como eu me via dentro de um envolvimento afetivo. Acabei por me reencontrar nesse lugar, da mulher romântica – que antes me causava grande constrangimento. Talvez por ser um estereótipo do universo feminino (e eu sempre gostei de ser do contra), então passei bons anos num cabo de guerra comigo mesma e me munindo de uma armadura racional. 

uma declaração de amor pelo bairro
meu relógio de corda
vinil que encontrei num bazar (no dia dos namorados)
saindo de casa de camisola rendada (um figurino definitivamente romântico)

Eu escrevo poemas, gosto de cinema francês, tenho um relógio de corda que vira e mexe inventa de atrasar. É claro que sou romântica. Gosto de acreditar que essa visão ultrapassa as quatro paredes de uma relação afetivo-sexual, é quase como um viés filosófico, um jeito de viver a vida. É sobre sair para comprar um pacote de macarrão e viver uma aventura no percurso da sua casa até o mercado. Olhar para o mundo com fome, sem olhos automatizados, deixar eles flanarem e criarem intimidade com as redondezas – e, quem sabe, topar com alguém interessante pelo caminho. 

Hoje eu não me esforço pra ser correta ou seguir alguma cartilha ante o emocional – tem coisas que sentimos e ponto. Gosto da ideia de Crazy for You  (ou quem sabe Pearly-dewdrop’s Drops do Cocteau Twins – que eu não faço a mínima ideia da letra até hoje, mas acho tão linda…) ressoando dentro da minha cabeça quando eu me apaixonar e não precisar entender o porquê disso, apenas dançar um bailinho com o mistério. 

Texto por Arissa Oda

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