“…nobody, not even the rain, has such
small hands.”
e. e. cummings
Ele não recordava como eram as mãos dela. Que formato tinham? Sabia serem dedos compridos, não demais a ponto de não soarem femininos, mas a curvatura e o tipo da unha permaneciam um mistério em sua imaginação. Ocupou-se todo o trajeto do ônibus pensando nas inúmeras possibilidades de formas, sem dar por certo nenhuma delas. Talvez aquilo não fosse importante, afinal, uma mão é apenas uma mão. Divagação passageira; era importante, sim, ele sabia. As mãos prenunciam tudo, contam tudo. A garota no assento da frente possuía lindos dedos, suaves e meigos, unhas nem muito pequenas nem grandes demais. Olhou o rosto e não refletia as mãos. Até elas mentem, pensou. A garota desceu na parada seguinte e ele voltou a mente às mãos que desapropriaram-se de forma e estavam tomadas por uma névoa em sua memória. Ele começou a perder o fôlego e a mera ideia daquelas mãos lhe tirava o ar. Eram mãos bonitas, o que mais importa?
A descida devolveu a ele um pouco da sanidade. A náusea causada pelo veículo imenso e cambaleante não havia se dissipado por completo, mas dera-lhe uma trégua. Era quase noite, naquele instante em que o dia não se dá por vencido embora já não lhe restem mais forças. Quando pensava sobre si, o dia soava mais familiar do que a noite. Odiava a escuridão e mais ainda o que ela o fazia sentir. Desde muito novo era assim: agradecia a manhã que nascia e maldizia a noite que chegava. E com ela o medo, é claro; ele não sabia lidar com as coisas não ditas e o sereno noturno parecia carregar várias dessas coisas. Subiu as escadas de seu apartamento com a cabeça baixa e as pernas trêmulas. Não sabia o porquê se sentia assim, ainda mais depois de tanto tempo — tempo suficiente, inclusive, para atenuar os traços particulares de um membro agora irreconhecível, não-existente. As mãos ocultas ocupavam quase que por inteiro a extensão de seu corpo; o restante era-lhe ocupado pela pessoa que carregava àquelas mãos.
Os armários da cozinha eram todos feitos sob encomenda. Contrastavam com um tom bege marrom a branquitude da parede, sempre menos branca do que deveria graças às imensas manchas de sujeira deixadas pelo antigo inquilino. Sentia-se sufocado pela mera existência do apartamento, pela altura que o mesmo possuía em comparação ao pátio embaixo, pela ausência de sacada, pela grade nas janelas e pela imensa paisagem vazia que tomava a vista. As noites naquele apartamento soavam mais longas do que a estrutura horária normal nos apartamentos ao redor. Acendeu um cigarro que amargou-lhe a boca. Cada tragada parecia retomar a seu controle os batimentos cardíacos e até onde iam seus pensamentos. O aparente controle sobre si impedia seu corpo de desmoronar, embora a mente pouco se enganasse a respeito disso. A sombra da mão voltava-lhe com uma naturalidade inescapável; no fundo, se não havia a clareza daqueles dedos, nada mais poderia haver.
Não sabia qual caminho pegar e apanhou o primeiro ônibus que parou. Tinha dúvidas sobre qual ponto o deixaria mais próximo da lanchonete onde ela trabalhava. Sim, ele precisava vê-la, tanto quanto o dia precisava dar lugar à noite; era um desejo fisiológico e de naturalidade inconteste. Ainda faltavam muitos minutos para o momento em que ela sairia, como fazia todas as noites de segunda a sábado, e aguardasse por pouco mais de oito minutos até o ônibus que a deixava na esquina de casa passasse por aquela parada. Ele aguardaria muitas horas mais apenas para a ver por um instante — talvez aguardasse a vida toda. Ainda lembrava de todas essas informações e se esforçava todos os dias para não fazer aquilo que estava fazendo agora: observá-la. Luta inválida. Ele reconheceu o pichado nos muros da rua e sinalizou a descida; a lanchonete ficava a poucos metros dali.
O estabelecimento se localizava numa travessa entre duas ruas movimentadas e cheia de restaurantes e mercearias que funcionavam até tarde da noite. O cheiro de comida de todos os tipos: fritas, assadas ou cozidas, ressoavam pela rua num misto inebriante de inquietação. Confundia-se ao aroma agradável dos pratos sendo preparados um cheiro indissipável de noite; cigarros, álcool antes de adquirir efeitos de embriaguez (no momento em que soa mais como uma cólera extasiante), e perfumes dissolvidos pelo que sobressai do corpo humano: medo e desejo. Os elementos tão característicos da atividade urbana, quase boêmia, adquiriam um semblante próprio na mera assimilação da garota amada ao ambiente. Ela estava exposta a essa atmosfera também, de alguma forma, e isso o tranquilizava. A rua imputava entre os dois, numa mesma face, atração e repulsão. Se servia de barreira material e física, era, antes disso, chão que os mantinha numa mesma superfície. A proximidade e o distanciamento provinham de um mesmo elemento comum; isso aterrorizava-o. A casa onde ela mora e o apartamento onde ele vive, a imensidão de ruas, faixas, calçadas, paredes, peles, ossos, o corpo dela e o seu corpo — tudo que os distanciava, ou quando sua cabeça assim permitia pensar, estabelecia entre eles uma ponte. Ele estava, assim como as coisas mil que perpetuavam na noite, diante e oposto à ela.
O poste do outro lado da lanchonete dava visão mais ou menos suficiente à cozinha do recinto. A vidraça, composta por uma coloração esverdeada, tornava disforme as figuras contidas no interior do ambiente. Ele sabia que, mesmo não a vendo com clareza, ela estava ali, em algum dos cantos deturpados pelo vidro obtuso. A espera fora um momento de grande transtorno que nem os cigarros deram conta de controlar. Os minutos iam forçosamente passando, e cada avanço do ponteiro tornava mais substancial a existência do momento que em breve ocorreria: ele voltaria a vê-la, ela e suas mãos perfeitas, incógnitas; como um pirata que reencontra o tesouro por ele guardado. Sua mente voltava os esforços às lembranças dos braços dela cruzando-lhe o corpo; as mãos permaneciam fora de vista. Sentada por cima, olhando-o como se olhasse um animal indefeso ou uma besta enjaulada, transpunha sobre ele uma superioridade tão inefável, tão absoluta, que só cabia-lhe a aceitação. As mãos dela acariciavam os grossos fios de cabelo que ele possuía por sobre a nuca; desejava agora, mais do que nunca, possuir olhos que vissem por detrás, apenas para ver as mãos desnudas da amada em todos os seus detalhes. O devaneio desapareceu quando percebeu escurecer as luzes do estabelecimento e o barulho da porta rangente tomar-lhe a imaginação.
Primeiro saiu a cozinheira velha resmungando frases de irritação. Era o décimo dia do mês e nenhum dos funcionários havia recebido o salário que deveria ter caído no dia primeiro. Isso enfurecia a velha, menos pela eventual necessidade do dinheiro (guardava cada
tostão que recebia há anos e já possuía muito além do que tinha de vida pela frente para gastar), e mais pelo seu extremo prezo pela pontualidade e lealdade a compromissos. Ele pouco deu ouvidos ao que dizia a senhora ranzinza, na verdade, as palavras que saíam da boca dela soavam-lhe como o farfalhar das folhas voantes em tarde de temporal: indecifráveis e prenunciadoras do verdadeiro espetáculo. A encheção da senhora na entrada impedia a saída da jovem que, assim como seu observador, pouco ou quase nada ouvia dos estribilhos da colega. Suas preocupações estavam contidas em outro lugar, embora o atraso também lhe causasse afetação (pelas economias, diferente da velha). Ela murmurou algumas palavras sobre estar atrasada para apanhar o ônibus e irrompeu em disparada diante da idosa, que testemunhou atônita a má educação da garota. A visão inteira da moça apressada atirou o coração do espectador submerso à boca.
Era ela. Ah, como estava linda! Sentia seu corpo formigar dos pés a cabeça num rompante de paixão. Sim, ela estava diante dos seus olhos! Sem o torpe aroma noturno, sem as limitações físicas, era quase como se pudesse sentir o ar que ela soltava pelo delicado nariz. O seu corpo todo contorcia-se, uma batalha interna para resistir à vontade de alcançá-la, como se a função orgânica daquela tão pequena criatura, de estrutura corpórea tão frágil, incapaz nem mesmo de atravessar a rua, fosse dar-se a ela e a ela somente. Ela estava tão igual e tão diferente. Os olhos altivos soavam agora tomados por uma melancolia tépida, que dava ao rosto chupado uma feição de mulher, de madurez. As bochechas coradas foram substituídas por um bege fraco de corretivo, quase imperceptível, que transmitia-lhe destreza. As formalidades que a pedem no trabalho, ele pensou. Reparava em todas as linhas dela como se constatasse uma constelação indissolúvel no céu, mesmo em noites de nuvem e tempo fechado. Que prazer sentia! Um prazer que não lhe ocorria desde a última vez que a tinha visto, a última vez em que tocaram um ao outro. Como desejava olhar as mãos que ela sutilmente escondia no bolso do casaco, sobrepô-las sobre as suas, sentir o sangue corrente nos dedos e aquecê-los no mais sincero dos afagos. O que pensaria ela se surgisse ele ali, diante dela, e dissesse o quanto a ama? Seria isso capaz de apagar toda mazela passada e dar a eles um futuro novo? Ela seria capaz de esquecer que houve um dia em que ele não se lembrava da forma de suas mãos? Por favor, por favor, mostre seus dedos! Eu preciso vê-los, me deixe vê-los! O peito gritava em disparate. O ônibus surgiu pela viela, ela aproximou-se e ergueu a mão, de traços finos e delicados, com as unhas em plena consonância aos dedos, sem esmalte, puras, arredondadas e cortadas na medida certa. Traços perfeitos que clamavam os beijos dele. O veículo aproximou-se e a luz do farol incidiu sobre a mão dela, tornando visível a aliança colocada em seu dedo anelar.
O pneu cantante e o barulho infernal do motor passaram por ele ao mesmo tempo em que o vômito preso na garganta foi todo posto para fora. A imagem oculta da mão dera lugar a uma muito mais assombrosa: o dedo portando aliança. A amarra circular e fina que a tirava dele. Não tinha forças para sequer reagir e custou a sair do chão em que caíra desde a saída
do ônibus. Todo o amordaçado de sensações que sentira naquela noite recaíram sobre ele num desprezo por si mesmo. O aroma efusivo das ruas se dissipara, restando nada além do vil ar que paira nas horas em que tudo está fora do lugar. O colapso de seu organismo, a nova função semântica a qual sua existência há pouco havia sido submetida, diante da curta e transformadora aparição dela, era agora expulsa de seu corpo na mesma intensidade que havia entrado. Desejava efusivamente, aos céus ou a quem quer que tivesse pena dele, que
fizesse sumir a forma e lhe entregasse de volta apenas a dúvida. Um táxi demorou a aparecer por ali. O lar desabitado não o pertencia mais do que a viela errática em que visualizara a vida se indispor para com ele — a rua ao menos era evidência prática do que tinha estado entre eles dois. Ao entrar no apartamento, sentiu os armários planejados, a janela engradada, a distância do andar ao solo e a inexistente sacada, sobreporem-se a ele como o céu pesa ao mar e o mar pesa à terra. Desfaleceu num sono fúnebre.
Assim como ocorria na infância, a manhã sempre chegava. “Ao entardecer se hospeda o pranto, ao amanhecer o júbilo” — lembrava dessas palavras da escritura sagrada como a um mantra. Acordou indisposto, ainda pelo excesso de cigarros e ausência de alimento da noite anterior. A aliança ocupava-lhe a imaginação como uma sombra à espreita. Por pior que soasse a noite, levantou e percebeu, num espanto agridoce, estar tudo em seu devido lugar. Dos móveis à relação de nível entre o térreo e seu apartamento. Não sabia como lidar com o excesso senão por outro excesso. A ideia de sobreviver alheio ao fato não perpassava-lhe à mente. Aliança. Tomou o café amargo que abriu-se como fenda no estômago vazio. O formato daquelas mãos era tão visível que a marca dos dedos se fundia a seu rosto como num tapa. Aliança. Sofria um intenso desgaste que ultrapassava a fraqueza física; essa, sim, curável com poucos esforços. A memória do ontem se confundia a outras bem mais antigas, memórias que davam ao que ocorrera um significado, um quê de simbólico; como o fato dele não se lembrar e agora saber de cor e salteado cada detalhe daquela mão, o fato da portadora estar comprometida com alguém que não era ele.
Passou a manhã imaginando todos os tipos de cenários. Ah, se ele pudesse voltar no tempo, voltar para quando ela o amava, para quando seria ele a imbuir a aliança ao dedo dela. Que pensaria ela se ele matasse o noivo? Poderia entender como uma declaração de amor… ou odiar-lhe para o resto da vida. Muitos pensamentos se seguiram a esses, pensamentos que ele, fraco em matéria de carne e de alma, pouco poderia realizar. E se assumisse a derrota? Eu a amei, sim, Deus sabe como a amei, e por isso hoje a deixarei amar um amor que não a dei. “You must remember this… a kiss still a kiss..” Ele permaneceria nela como Humphrey Bogart permanece em Ingrid Bergman, mesmo após o avião partir. Não, nem Casablanca o faria dissuadir-se da batalha que travava em seu interior pela mulher amada. As desistências foram todas cautelosamente desconsideradas. Não podia evitar: a beleza irrefreável da garota o transpunha como o sol irradia pela manhã, como essa manhã em que ele se levantara mesmo com sua vida dada por encerrada na noite passada. Ele havia de lutar por ela; afinal, os arcos-íris só surgem pela insistência da luz, que não se dissipa mesmo sob chuva.
Diferente do dia anterior, não passara o traslado do trabalho para casa pensando no formato das mãos; elas já haviam causado problemas demais. Pensava mesmo no que interrompia a beleza daquelas mãos e, em especial, daquele dedo: a aliança. A moça que ele, de maneira atrevida, havia analisado as mãos na viagem anterior, olhava-o como se soubesse de alguma coisa. As mulheres, por natureza, se transmitem tudo, mesmo quando é algo que elas não sabem. Ele não ousou mais encará-la. O trecho que frequentava quase diariamente nunca lhe parecera tão sereno. A calma que antecede a tempestade, pensou consigo mesmo; ou a calma que anuncia a calma, acrescentou trépido. Pouco planejou seus passos depois que
chegasse em casa. Sabia que iria visitá-la mais uma vez esta noite, e dessa vez não a observaria como visualizador passivo. Iria admitir que a ama! Dedicar-lhe todo o sentimento que guardava em seu coração. A amava agora de um jeito resoluto — um amor que não tira, apenas põe sempre mais. Um sentimento bravo, insistente. Nunca fora de medir palavras, e a ocasião pedia toda intensidade que o calor da emoção pudesse dar; ele estava disposto a dar o que fosse por qualquer mínima reação que o fizesse crer ser seu amor correspondido.
A ânsia cessada pela saída do ônibus no anoitecer passado já não cabia-lhe agora. Quanto não havia mudado de um dia para o outro! Se ontem a ausência dela premeditava angústia, hoje aquela mesma ausência representava força de vontade de um sentimento aflorado como nunca; ao menos é o que lhe agradava pensar, não queria a moral baixa para quando precisasse colocar seu amor à prova (uma batalha, talvez?). Subiu as escadas ansiado pelo momento em que as desceria. Buscou a roupa que usaria para vê-la, rememorando, dentre as peças intocáveis que há anos permanecia em seu armário, a que ela tivesse em algum momento olhado com atenção especial. As roupas são as mesmas! Não deve ser assim tão difícil. Muito claro, muito escuro, muito sério, muito descontraído. Você ainda me amará se eu não for como o homem que a desposou? Se eu não me vestir como ele, não for educado como ele? Diga amor, diga! Estava ansioso enquanto vestia-se, diferente do momento no ônibus, quando o referido encontro ainda estava tão longe. Ficaria aguardando ela sair da lanchonete. Não pegou o ônibus dessa vez, queria chegar no momento certo, surpreendê-la; ele sabia o quanto ela odiaria isso de ser observada. Por que não agiu quando teve a chance? Ela diria com uma raiva tão honesta, os lábios estremecendo de rancor. Quem te deu o direito de bagunçar minha vida quando está tudo certo, quando eu tenho algo que você nunca me deu? Ele não suportaria o desejo e beijaria enfurecidamente aquela boca que tanto treme e comunica tudo sem nada dizer. Ele tremia quando entrou no táxi, olhou sua face pelo retrovisor e sentiu vida transcorrendo por suas veias como há muito não sentia. Pensou na infinidade de reações possíveis enquanto o automóvel percorria as ruas da cidade até a travessa destino.
A hora de fechar aproximava-se e a jovem funcionária estava pensativa; era a primeira vez que seu noivo a buscaria no trabalho. Ela voltava todos os dias de ônibus, sozinha, mas a ocasião pedia algo diferente: ela estava amando pela primeira vez em tempos, um amor a dois, algo concreto em que ela poderia se firmar, fornecer e encontrar abrigo. Então o que faltava? Ela não sabia. O dinheiro era um problema, estava escasso, mas para todos era assim. Não era uma preocupação que lhe tirava o sono, como na juventude, em especial, nunca deve ser. Por vezes passava dias procurando o que estava errado, algo que anunciasse, um sinal qualquer, da junção de números específicos, simbólicos ou sequenciais, que seus olhos flagrassem num relance, até uma interferência direta, uma fala, um ato, qualquer coisa que lhe transmitisse a sensação de segurança. Havia um medo irresoluto da fagulha se apagar. Ela ser buscada no trabalho era um ato, um daqueles que ela volta e meia ficava esperando. Garotas sempre esperam alguma coisa, garotos raramente são capazes de dá-las; esse eterno conflito sintetiza, mas nunca é um fim em si. A inquietude dela advinha de um silêncio jamais antes experimentado — como quem, por desconhecer, não tem em conta a sorte de um amor correlato e suficiente na própria existência. Como tudo, isso um dia acaba. E também os símbolos, as súplicas, os temores e os prazeres. A graça mesmo é sempre ter algo a pedir. O ponteiro maior atingiu o doze e ela voltou suas divagações ao mundo real.
Fechou cada uma das janelas e conferiu se havia trancado as fechaduras da parte de trás, enquanto fingia ouvir as reclamações diárias da senhora rabugenta. Filho. Jantar. Roupa. Lavar. As palavras soltas que ouvia da velha foram se tornando mais esparsas conforme se aproximou do vidro esverdeado que dá para a rua; olhou atenta, o noivo ainda não havia chegado, embora ela avistasse do outro lado da viela um táxi parando.
A porta que dá para a entrada do estabelecimento abriu-se enquanto ele pagava o taxista. Era a hora, ela estava saindo. A velha foi primeiro, como da outra vez. Uma mão, vinda do lado de dentro da lanchonete, pressionava a guarnição da porta, sem deixar à mostra a quem pertencia. Nem era necessário; aquela mão e todos seus traços eram inconfundíveis, só poderiam pertencer a uma mulher. Ele se lembrava agora e não poderia jamais esquecer — cada marca, cada pinta e cada corte —, daquela mão que um dia fora dele. O coração palpitava mais intensamente a cada movimento que prenunciava a saída dela. Ela confessará que me ama! Tocarei cada parte de seu corpo com minha língua. Você se esquecerá de tudo que aconteceu, promete? Pegue nos meus cabelos, refaça o embaraço, por favor só me deixe sentí-la, tê-la! Ansiava, com toda a extensão de sua alma, possuí-la. Suas vísceras implodiam, gritando pelo contato dela, pela sobreposição de olhares a qual nenhum dos dois poderia fugir. As mãos dele fechando as dela como uma fortaleza. Sim, uma fortaleza! Ele seria isso agora: casa e abrigo. Você se lembra, não? Diga que sim, diga! Um pedido permanente. Correu em direção a ela, que o observava imóvel. O barulho da batida do carro no corpo, do para-brisa em cacos esfarelando pela rua, devolveu a ela o movimento. Foi até o semimorto estirado ao chão e, em estado de transe, colocou a mão por sobre os lábios. Ele faleceu olhando a mão da amada que não carregava aliança.
por João Lucas Casanova




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