Para o primeiro Expo Blush deste mês, sob o tema Contos de Fadas, convidamos Alix Breda para apresentar seu trabalho com fotografia analógica, que emerge dos cenários mágicos e misteriosos da Serra da Cantareira. Inspirada pela busca do invisível, Alix explora a imperfeição e a ausência em suas narrativas visuais, criando imagens que evocam uma conexão visceral com o mundo natural, onde se mistura o orgânico com o místico, desvendando a estranheza e a transformação inerentes a ambos. Seja através de suas imagens ou de seu trabalho como editora no Selo Turvo, ela nos convida a imaginar, a aceitar e a nos tornar parte dos mundos que ela tão delicadamente nos revela.

repetição de tragédias, 2021
fotografia analógica

Blush: faça uma breve apresentação sobre você e sua carreira; o que você faz e mais gosta de fazer? O que te inspira?

Alix: meu nome é alix. sou de são paulo, mas moro há mais de vinte anos num pedaço de mata na serra da cantareira. sou formada em audiovisual e estou terminando minha segunda graduação em agroecologia — apesar do prazer em mergulhar nas imagens, gosto mesmo é de plantar e ficar com a roupa manchada de terra. tenho uma editora de livros de fotografia chamada selo turvo e meu trabalho artístico está inteiramente amarrado com meu trabalho de editora, sempre propondo, em cada projeto, adentrar os mistérios de florestas recorrentes em sonhos; me inspira fabular com o invisível que não vemos a olho nu e trabalhar as imagens imperfeitas, cheias de ausência. também me inspiram andanças até o cume de montanhas, processos de taxidermia e voltar da feira com a sacola cheia de verduras frescas.

coreografias, 2021
fotografia analógica
o encanto desbotado do lobo, 2022
fotografia analógica

Blush: Existe alguma obra de arte (sua ou de outro artista) que você considera particularmente significativa para a sua trajetória?

Alix: gosto muito do trabalho das escritoras surrealistas como anna kavan, leonora carrington e unica zürn. as corujas alquimistas e mulheres que dão de comer para a lua da pintora espanhola remedios varo. acredito que todas elas também buscam conforto no desconhecido. citando fotolivros, a publicação “lobismuller” da laia abril sempre fica em segundo plano na minha cabeça. ela reconstrói a história de um enigmático criminoso espanhol que foi condenado em 1850, mas que se declarou inocente por sofrer de uma maldição que o transformava em lobo. o livro consegue criar uma ambientação específica que traz tanta familiaridade nos assombros e me encanta. outro fotolivro que conheci recentemente e se transformou em um novo favorito é “hodophylax: the guardian of the path” da artista japonesa michiko hayashi, uma caixa de madeira sobre lobos extintos nas montanhas e a procura por esse animal oculto.

Papilla Estelar, 1958
Remedios Varo
Lobismuller, 2017
Laia Abril
Hodophylax: The Guardian of the Path, 2017
Michiko Hayashi
La creación de las aves, 1957
Remedios Varo

Blush: Como você vê a relação entre identidade, expressão artística e o lugar em que você vive? 

Alix: a serra da cantareira é muito presente em toda minha produção. quando comecei a fotografar, utilizava muito do recurso de autorretrato para, de alguma maneira, conseguir me encaixar naquele território. na época, precisava ter certeza que fazia parte daquelas paisagens de embaúbas, samambaias açu e jacarandás. hoje já consigo me encontrar na natureza de outras formas, nossa metamorfose é intrínseca. a fotografia, a imagem em si, me ajudou muito a me desfazer das minhas fronteiras nítidas e multiplicar minhas maneiras de existir. o caminhar pelo matagal é o momento mais precioso para qualquer projeto. coabitando e pensando junto com a terra, como seres entrelaçados, consigo tentar parar de desvendar minhas produções e meus próprios mistérios. acho que a natureza é um espaço que permite que o oculto seja lembrado, e que a imagem que mais toca é aquela que deixa nosso mundo interior fazer parte do mundo exterior.

rememoração das sete luas: parte I, 2022
fotografia analógica
rememoração das sete luas: parte II, 2022
fotografia analógica
rememoração das sete luas: parte III, 2022
fotografia analógica

Blush: Há algum aspecto específico da natureza que você acha particularmente mágico?

Alix: acho bonito encontrar a magia quando você levanta uma pedra da terra e encontra por baixo toda uma fauna até então desconhecida para você. no fim de tarde, quando as saracuras cantam, sabemos que o dia seguinte vai amanhecer com chuva. as cigarras que anunciam o verão. o porco espinho que habita o forro do telhado da minha casa. de noite, quando não vemos nada por entre as árvores e sabemos que é apenas o saruê andando por cima das folhas secas, ainda assim, lá no fundo, a possibilidade de outras criaturas caminhantes permanece. todas essas possibilidades de imaginação, do que pode vir-a-ser, são muito especiais. o abacateiro que meu pai plantou alguns anos antes de falecer está lotado de frutos. é uma extensão da presença dele que permanece no mundo natural. é fácil sentir a presença da ausência quando a natureza continua te lembrando que ela existe, pra mim isso é um dos significados de magia.

dilúvio, 2020
still de vídeo

Blush: Como você vê a relação entre os elementos orgânicos e o místico em suas criações?

Alix: os elementos orgânicos mexem muito com as nossas sensações. com o olfato, a audição, etc. eles também tem uma qualidade de transformação que só notamos com muita observação, e muita abertura também. tanto o místico como os elementos existem num ritmo do que pode ser e o que pode não ser, existe uma estranheza inquietante que ambos podem fazer a gente sentir. acho que dentro das minhas criações penso na imagem como espaço impossível de se desvencilhar da imaginação, de tudo aquilo que desaparece, mas sobrevive. o mundo natural e o oculto permitem esse lugar de deslocamento imaginativo, são espaços que nós ainda temos dificuldade de entrar, encarar e nos aceitar como parte deles. tento criar, tanto nas minhas imagens quanto no meu trabalho como editora, a perspectiva desse lugar existir e deixar ele contaminar nossos processos de criação.

estudo sobre os fantasma escondidos nas árvores do seu quintal, 2023
Fotografia de arquivo com intervenção com água
sem título, 2022
papel fotográfico
minha avó ercília me ensinou a conversar com os antúrios, 2023
Fotografia de arquivo e intervenção com café
sem título, 2022
instax

Blush: Temos que perguntar: qual sua criatura mitológica e/ou conto de fadas favorito? 

Alix: tem algumas criaturas que estão muito enraizadas da minha infância, como as harpias. a ideia dessas aves de rapina com rostos de mulheres me impressionava muito quando eu era pequena. as hamadríades, as ninfas protetoras de árvores, também guardam um lugar especial aqui dentro. teve uma época que passei meses obcecada por ler relatos de lobisomem em cidades do interior paulista. lembro que tinha uma coleção de pequenos livros de contos de fada que vinham numa caixinha e o conto dos “cisnes selvagens” sempre foi meu favorito. também tenho muito carinho pelos filmes da cecelia condit, como “oh rapunzel”, que reconstrói o conto de fada num formato documental num subúrbio norte-americano.

o pequeno jacarandá caído no jardim, 2022
fotografia analógica
sem título, 2022
papel fotográfico

Blush: se você pudesse criar uma poção da felicidade, quais seriam os ingredientes mágicos?

Alix: um pedaço de bolo de amora que acabou de sair do forno, chá de casca de laranja, tomilho fresco colhido da horta pela manhã, aroma de madeira de pinheiro queimado, ramos de malva cheirosa e um buquê de lírio do brejo. a melancolia nunca vai chegar numa tarde de inverno repleta disso tudo.

sem título, 2022
fotografia analógica
suddenly my land became a house of sores, 2020
fotografia analógica

Encontre a Alix em @springspells, e seu trabalho editorial em @seloturvo

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