estou comprando dálias e doces no supermercado cruzando vagões e galerias estou arrumando o cabelo em espelhos de estrela-do-mar na prateleira da papelaria enviando livros no correio rindo entredentes quando o novo estagiário pergunta meu nome idade e se venho sempre aqui contando para Gabi que uma lenda japonesa
chamada Yaobikuni diz que quando você come carne de sereia ganha juventude eterna estou costurando golas de
marinheiro laços azul-bebê e botões de pérola com Bruno em moletons
cinzentos esmurrados como Eminem em 8 Mile ou Paul Dano em L.I.E. ouvindo Low Dido Lush e Goldfrapp cruzando a terra lamacenta dos jardins imperiais na esquina de casa onde Pedro II desviava o olhar e traseiro de Zé Bonifácio fugindo de
fininho às terças e quintas depois da aula fotografando minha silhueta turva por
entre vitórias-régias e sapos me
lembrando dos meus pés de escama sangrando por dentro enquanto dançava ao
seu redor com o coração amordaçado mês passado em São Paulo do menino
manchado de vermelho chorando em meus braços no chão do banheiro daquela festa no Vale do Anhangabaú três dias depois de outro menino ser morto buscando
algo no Dia dos Namorados de ser inclinado sobre
o parapeito enquanto era beijado quase cair e nem
perceber do
veado dilacerado por flechas estampado no peito dele de você
soluçando no
fim da noite com o pescoço e lábios esfolados erguendo a perna na janela ameaçando saltar escuridão máxima a poucos
minutos do sol despontar você já fora em algumas horas de Peter Pan a
menino perdido e então à
bomba-relógio nas tripas do crocodilo nem deu pra te contar que quase tombei da janela eu mesmo seis ou sete vezes nesse último
mês aprendi a
chorar finalmente então estanquei as lágrimas no joelho desisti de amar ser amado deixei minha sombra voar meu nariz foi à neve equilibrado numa língua-de-sogra de aniversário no castelo daquele vampiro que conheci às cinco da manhã depois de dançar com João na Lapa uma menina nos
fotografou no bar disse que eu parecia Prince só mais jovial delicado
feminino? talvez e é claro muito muito
muito mais pálido depois de duas horas nos aposentos reais ou era
o calabouço? me chamando de
criança me
estapeando como criança também – anestesiada de
gelo,
amaldiçoada,
agora sem
reflexo –o Conde levantou da cama me chamou para ver um filme na sala fiquei tão animado pensei em Speed Racer Fogo Contra
Fogo Missão Impossível Anjos da Noite A Outra Face qualquer coisa que assistia na TNT antes dos onze quando ainda tinha
pai mas
quando cheguei lá era um vídeo de um
menino magro como eu cabelos longos como os meus mas loiros
encaracolados espremido e arremessado entre três homens muito
maiores peludos como
Cachinhos Dourados e urso-filho urso-mãe urso-pai deitei a
cabeça em seu ombro com a mão fixa entre sua coxa e virilha como era
meu lote propósito arco de herói serventia ali e enquanto assistia como num encantamento aquilo que eu assistia parou de ser exatamente aquilo que
eu assistia imagens dissolvidas
esmaecidas na memória ou consciência
fundidas com e
sobre outras como transição de Sirk Histoire(s) du Cinéma sei lá pequenos pégasos voando rodopiando ao redor de um
chafariz em Fantasia a foto que Julio me mandou do corpo de
Carlo Acutis exposto como Branca de Neve num caixão de vidro todos aqueles
meninos suecos enfileirados segurando números no peito Coisa 1 Coisa 2 Coisa 3 Coisa 4 até um rapaz chamado Bjorn entrar cabisbaixo na sala e de uma
vez só todos serem dispensados meu
melhor amigo da creche que colecionava caranguejos penas de ganso e morria
de medo de cavalos de
Haley Joel Osment-robô e Leonardo DiCaprio-pintor congelados o primeiro num arranha-céu espelhado tão parecido com aquele edifício
mal-assombrado onde
Giulio quis me levar na República em Maio o outro olhando para a
câmera cada vez mais azul lento submerso todos os
garotos de Rafah bombardeados pixelados na tela de meu celular pedaços de carne osso
couro cor pontiagudos saltados cercando buracos que um dia foram crânios de
onde talvez pudessem ou puderam sonhar formando algo como uma coroa de
morte ou de dor ou de Nada como as de papel que eu usava saltitando pela casa com estandartes de garrafa plástica lençóis estampados com conchas de capa quando era pequeno todo
menino é um príncipe quando nasce eu acho depois um
aluno depois paciente depois um
pirralho puto depois dano colateral depois um intestino
expelido por entre as
pernas como hera venenosa espinho contorcido que cobre a
visão impede toda e qualquer passagem enquanto o mundo inteiro dorme longe no
palácio fincado como raiz cancerígena
de árvore cerejeira em alguma Calçada da Fama na Califórnia Veneza fundo
do mar dentro de casa com a qual todos possam posar emoldurar a foto e fazerem altares ninguém nunca
salvar Bruno diz que recebeu minha coleção de
meninos mortos como o segundo milagre de Acutis, aquela
camisa manchada de sangue que curou o menino em Campo
Grande, eu ri, pensei, quantas camisas
será que precisam ser
manchadas, quanto sangue
jorrado, quantos meninos mortos
colecionados, querido Carlo, para
se tornar um santo? O que você achou que ia
ser quando era
criança?
Texto por Pedro Minet




Deixe um comentário