Há uns dias atrás
Uivei na colina junto de minhas irmãs
Sentia como se lobos
estivessem afogando-se
-dentro de meu estômago
Era uma noite clara
Iluminada apenas pela Lua Cheia
e seus luzeiros
Ainda vivo a brisa gélida
acalentando minha derme
O vento, seu pai, compondo a melodia
que nos embalava num transe
Dentes afiados foram crescendo da cabeça de minha irmã mais nova
Ela nunca teve muita gula
Lastimava que a Fome era seu maior mal
Sempre racionando o prato, como um cão assustado,
mas ao contrário do animal
Não sabia aproveitar seu momento
de saciação
Talvez, seu erro tenha sido
pensar Quando
deveria engolir
Na irmã do meio, a mais corpulenta de nós
Abriram-se olhos em suas mãos
Ela tentava fazer uma concha
-para beber água
Mas eles choravam e
choravam e choravam e choravam
Não suportando ela segurava pedras
coçavam e arranhavam e rasgavam
-as córneas
Até que eventualmente
Só enxergava pranto
Ego,
a primogênita
Não teve a pele violada
Mas as costelas
Uma por Uma
Abrindo-se e
estraçalhando-se
no ventre
Tentou berrar
-a terceira mordeu
sua voz
Procurou por suporte
-a segunda furou
seus olhos
E acanhada
Ergueu-se
Pneumanou
Na colina, uivando
Tornamo-nos lobos
Daqueles que não sobrevivem
na natureza selvagem
E nunca os clamarão domésticos
Fadados ao eterno pastar
Porque de carne,
só a repulsa os alimentaria.
Poema por Sofia Abrantes




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