Em algum momento da minha infância que já não consigo especificar, meus pais tiveram a oportunidade de adquirir um terreno na cidade de interior onde nasci e em que morávamos na época. O plano era que, nos anos seguintes, ali fosse erguida sua primeira casa própria – ampla, com três quartos, quintal e salinha de TV.
Nessa casa eles depositaram não apenas um sonho, mas tempo, dinheiro e muito do próprio suor. Inclusive, uma das minhas poucas lembranças dessa época é de passar vários fins de semana na obra, vendo meu pai carregar entulho para cima e para baixo com um carrinho de mão – o que lhe renderia muitas sessões de fisioterapia no futuro.
A casa nunca veio. Pelo menos não da forma que eles idealizaram. Antes que ela fosse cem por cento concluída, o trabalho do meu pai nos levou para outra cidade, e então mais outras, e passados alguns anos o imóvel foi vendido assim mesmo, inacabado. Com o dinheiro da venda, foi dada a entrada em um apartamento significativamente menor em uma cidade grande, onde moramos até hoje.
Antes disso, o lugar ainda serviu de lar para uma amiga da família, que por um bom tempo não precisou se preocupar com aluguel. E talvez tenha sido essa a extensão do seu propósito. Isso, e também ensinar aos meus pais que podemos traçar planos à vontade, mas a vida é imprevisível.
Essa empreitada ficou esquecida na minha cabeça até o ano passado, quando me deparei com algumas fotos da obra que nunca havia visto, num momento em que aprendia a exata mesma lição.
No início de 2023, eu me encontrava no segundo ano de um emprego que detestava. Eu sabia que detestava, mas demorei tanto para engatar em uma profissão e ingressar no mercado de trabalho que estava determinado a perseverar. Além disso, eu também tinha um sonho. Assim como os meus pais, eu queria uma casa.
Não que eu quisesse comprar um imóvel – acredito que para muitos de nós esse barco já afundou faz tempo. Mas eu queria, pela primeira vez na vida, morar sozinho. Depois de muito esperar, estava disposto a fazer isso acontecer, e eu de fato me dediquei. Criei planilhas, investi em uma reserva de emergência, estava a par de todos os apartamentinhos disponíveis para aluguel nos bairros que me interessavam, equipei uma cozinha que nem tinha ainda.
Quando o sonho já não parecia mais tão distante, também se aproximava a conclusão a qual tentei com todas as forças não chegar: eu não aguentava mais aquele trabalho. E a questão não era tão simples quanto procurar outra vaga na mesma área. Eu não aguentava mais aquela profissão, aquelas dinâmicas, a sensação de dedicar toda a minha energia a algo que não me trazia nenhuma satisfação emocional. Nos piores dias, eu era apenas a casca de um ser humano segurando meu xixi para conseguir dar conta de demandas com as quais eu nem me importava.
Eu estava mal, com dores misteriosas no corpo, e emocionalmente desregulado de um jeito que era visível para quem convivia comigo. Também me sentia debilitado em um nível espiritual. Mesmo nunca tendo sido uma pessoa de muitas crenças, não conseguia mais me esquivar da sensação de estar trilhando um caminho que não me pertencia. Tudo em mim gritava: “Não tem mais nada para você aqui, vai embora!”. E eu fui.
Na época, não tinha plano B, mas tinha uma reserva de emergência – e a emergência era eu. Minha esperança era que, tendo mais tempo para introspecção, mais cedo do que mais tarde eu descobriria o que fazer, e então receberia a recompensa pelo meu ato de coragem.
Agora, oito meses depois, vejo onde fui um pouco ingênuo. Tive, sim, muitos ganhos por ter me permitido saltar no desconhecido, mas praticamente nenhum deles foi material. Não é exagero dizer que, caso não tivesse desistido do que estava fazendo, não seria a pessoa que sou hoje – sequer teria o mesmo nome. E gosto muito da pessoa que me tornei. Mas ainda escrevo isso do meu quarto na casa dos meus pais.
Hoje em dia eu brinco que “vencedores desistem”, mas isso depende muito do que você entende por “vencer”. Demanda muito de nós ir contra o que já está dado, seguindo nada além da nossa própria intuição e recebendo em troca pouco mais do que a satisfação de ter feito o que era melhor para si. Afinal, não é costume parabenizar alguém por trancar a faculdade, terminar um relacionamento ou pedir demissão. Antes fosse – talvez nos sentiríamos muito mais livres para fazer nossas escolhas se tratássemos com mais leveza o fato de estarmos todos suscetíveis a mudar de ideia sobre qualquer assunto, a qualquer momento.
Também digo tudo isso aqui tendo plena consciência de que, para a maioria das pessoas, vencer não é nem uma questão – trata-se de sobreviver. Quando falamos de trabalho, desistir, parar, dar meia-volta ou recalcular a rota são privilégios de quem ainda pode escolher.
Talvez minha recompensa nunca venha. Provavelmente, minha maior vitória com tudo isso foi o fato de que, pelo menos uma vez na vida, me encontrei em uma situação infeliz e tive a possibilidade de dizer: “Isso aqui é uma palhaçada. Eu vou embora.”
Em alguns momentos, essa consciência é o suficiente para me confortar quando penso em tudo que ainda gostaria de alcançar. Em outros, nem um pouco. Ainda assim, até hoje não me arrependi de ter desistido.

Texto por Theo Freitas




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