no nosso segundo expo blush de julho, ainda seguindo o tema ‘contos de fadas’, convidamos Jo Audoux para apresentar seu trabalho em pintura. inspirada pela sua graduação em psicologia, por ana mendieta, louise bourgeois, cartas, histórias, o mar, o onírico e a nostalgia, Jo usa sua introspecção e visão sensível sobre o cotidiano para criar obras que revelam imagens carregadas de memória, com figuras femininas e elementos da natureza imersos em uma aura fantasiosa e, ao mesmo tempo, familiar.

somos grandes fãs de seu trabalho e foi um prazer trazer um pouco de suas visões e inspirações para nossos leitores, que com certeza irão se encantar com esta edição.

antúrio, 2023
guache sobre papel

blush: faça uma breve apresentação sobre você e sua carreira; o que você faz e mais gosta de fazer? o que te inspira?

jo: meu nome é jo audoux, sou artista visual e atualmente estou no final da minha graduação em psicologia. gosto de explorar o meu lado criativo de diversas formas e tento unir a psicologia com a arte, são duas áreas que conversam e agregam tanto no meu trabalho individual quanto meu trabalho voltado ao outro. eu gosto de mexer com todo tipo de mídia, faço mais pintura e desenho mas até chegar lá é um longo caminho revirando lugares internos e externos, mexendo com fotografias, cartas, diários, vão surgindo elementos/ideias que cabem numa ilustração, aí vou brincando com isso.

o navio, 2024
guache sobre papel e intervenção digital

blush: existe alguma obra de arte (sua ou de outro artista) que você considera particularmente significativa para a sua trajetória?

jo: tudo da louise bourgeois. ela também tem esse envolvimento com a psicanálise. penso na série “silhuetas” da artista ana mendieta, esse retorno à terra, de se ver como parte de um todo, de buscar integração com o mundo e é impossível fazer esse trajeto sem tocar na memória.  as obras literárias da annie ernaux são importantes para mim, foi o meu primeiro contato com a autoficção, acho que esse gênero se encaixa bem na minha intenção ao fazer arte. penso também no “cuide de você” da sophie calle, em que ela pediu para que 107 mulheres interpretassem um e-mail do ex-namorado dela. me divirto com esse jogo de público-privado, uma arte confessional, algo íntimo e ao mesmo tempo universal.

the welcoming hands, 1996
louise bourgeois
cuide de você, 2007
sophie calle

blush: como você vê a relação entre identidade, expressão artística e o lugar em que você vive? 

jo: sou franco-brasileira, meu pai é francês e minha mãe é brasileira com ascendência libanesa. quando mais nova, sentia essa constante sensação de ser estrangeira em todos os lugares, meio desenraizada. não me via no rosto da minha mãe, eram muitas histórias, costumes, idiomas, lugares, queria encontrar uma identidade. é uma coisa engraçada porque isso me tornou obcecada por contos, por sentar na mesa com minha avó materna e querer saber sobre a origem do mundo, eu escutava histórias dela pequena e sentia vontade de ser criança com ela, brincar com ela. sentia saudades de um tempo que não vivi. sou de paraty, cidade tombada como patrimônio histórico em que tudo permanece igual, a arquitetura é a mesma há séculos. no entanto, tem o contraste por ser uma cidade turística, com pessoas sempre de passagem, é muita história acontecendo o tempo todo, tem muitos eventos, é um lugar com vida e cultura. isso com certeza teve um impacto no que eu faço.

matriz, 2023
guache sobre papel e intervenção digital

blush: sentimos a nostalgia como um elemento forte em suas obras, pensando como as cenas e elementos evocam um senso de familiaridade e sentimentos do passado… como isso influencia seu trabalho?

jo: por muito tempo me vi como uma pessoa nostálgica e associava isso a algo negativo. eu sou o tipo de pessoa que pede pra ouvir/contar aquela história de novo, de novo e de novo. foi a partir de uma ressignificação dessa inclinação para o passado que comecei a fazer arte. pode ser uma exploração, um trabalho arqueológico, um desvelamento. se você olhar por essa ótica, fica mágico, é uma aventura. aí entra também o trabalho com o inconsciente. existe esse aspecto onírico da memória que me encanta e que tento trazer para o desenho. são traços que lembram uma ilustração infantil mas ao mesmo tempo tem uma estranheza. tudo é bizarro mas familiar. é como contar um sonho.

sem título, 2021
técnica mista
dormideira, 2022
acrílica, lápis de cor, pastel sobre papel e intervenção digital
sem título, 2023
guache sobre papel 
entre sonhos, 2021 
guache sobre papel

blush: há algum aspecto específico da natureza que você acha particularmente mágico?

jo: cresci na praia e sou fascinada pelo mar. o ciclo da maré. na minha cidade temos essas épocas de maré cheia que a água entra na cidade, toma as ruas, entra nas casas. aprendemos a viver com isso, a população se adapta. acho bonito. acho mágico quando o sol reflete na água, gosto de olhar até cansar a vista. é um show. 

escama, 2022
nanquim sobre papel

blush: temos que perguntar: qual sua criatura mitológica e/ou conto de fadas favorito? 

jo: gosto de sereias, do mito de eco e narciso e a história de jonas e o grande peixe.

yoná, 2023
guache sobre papel

blush: se você pudesse criar uma poção da felicidade, quais seriam os ingredientes mágicos dela?

jo: amo cozinhar então certamente incluiria comidas e temperos! além disso, flores, água do mar, luz solar, essas coisinhas que dão a vida pro dia a dia.  

sem título, 2023
guache, acrílica e giz sobre papel
coral, 2023
guache sobre papel

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