
As a young girl, as a very young girl, I was especially taken with “Bluebeard” and I would read it together with my sister. And I was very proud of the fact that even though I was younger than her, she would be the one who would start to cry before me in reading that tale. And at the same time I actually find it so surprising that young girls of no more than six or seven read this tale in which they are taught to love the man who is going to kill them.
–
C. Breillat
Uma menina de cabelos castanhos, vestida de azul, a outra loira, de cor-de-rosa, escondidas da mãe, brincam por um casarão na França dos anos 50. Alcançam o sótão, onde encontram um livro empoeirado: “Barba-Azul”. A loira, travessa, decide ler para a outra, que treme de medo. São irmãs, como Anaïs e Elena no filme mais famoso de Breillat, À ma soeur, e a própria diretora e sua irmã mais velha, a atriz e modelo Marie-Hélène (sem intromissões e fofocas biográficas, jamais, mas qualquer entrevista com ela sobre o tema indica que os paralelos não são acidentais; até pararam de se falar depois que À ma soeur foi lançado). Uma dinâmica muito similar àquele filme é espelhada aqui: a mais velha é vaidosa, prudente (ou sorrateira), e acredita em cortejo e amor verdadeiro; a mais nova é destemida, quase abjeta, e abraça o sangue e horror do mundo e dos mitos com um pragmatismo quase místico. Ambas são românticas e inocentes, mas de ordens opostas.

Justine is the thesis, Juliette the antithesis; both are without hope and
neither pays any heed to a future in which might lie the possibility of a synthesis of their
modes of being. There remains the question of the presence of the king, who remains the
lord of the game.
–
Angela Carter, The Sadeian Woman
A versão de Barba-Azul que leem estrela duas irmãs também: Anne e Marie-Catherine. Órfãs de pai, são despejadas do convento (como Justine e Juliette de Sade) e forçadas a buscar maridos. O recém-viúvo Barba-Azul, seu vizinho, convida as duas irmãs para uma festa, onde a pequena Marie-Catherine conhece e simpatiza com o homem. Apesar das histórias que ouve sobre o destino sangrento de suas ex-esposas, e os avisos do próprio (quando chama a si mesmo de monstro, e pergunta se ela o teme, ela responde, sorridente, que não), aceita o casamento. O enredo segue, sem muitos desvios, o conto original, intercalando as cenas de fantasia com as irmãzinhas lendo no “mundo real”. O que é novo aqui é a forma como Breillat retrata e enquadra a dinâmica do casal. Seu Barba-Azul, apesar de bruto, imponente e pouco emotivo, é sensível, dedicado, hesitante, até vulnerável. Considerando a diferença gritante de idade, Marie determina que não consumam a união por ora, e ele respeita seus desejos, nunca tentando forçar qualquer tipo de intimidade sexual. Por exigência dela, dormem em quartos separados. Numa das cenas mais belas do filme, Marie-Catherine se esquiva para fora de seus aposentos e espia o marido despido: enorme, másculo, mas estranhamente abatido, letárgico. Seminu, sentado sozinho na cama, nem parece o serial killer que sabemos que no fundo é: um homem como qualquer outro, somente. Quase fraco, muito mais que ela, como descobrimos, nós e ela mesma, ao longo do filme.

I felt a terrified pity for him, for this man who lived in such strange, secret places
that, if I loved him enough to follow him, I should have to die.
The atrocious loneliness of that monster!
–
Angela Carter, The Bloody Chamber
A história segue; as irmãs mais novas, dentro e fora da história, cada vez mais curiosas, e as mais velhas, mais e mais temerosas. Barba-Azul parte constantemente, Marie sente sua falta, ele retorna e parte de novo, dessa vez deixando-a com a chave de uma câmara em que não pode, sob circunstância alguma, entrar. Ela entra, é claro, e, numa jogada brilhante, a atriz é substituída pela menina loira lendo, pisoteando o sangue, repetindo como um mantra, “Não tenho medo, não tenho medo”.

Quando o homem retorna, tem de matá-la, quase mais por vergonha, parece, negação da própria perversão, do que um verdadeiro instinto sanguinário. Marie-Catherine consegue retardar o próprio sacrifício o máximo possível, se valendo de graça e astúcia para distrair o marido. Seu tempo esgota no mesmo instante que os mosqueteiros enviados por sua irmã chegam ao castelo, a resgatam e executam Barba-Azul. Enquanto isso, no “mundo real”, a irmã mais velha, aterrorizada pelas reviravoltas e resoluções do conto, decide ir embora, tropeça e cai para a própria morte. A mais nova irrompe em luto imediato, interrompido pelo sublime plano final do filme: Marie-Catherine, em pé, junto a uma mesa onde descansa, sobre um prato de prata, a cabeça de Barba-Azul. A imagem ecoa Salomé, a Judite e Davi de Caravaggio, até Sada Abe pela ótica de Oshima, agarrada com o órgão que ela mesma dilacerou de seu grande Amor (Amor esse que só acaba, só pode acabar em morte e carne, só é Amor, legitimado, porque acaba em morte e carne; como diz Breillat: “Romance é ilusão, amor é descida ao Inferno”). Mas a expressão de Marie-Catherine não é a de uma mera femme fatale, Viúva Negra. Durante a sequência, longa, estática, ela acaricia e encara com ternura a cabeça debaixo dela. Vitória triunfal, essencial para costurar a lenda, mas agridoce, misturada com luto e carinho, quase misericórdia, pelo quase algoz, pelo amor fracassado, desvirtuado em jogo de poder e carnificina. Matar para não morrer, vencer, e ainda assim respeitar o oponente pelo embate, a brutalidade nele que desperta nela a própria, mil vezes mais abissal. Forte porque é frágil. Como a Frederique de Parfait Amour da mesma diretora, que gargalha enquanto o amante a viola e mata a facadas.
Well, it’s a simple enough story. A man meets a woman and seems to conquer her. But it becomes clearer that the woman is stronger. The man is drawn in until he has no hope of retreat, he’s imprisoned – it’s like Napoleon in Russia.
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Breillat sobre Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima.

Victory is always sad. It always reveals the deformity
in the imagination which had created a monster
with the perverse desire to frighten itself.
– Anaïs Nin, Incest
Essa é a força inexorável das protagonistas femininas de Breillat, adentrando bosques e tocas escuras nunca mais profundas do que as que se escondem dentro de si mesmas, sem medo nunca de sangrar. Anaïs, carregada pela polícia, negando que foi estuprada. “Se não quiser não acredite.” O que é ser estuprada quando tudo aconteceu da forma que ela mesma previu na primeira cena do filme, como sempre soube que aconteceria, sempre preferiu que acontecesse (com um desconhecido, uma fera nas profundezas da floresta, que nunca pudesse se orgulhar, difamar ou enganá-la), depois de passar as férias assistindo de camarote à própria irmã ser cruelmente iniciada por um príncipe encantado no que a sociedade ensina às meninas que é Amor, cortejada, coagida, jurada em casamento então abandonada, um estupro tão brutal quanto, talvez mais, por ser ritualizado, norma, disfarçado sob tantos outros nomes e signos passados de geração para geração? Castelos, princesas, promessas, venenos, predadores, câmaras sangrentas, amor verdadeiro… Contos de fadas. Breillat, assim como Anaïs e as irmãs mais novas de Barba-Azul, entende que o encantamento daquelas lendas sempre andou de mãos dadas com a violência. Só aprende a desviar de lobos no bosque e não aceitar maçãs de estranhos, tornar sua fraqueza força, quem deixa o medo de lado, se arrisca, escuta até o final.

Even if we die
If we have to become monsters
and everyone hates us,
We have to read the book because it will teach us
how to avoid the alligator’s jaws,
the wolves who wait in the forest,
the huge snakes,
and how to become birds.
–
Kathy Acker, Blood and Guts in High School
Em várias entrevistas, Breillat conta sobre sua infância e pré-adolescência enclausurada pelos pais como Rapunzel na torre: impedida de socializar depois de atingir a puberdade, passava a maior parte do tempo na biblioteca local. Lá, esgueirando-se da seção infantil, descobriu Sade, Lautreamont, Rabelais, Dostoievsky. A identificação e paixão imediata, profunda pelo horror sublime dessa literatura misturado a um conflito interno tão profundo quanto sobre como as figuras femininas eram retratadas nela foi formativo para o desenvolvimento de sua perspectiva artística. O mesmo serve para Perrault, Andersen, Grimm.

I make moral films.
–
Breillat
É possível traçar correspondências entre todos os seus filmes sobre meninas e contos de fadas clássicos: a Alice no País das Maravilhas escatológica, daydreamer, eternamente insaciada de Une Vraie Jeune Fille, a Chapeuzinho vestindo a própria juventude como uma capa vermelha encarando um Lobo Mau de meia-idade perverso e patético em 36 Fillette, Branca de Neve e Rosa Vermelha recebendo um predador no quarto durante um verão italiano em À ma soeur. Investigar o tabu, mostrar o que não pode ser mostrado, assistir o que é inassistível (como diz a mulher em seu Anatomie de l’enfer), significa descer às raízes que fincam a civilização que o edifica, as histórias que nos contam desde que nascemos sobre como o mundo é e como temos de ser para sobreviver nele. Kathy Acker falava sobre o “retorno ao mito” como mecanismo para subverter o modelo centralizado, Edipal, “falogocêntrico”, da linguagem e consciência burguesa e patriarcal.
What is the language of the ‘unconscious’? Its primary language must be taboo, all that is forbidden. Thus, an attack on the institutions of prison via language would demand the use of a language or languages which aren’t acceptable, which are forbidden. Language, on one level, constitutes a set of social and historical agreements. Nonsense doesn’t per se break down the codes; speaking precisely that which the codes forbid breaks the codes.
– Kathy Acker, Empire of the Senseless

We must film what is forbidden.
–
Breillat
A versão de Breillat de A Bela Adormecida chega a lugares semelhantes a Barba-Azul, mas por vias quase opostas. Somos introduzidos direto em um mundo de fantasia, com a premissa segundo à risca o conto de Perrault. Fadas, Bruxa Má, uma princesa chamada Anastasia fadada à roca de fiar. Acompanhamos a infância exuberante da menina no palácio: ativa e insubordinada, tomboy, passa o tempo correndo pelo castelo e pregando peças. Depois de um recital de balé, o furo no dedo chega, e ela adormece. A partir daí, o filme se torna um sonho. Acompanhamos as aventuras da princesa por terras mágicas, conhecendo personagens excêntricos e terrores paralisantes por instantes então facilmente contornáveis. Uma das primeiras pessoas que ela conhece no sonho é um menino, Peter, por cuja família é acolhida, mas que acaba sendo ludibriado e raptado pela Rainha da Neve. Como no conto de Andersen, a pequena princesa decide resgatá-lo – o ponto de partida para suas jornadas. Mas não consegue encontrá-lo. Quer dizer, antes de despertar. Se em Barba-Azul a vida real e a fantasia eram intercaladas, paralelas, espelhadas, em Bela Adormecida ela se intromete no ato final do filme, quando um jovem na França contemporânea encontra o palácio abandonado e beija Anastasia – diferente da imagem à qual nós e ela mesma tem acesso nos sonhos, não mais criança, mas uma adolescente às vésperas da maturidade. O jovem, por sua vez, é o Peter crescido dos sonhos, e assim que a menina acorda não demora muito até que se entregue, apaixonada, a ele (não antes, no entanto, que uma amiga, também presente nos sonhos, se deite com ela para ensiná-la as “artes do amor”): tanto seu sono quanto seu despertar, assim, são marcados por um furo e o sangue, real e/ou metafórico, que jorra em seguida. Ele não entende as fantasias dela, suas juras de amor eterno, sua carência, pede que seja mais racional.

Peter: What’s all this?
Anastasia: The truth about girls,
don’t be jealous…

No dia seguinte, ao visitar o castelo, não a encontra mais lá. Agora é ele quem sai, inútilmente, para buscá-la. Quando finalmente a vê, pelas ruas da cidade, já parece e se porta como uma mulher. Grávida. Os dois discutem e deitam juntos uma última vez, mas nada nunca mais pode ser exatamente como foi. Anastasia: I went alone into your world. Cinema como romance onírico de formação (ou estudo de caso arquetípico), pode-se dizer, seguindo a protagonista desde seu nascimento à sua entrada, quase anticlimática, depois de tanta magia, na vida adulta. De menina-moleca a princesa adolescente perdidamente apaixonada a algo além, não “independente” exatamente, um clichê girlboss, nem resignada, mas pronta, talvez. Do sonho para a realidade, do símbolo para a carne, da desconstrução dos mitos que regem e restringem (a feminilidade, o romance, a sexualidade, a consciência, o tempo, o imaginário) rumo à construção de um novo, ambivalente, sempre insuficiente, provavelmente… É a tentativa que importa, afinal. Sempre bela e feroz nas mãos de Breillat.

I love blood. It’s in all my films.
–
Breillat
Texto por Pedro Minet




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