no dia oito de dezembro de mil novecentos e noventa e oito, o universo foi criado. é claro que ele existia antes disso, mas ninguém tinha me contado. se contassem, eu também não saberia. nessa época eu não sabia muito o que era eu, o universo, ou qualquer outra coisa. se eu sei que não sabia também é porque me contaram. a verdade é que eu não sabia de nada e saber que não se sabe já é saber demais.
um dia eu tava na escola e aprendi sobre o big bang. a verdade é que não fiquei nem um pouco impressionado. calor, fogo e poeira estelar. mas, mesmo cínico em relação ao surgimento do universo, a vida me interessava. a vida não era como um burburinho em galáxias distantes. ou talvez ela fosse só isso mesmo. o grandioso estalo inicial não me interessava, mas júpiter sim. por causa do meu nome e do dia em que nasci, eu me apegava muito a ele. achava que tínhamos uma conexão especial. pensava eu um dia ir morar lá. agora imagina a minha decepção quando me contaram que lá só tinha gás. naquele dia, descobri que júpiter não era um lugar pra eu morar.
além de júpiter, o meu universo não se estendia muito além da rua do oratório. era onde eu estudava. uma escola cheia de freiras e padres e uma quantidade considerável de solidão. naquela escola eu aprendi quase tudo o que sei. na infância, a gente aprende quase tudo da vida. até que um dia a gente descobre que o mundo se estende além da rua do oratório. mesmo que não se estenda até júpiter. acho que ele acaba em algum lugar ali no meio do caminho. e, nesse caminho, a minha escola ficava bem no começo.
tinha nela uma capela e o maior teatro da região e nesse teatro tinha uma portinha que levava pra algum outro lugar. uma vez me contaram que lá morava um duende, porque ela era bem pequenininha. outra vez me contaram que cortaram a cabeça de uma bailarina lá. eu sabia que nenhuma dessas coisas eram verdade, mas, por via das dúvidas, passava por ela correndo e não olhava pra trás. ela aparecia nos meus sonhos também. instintivamente, a minha mão deslizava até a maçaneta, mas eu sempre acordava antes de ver o que tinha do outro lado.
mesmo acordado, o meu mundo era repleto de lugares assim, mágicos. tinha magia na rampa que levava pro parquinho. magia naquela vez que encontrei um jeito de subir no telhado e levei uma suspensão. magia na poção que eu fiz com azeite e as plantas do quintal. a magia estava sempre ali na minha frente querendo ser encontrada. ela tingia as paredes, encantava objetos e se comunicava em línguas que eu não conhecia, mas sabia fluentemente falar. ela estava sempre no alcance das minhas mãos, mas fugia sempre que eu tentava lhe tocar.
os anos foram passando e a magia se escondendo. com o tempo eu deixei de estudar na rua do oratório, as aulas de astronomia deram lugar pra física dos blocos e dos materiais, o maior mistério que existia era aprender a beber e a fumar. e encontrar um rótulo que me caiba. e discutir política. e reclamar da poluição. e estudar pro vestibular. e… todas as coisas mais.
hoje o mundo é um lugar que eu conheço mais do que já conheci a minha velha escola. ou o porão da casa dos meus avós. ele é repleto de nomes de ruas e lugares onde é fisicamente possível construir uma casa e morar. é claro que o metro quadrado de qualquer ruazinha em são paulo é muito mais caro do que o terreno mais bonito de júpiter. e muito mais cara pra mim é a justificativa de que é impossível habitar em um planeta gasoso do que a verdade cinza da especulação imobiliária.
tem algumas vezes, porém, que deixo meus olhos viajarem, mesmo acordado, na borda em que a cortina se encontra com a parede. na borda entre meu mundo e esse. na borda entre eu e você. tem algumas vezes que até vejo algo rápido demais pra eu reparar. um certo som, uma cor que nunca vi antes, um lugar.
e, assim de uma vez, é como se eu fosse ainda criança. a minha mão instintivamente tateia o mundo em busca de um relevo, uma moldura, uma maçaneta. o meu corpo segue essa dança deslizando no espaço entre dois sólidos que, inocentemente, me deixam transitar. nesses momentos, não existem bailarinas e nem duendes, eu vejo o que há do outro lado e não compreendo. deixo a porta aberta pra quem quiser entrar.
texto por Quintas Santos




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