há nesse ar, um desglamour similar ao de babel. é possível sentir que até o chão, outro anjo desceu — grajaú, são paulo.

a eletricidade escarlate cala o gizo dos grilos e convoca morceguinhos para fazer de sentinela ao redor das torres de alta tensão. são essas noites nas quais deus se indispõe com a gente e os místicos, entre tapetes e equações, fazem a fresta.

os cascos trotando contra as pequenas crateras na rua do arvoreiro dão ritmo ao batuque da noite. molhado de lantejoulas e barro – é tambor, flauta, tambor. quando me passam os nove cavalos, sou a certeza de que esta é a cena de uma vida. jamais terei beleza igual. em penumbra, qualquer gesto é dança.

vinte seis passos, no bowl recém selado, os bissexuais do skate escrevem versinhos que dizem “estamos todos perdidos” e ensaiam um remake emo de a lagoa azul. de seus crimes, os inafiançáveis são alisamento capilar e esses coquetéis alcoólicos de tang limão que apodrecem a zona fantástica de qualquer coração.

de boca acesa e desculpa pronta, corpos d’água quando presentes mudam tudo de lugar. a numerologia dos distritos se embaralha e a via é densa, cenográfica. nesses campos largos vizinhos à linha do trem, tapume é reino, tapume é rei. por isso as vielas do extremo sul sempre foram carregadas de suspense. é o bafo da represa soprando viração.

do relicário ao balbúrdia, permanecem escondidos feito tesourinhos os esqueletos desse berço, de um antigo culto ao “novo teatro marginal”, já não tão descolado. mas cheio dos brotos tímidos e larvas bic.

na adega do boy, os hominhos são quietos como na missa. convertem orações em grudentas moedas e se apresentam acorrentados ao indecifrável conjurador de três cabeças. as carrancas de abóbora fundem-se ao eterno capeta caça-níquel. cão devorador de todo dízimo e pensão. girando e mascando pequenos rombos distraídos nas carteiras evangélicas das esposas em poliéster. lambendo, inclusos, os troquinhos da passagem.

giselle que nesses buracos nem sempre é bem-vinda, aparece mesmo assim porque aqui fez seu nome. me cumprimenta com beijos e um estalar de garras. boneca de gerações anteriores, das que transtornavam agulha em condão, tem blend de óleos até nos tornozelos. monumental e ácida, como todas deusas precisam ser, me gosta por sorte. resmunga minha falta de entusiasmo com os homens dalí, diz que faço “o tipinho do centro”, o que não é um elogio. entre um kariri e outro, “ainda vai ter gêmeos iguais aos meus. dos grandes! vai parar esse grajaú, amor. antes precisa que aprender o valor de andar munida. peito grande triplica o peso da cruz, isso ninguém diz. corvo, gavião, urubu. ameaça de todo tipo, pra todo lado. de bofe, de bixa, de racha”, e caímos na risada, depois na real.

da ponte pra cá, todo segundo é fração. bueiro vira círculo mágico, fusível queimado: conjuração. os cordões cravejados uivam por um punhado de baforadas e pelas calçadas se estendem iluminadas de ferrugem longas séries de punhos incendiários. o isqueiro branco digere a procissão ordenada até seu final, escolhe intransferível uma costura jeans pro santuário da vala poder saciar. arrasta os coitados pra lá, onde a pureza do espírito em breve será só mais uma propaganda de apartamentos.

expurgada a destreza, o que resta é o tuin – estilhaço fumê e juras de morte. no pavimento da suprema face, respondo ao chamado e pago minha dívida por essa visão. inteiros, são sete guardanapos psicografados. os gárgulas de sobrancelhas feitas, agora não mais franzidas, quebram de lado um sorriso e a mordaça de palhaço vilão. me concedem o passe, minha hora vingou.

o trinco da noite é despertar pros sinais: ler a sorte no ranger de telhas, no anagrama das fivelas, no fundo ultravioleta dos pinos ao chão – decifrar o momento certo de acenar para os ídolos e recuar de tudo que se diz alado.

aos mortais traço meu retorno, que é suave, assistido. enquanto fundo no céu, desperta um fio de luz que rasga entre os desencapados postes, o penúltimo apelo. pro sublime anúncio no morrinho do sossego, todas as cenas pausam. e no segundo seguinte, a névoa transborda, se explica. é noite de carregamento. a cada grama da branca, nasce um nefilim.

texto por éris rafaella canuto

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