Sangue, criaturas estranhas e apaixonantes, corpos amorfos, formas disformes. O trabalho de Livi lida muito com a ideia de transformação corporal, tanto no sentido de se aproximar de algo mais grotesco – como o deformar dos dentes-, quanto a identidade queer que suas criaturas carregam. Esse corpo orgânico aparece de varias formas, personificado ou abstrato, ele sempre carrega uma identidade muito forte. 

Nessa #expoblush da semana, a gente quer saber mais de Livi, do seu mundinho amavelmente assustador.

de barriga cheia, giz pastel oleoso sobre papel, 2021
podrinho, giz pastel oleoso sobre papel, 2021

──★ ˙ Como foi o processo de interesses pra criar seu estilo? Você conta com algum tipo de referência, inspirações nessa construção?

Acho que desde o começo referências e inspirações foram fundamentais para a construção do meu trabalho. Frequentemente busco referências, sejam elas novas ou já existentes, e, no decorrer do meu processo criativo, costumo olhar bastante para elas.  Citando algumas, destaco o visual kei, o surrealismo, o teatro Kabuki e a ópera chinesa, o cinema japonês da década de 90 e do começo dos anos 2000, a literatura de realismo mágico e mangás de terror e eroguro. Alguns artistas que me inspiram bastante são Lee Bul, Cindy Sherman, Claude Cahun, Daido Moriyama, Shuji Terayama e Yoshitomo Nara, além de vários amigos e colegas meus que possuem trabalhos incríveis.

seus cílios eram mais duros que seus dentes, 2023 🦷
Giz pastel oleoso e grafite sobre papel, objetinhos

──★ ˙A relação entre corpo e identidade nas suas criações é uma das coisas que mais me chama atenção, especialmente nesse campo mais grotesco, das faces disformes. Existe alguma mensagem/história, por trás?

O grotesco, para mim, a princípio surge como um lugar para explorar estranhamentos que se dão no reconhecimento de um corpo associado a uma identidade, bem como para pensar falhas e problemáticas que emergem na distinção do eu em relação ao outro e do eu-corpo em relação ao espaço (físico ou virtual). Aqui, surge a ideia de monstro e seus desdobramentos, geralmente associados a essa alteridade e que, muitas vezes, ressurgem na construção da identidade.

página de caderninho escaneada (30-08-2022), 2022, giz pastel oleoso sobre papel
 booo! 🕷, 2024
grafite e pastel oleoso,
21 x 29,7 cm
mass:Memory, 2024
foto de uma tela com um arquivo png, desenho em grafite, parte de uma pintura em giz pastel oleoso distorcida digitalmente,.
 fico sempre imaginando qual é o cheiro do seu sangue, 2024; foto “Polaroid”, pregos, tecidos, enchimento, linha de costura, miçangas, argola e parte de modelo anatômico de esqueleto humano

──★ ˙ Falando sobre suas obras mais abstratas e sua linha de criação, qual é o processo de criar a composição? Isso vem intuitivamente ou você já consegue imaginar a estrutura?

Algumas vezes chego a imaginar a estrutura, mas geralmente é mais intuitivo e a composição se constroi ao longo do processo. Acho importante deixar uma margem para que o trabalho, por si só, também possa indicar seu caminho. Sobre os elementos das composições, gosto de lidar com uma abstração orgânica, que se inspira nas formas de vísceras, células, veias e partes de organismos vivos em geral. Também faz parte da minha pesquisa aproximar e tensionar elementos opostos, como linhas e massas, pungência e maciez.

Apoptose, 2021, grafite sobre papel
Morfogênese I, 2021, grafite sobre papel vegetal
Cruz, 2022, grafite sobre papel
Apoptose (estudo), 2021, grafite sobre papel
página de caderninho escaneada (18-12-2023), 2023, grafite sobre papel
Morfogênese II, 2021, grafite sobre papel vegetal

──★ ˙ Para entrar no clima de Halloween: já te aconteceu algo sobrenatural?

Não sei se já aconteceu algo sobrenatural comigo, mas queria citar um sonho que tive uma vez. Pensando nele agora, talvez seja um episódio de paralisia do sono. Eu estava deitado na minha cama, meio dormindo. Não conseguia me mexer direito e estava angustiado. De repente, notei uma textura estranha sob meu corpo: o colchão tinha virado um bolo de carne disforme. Assim que me dei conta disso, essa carne começou a se mover e me engolir, como se o colchão quisesse me puxar para dentro dele. Fiquei um tempo nessa situação, tentando me debater, mas meu corpo não respondia. Conforme era engolido, sentia meu corpo sendo comprimido pela carne. Foi meio desesperador. Quando minha cabeça estava prestes a afundar completamente, acordei no susto. 

~> nossos envios para #expoblush collab ainda estão abertos! se você tiver qualquer arte bizarra, sobrenatural, gore, fantasmagorica ou até mesmo só um pouquinho assustadora, manda pra gente! aceitamos qualquer tipo de mídia

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