Você já ouviu falar em Abu Ghraib?

É a última semana de Outubro e César quer fazer maratona de filme de terror. Chego na casa dele às cinco e meia depois do trabalho, jogamos cartas no sofá, então ligamos a TV enquanto cheiramos Ritalina e bebemos um pouco de cerveja. Assistimos ao primeiro Jogos Mortais, depois A Centopeia Humana, então O Albergue 1 e 2. César diz que O Albergue é a melhor obra de arte já feita sobre a política externa americana pós-11 de setembro, quase um ataque terrorista – pior ainda que aquele – em forma de filme, misturado com exposé. Ao mesmo tempo, pr’além disso, o primeiro ato da narrativa é uma paródia brutal das comédias de sexo hipermasculinas e quasifascistas que começaram com American Pie em 99 e seguiram imbatíveis durante os anos 2000. É o mais próximo que alguém chegou de repetir o que o Pasolini fez com Saló, sabe? O equilíbrio perfeito entre horror e comédia, farsa seguida de tragédia seguida de farsa seguida de… Na minha opinião, claro. Ou, sei lá, o que o Deodato fez com Holocausto Canibal…  No fim do filme, violência gera violência gera violência, mocinhos se fundem e confundem com vilões em reflexos de espelhos de aeroporto, e o mundo continua sendo o mesmo marasmo obscuro de tortura, conspiração, vingança, dominação, alienação e gozo.

Já ouviu falar em Abu Ghraib?

ele me pergunta. Digo que não. Corre até o quarto, volta com o notebook semiaberto, saltitando pra não tropeçar no cabo. Digita algo, abre uma aba nova, então me passa o computador: site aberto, fundo preto e letras vermelhas, design porco e ultrapassado. Fotos e fotos de corpos árabes nus dispostos um sobre o outro como Jenga, carregados por coleiras, se equilibrando encapuzados contra fios e eletrodos. Oficiais americanos sorrindo para a câmera, com polegares erguidos, como crianças posando com o Mickey, Pateta e Pato Donald na Disney.

César diz que as cenas da tortura de O Albergue 1 & 2 fazem referência direta e indireta, simbólica subliminar sorrateira Lacaniana sei lá…, a essas fotos, que vazaram lá pra 2003 e não deram em nada pra ianque nenhum além de algumas demissões e seis meses a um ano de prisão. Conto pra ele dos meus dias de adolescente de 14 anos no LiveLeak e bestgore e Tumblr, e como só fui sentir o efeito daquelas visões anos depois, aleatoriamente, enquanto pegava o metrô e enxergava meu corpo e o de todos meus colegas de faculdade atolados entre degraus da escada rolante, ou enquanto alguém me comia, tirando um barbante imediatamente antes de gozar do bolso e cortando minha cabeça fora, pasta vermelha e esperma jorrando juntos pra fora como recheio de bombom de Dia dos Namorados,

Por tanto tempo sonhei em ser
Ou me previ sendo, sei lá,
Morto por alguém que me amasse…

Não é uma fantasia tão incomum,
Eu acho,
Só ver o quanto meninas adoram vampiros
É meio que o apelo todo de Twilight… 

***

Tem alguma relação entre sexo e crimes de guerra na minha cabeça, ou a ideia deles, sua imagem e representação, que ainda não consigo decifrar totalmente. O sentimento quando um cara te joga pra lá e pra cá, olhando pra você de cima, te fazendo engasgar, jogando tudo que é dele, todo o peso do mundo, incorporado no corpo, pra dentro das suas entranhas. Num glory hole qualquer, emburacado de quetamina, ouvindo as primeiras notas de No Tears Left to Cry como canto gregoriano extasiado, Santa Teresa d’Ávila. Me ajoelhando pra chupar um e de repente surgindo mais quatro, me cercando, cobrindo toda a luz do mundo – a jaula do Paraíso fechando,
nenhum anjo te salvando.

 E ao mesmo tempo tem algo de delicioso nessa abjeção,
esse desejo
de ser o buraco mais profundo,
a ser penetrado por todos e nunca nunca preenchido
Desejo tão infinito
não por nenhum homem específico
nem por todos
nem por seus toques, seus corpos
suas bocas ou suas picas
Mas por Desejo em si

(Como a Bess de Breaking
the Waves do Von Trier)

Em outra vida casei
com Deus,
tenho certeza,
E devo ter sido mais feliz…

***

Me despeço de César às 1h30, e parto. No ponto de ônibus tem um homem de terno, com uma maleta, ouvindo um áudio sobre a Palestina. Bombardearam um hospital, um ônibus e uma escola na noite passada. Não tem ninguém em casa – mamãe saiu com as amigas prum show no Blue Note, e minha irmã nunca aparece mais desde que começou a estagiar. Fico deitado na cama, de shorts xadrez vermelhos sob os lençóis, agarrado com um Totó de pelúcia, enquanto mexo no celular. Não consigo dormir; passo a madrugada assistindo vídeos. Um grupo de garotos brinca em ruínas em Gaza, nos arredores de uma escola, blocos de concreto íngremes usados como escorregadores, terra mágica de destroços como em Alice no País das Maravilhas de Svankmajer. Correm em direção à câmera, uma voz detrás perguntando a eles com o que sonham: com açúcar, estrelas cadentes, corrimões, escadarias, cheiro de gasolina, morango e detergente, livros de colorir; com o irmão voltando à vida. Coleção de meninos mortos, novos, toda noite e todo dia. 

***

Um escritor que admiro, namorado de um editor que fodeu minha garganta junto com um artista plástico barra influencer num banheiro fedido perto do fim da festa de aniversário de um dos meus melhores amigos em Maio, logo depois de tê-los conhecido, diz que está pensando em vir pro Rio pra festa/sarau de Halloween que estamos organizando, eu e mais quatro amigos, numa galeria em Botafogo. Me pergunto se ele sabe do que aconteceu daquela vez com o parceiro; suspeito que sim. Começo a me preparar para a possibilidade de fazer o mesmo que fiz com ele, talvez mais alguém, ou parecido. Me sentir especial, esperto, bem-sucedido enquanto acontece, então imediatamente insignificante, infame e deprimido.

Espero que consiga <3,
digito

No dia, uma hora antes da festa, ele avisa para meu amigo 
(não pra mim) 
que infelizmente não pode vir.

***

Por que mesmo sendo elogiado, publicado, lido
Ainda me enxergo e identifico com o groupie sem voz, bonito, fácil e fodido, que meio que fui dos 12 aos 20?
Por que não me interessam tanto estrelas
quanto os meninos que fizeram tudo 
e deixaram que se fizesse tudo consigo mesmos,
até simplesmente morrerem
um dia qualquer,
totalmente humilhados
– talvez assassinados –
apagados 
e desconhecidos?

Talvez pela mesma razão que as protagonistas de Jean Rhys
eram como ela em quase todos os aspectos:
belas, dependentes, então descartadas
por todos os pretendentes,
mas nunca sabiam escrever,
como ela fez,
pra registrar, se vingar, evitar o próprio martírio
principalmente pra sobreviver…

***

Na noite da festa visto uma capa longa vermelha, tiara com orelhas peludas pontudas no cabelo, harness de couro apertado na cintura sobre camisa social branca de manga curta – como uniforme de colegial – ensopada e encardida de sangue falso. Bermudas justas pretas, meias brancas grossas, coturnos esmurrados. Cesta na mão esquerda, com livros, doces e flores (rosas brancas, também ensanguentadas), e um machado na outra. 
De uma só vez: Chapeuzinho, Lenhador, Lobo.

***

Quando te conhecer vou demorar umas três horas até aceitar que você é real

***

Você diz que adorou o texto que li na festa, e que quer comprar meu livro

Acabei de ler essa semana
Agora sinto que te conheço no íntimo…

– se esgueirou pra trás de mim na 
parede 
e me puxou pelo quadril

Eu te afastei, talvez você tenha ficado bravo, porque,
de um instante pro outro, sumiu

Você disse que meu livro não é o tipo de livro que costuma ler, mas gostou, e que o texto que eu acabara de declamar na festa fora tão perverso, 
100% representativo
da minha obra 
e de mim…

Vai ser perverso assim
na puta que o pariu, menino…

Você é um lobo em
pele de cordeiro,
Pedrinho

Disse que os arranhões e hematomas no meu joelho pareciam de uma criancinha de cinco anos de idade

Disse que eu era Chapeuzinho

– as a twink

depois de ser estuprado

Sua namorada foi embora mais cedo
Você garantiu que não dava nada
Sorriu, disse, 

Finalmente…

Quando me inclinei pra te beijar

Me perguntou por mensagem, 
de madrugada, 
se algum lobo 
ou lenhador 
ou vovô
tinha conseguido me devorar 
cruzando o bosque escuro 
entre Botafogo e Jardim Botânico 
Respondi que

 Não,
Vovó mora perto
Ando rápido
Que nem todo veado…

e perguntei se o menino,
gaguejando de bêbado,
com quem tinha lhe visto conversando sozinho na esquina do bar 
antes de entrar no Uber
chegara são e salvo em casa
Você garantiu que

Sim, 
Fui com ele de carro,
como um cavalheiro

(e ele agradeceu com um abraço apertado, ainda que trêmulo,
antes de descer da carruagem)

Ignorei o resto das mensagens,
descansei o celular na cama
e lancei a capa na prateleira mais alta do 
guarda-roupa
que não consigo alcançar de 
jeito algum
nem se quisesse
sem uma cadeira ou escada 

***

Posso te pedir uma dedicatória especial?
Goza no seu poema favorito 
e me entrega com as páginas meladas?

***

A LITERATURA NÃO NASCEU NO DIA EM QUE UM MENINO CHEGOU CORRENDO E GRITANDO “LOBO, LOBO”, VINDO DE UM VALE NEANDERTAL COM UM GRANDE LOBO CINZENTO EM SEUS CALCANHARES: 
A LITERATURA NASCEU NO DIA EM QUE UM MENINO CHEGOU GRITANDO “LOBO, LOBO”, E NÃO 
HAVIA NENHUM LOBO ATRÁS DELE.

POUCO IMPORTA QUE, POR MENTIR COM FREQUÊNCIA, O POBRE GAROTINHO FINALMENTE TENHA SIDO DEVORADO POR UM ANIMAL DE VERDADE. O IMPORTANTE É QUE, ENTRE O LOBO EM MEIO AO CAPIM ALTO E O LOBO NA HISTÓRIA POUCO CRÍVEL, HÁ UM ELO CINTILANTE. 
ESSE VÍNCULO, ESSE PRISMA,
É A ARTE DA LITERATURA.

O escritor se limita a
seguir a liderança da natureza.
E a natureza sempre engana.

QUANDO MORREU, A HISTÓRIA CONTADA SOBRE ELE SE TRANSFORMOU EM UMA BOA LIÇÃO A SER TRANSMITIDA EM VOLTA DA FOGUEIRA DO ACAMPAMENTO EM UMA NOITE ESCURA. 
MAS ELE FOI O PEQUENO MÁGICO.
ELE FOI O CRIADOR. 

***

Sonhei com você esses dias
Estávamos todos no mesmo bar
Você tinha um gêmeo, um
duplo loiro
Tipo Rita e Diane de 
Mulholland Drive
Ou Dirty e Xenie de Bataille
Não interagíamos mas eu dizia pruma amiga que te conhecia

E ela falava seu nome
E eu falava que era outro
E no fundo ninguém sabia

Você sabe que eu bati punheta várias vezes pras fotos que você posta
Antes de tomar coragem pra falar contigo?

Tô certo que ele não é o único que já fez isso,
amigo,
Mesmo que não queira,

eu mesmo,
admitir

– mesmo que esteja,
assim…

Suspeito que muitos outros também 
Até aqueles que você chama 
de amigos

Talvez seja Poliana da minha parte – 
ou só porque,
detrás da cortina
dessa cidadezinha esmeralda 
de estúdio hollywoodiano antigo
ou bordel masculino falido,
é difícil assimilar às vezes 
que as pessoas realmente compram a 
fantasia…
veneram a mercadoria
manequim despido 
em vitrine virtual
como Virgem

(maculada,
enfim…)

– mas nunca pensei que fizessem isso…

Eu nunca fiz

Escritor-ator-pornô
Sem rosto,
só corpo

Uma palavra pro livro dele:
Twink!

– Invisível

Só vou restar eu no Vaticano,
Depois que você se for,
Tentando te canonizar, Minet,
Se você continuar assim…

Deus dá a todos
E a cada um de seus filhos
Algo em que sejam bons
Sempre fui tão inútil
Mas sou bom nisso

Você vai olhar pra cima,
do navio
Vão tocar os sinos

e os créditos vão subir 

***

Como ficaram as coisas com o Ivan?
Tive um sonho sobre o date de vocês
Vocês bebiam em algum lugar, iam pra casa dele,
Depois você cobrava
Esse é o seu…
Personagem, 
afinal,
né?

texto por pedro minet
arte por julia lacerda

Uma resposta para “PEDRO E OS LOBOS”.

  1. […] o único conto previamente reproduzido de superstar, pedro e os lobos, foi publicado em primeira mão aqui na blush. texto intenso e que explora bastante a relação – tão presente no livro – entre puro […]

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