no último ano, passei quase todo dia pensando sobre ana mendieta. no dia 24 de janeiro de 2024, carl andre, seu marido acusado de jogá-la pela janela em 1985, morreu. desde então, ela não sai da minha cabeça.

por coincidência, esse é o meu último ano na faculdade de design de moda, e também por coincidência, há 1 ano eu havia começado a trabalhar numa coleção conceitual que contava com diversas silhuetas de ana mendieta em seu painel de inspiração. então, fez todo o sentido no meu coração continuar essa coleção (que até então eram apenas ideias misturadas e alguns experimentos em superfícies) e usar toda essa paixão e pensamentos obsessivos pela artista para levar o projeto a sério e transformá-lo no meu tcc.

talvez eu tenha usado esse trabalho como uma desculpa para me aprofundar na vida dela… eu já tinha a biografia where’s ana mendieta?, de jane blocker, baixada há tempos e só queria mergulhar nesse livro e passar o dia inteiro escondida conhecendo mais a sua obra. poucas sensações são tão prazerosas quanto se apaixonar por um artista, suas ideias, sua produção, e se permitir ser obcecada por isso – explorando tudo até não sobrar mais nada para ler.

toda essa pesquisa foi muito transformadora para mim; durante o período de produção, me consolei com a ideia de que, mesmo que meu trabalho não atendesse às minhas expectativas, ao menos teria conhecido mais a fundo uma artista que admiro profundamente. e no fim das contas, esse mergulho me proporcionou um período não só super produtivo, mas também imensamente feliz 🙂 e emocional.

voltando ao começo, o meu tema nasceu na disciplina da faculdade chamada handstorm, lecionada pela incrível rosanna naccarato. o objetivo da matéria era que cada aluno criasse uma peça de roupa conceitual sob algum tema livre, e a ideia era realizar esses experimentos em sala e fugir um pouco da assepsia e perfeccionismo que lidamos nas aulas de modelagem e costura. o tema que criei chamei de água viva, porque, na época, estava relendo o livro homônimo de clarice lispector, e achei que ele, de certa forma, conversava com as imagens de inspiração que eu tinha separado (ainda era tudo um tanto confuso na minha cabeça!). água viva me despertou uma necessidade de capturar a fluidez e a metamorfose, algo que parecia se refletir diretamente nas obras de mendieta, que aborda temas como identidade e pertencimento.

foto de 2023 na aula de handstorm. a professora colocava a gente para ouvir música de piano… que aula gostosa!

como na época que peguei essa matéria eu não era a melhor aluna em modelagem (e nem tentava ser), a professora me sugeriu trabalhar com upcycling, e uau… tudo fluiu! quando comecei a criar meu tcc, um ano depois, entendi como poderia amarrar tudo isso: o upcycling, a renovação de peças que já existem, faz um paralelo perfeito com o tema de natureza e metamorfose que eu queria trazer para o meu trabalho.

então, para o meu trabalho, propus um editorial de moda inspirado na série de fotos silueta, de ana mendieta, utilizando técnicas de redesign e até materiais naturais e orgânicos na construção do figurino. a construção da forma torna-se um elemento central da narrativa, assim como mendieta fazia em sua prática artística.

os looks são todos feitos por mim, utilizando upcycling e técnicas experimentais :3

o look 1 é inspirado em ocean bird (washup). a espuma da água me lembrou um tecido de renda derramado, então construí uma blusa em patchwork com diferentes rendas e camisolas vintage. para completar, fiz a minha clássica headpiece (que voltará a venda logo logo! ok!) reutilizando o fio de uma peça garimpada.

o look 2 é inspirado na icônica imagen de yágul. trabalhei com bordado de flores reais (feito durante as fotos!) em uma blusa de tule vintage. além disso, produzi um bloomers usando o tecido de uma camisola antiga e fiz uma cauda com rendas, inspirada na “calcinha para hibernar aos domingos”, da marca ventana. o styling é composto por flores em todo canto.

e, por fim, o look 3 é inspirado na foto flower person, flower body. quis trazer a referência das flores magentas sobre o branco, então usei a técnica de eco print tataki-zome. durante o editorial, deitei um vestido antigo no gramado e imprimi flores reais nele com a ajuda de um martelo. uma abordagem literal e orgânica da construção de forma…

agora, as fotos…

a modelo é minha irmã jejé, e tiramos essas fotos na praia vermelha e na floresta da tijuca, aqui no rio. as fotos são uma mistura de 35mm e minha camerazinha digital.

é impossível olhar para a vida e obra de ana mendieta sem sentir o peso esmagador da injustiça. uma artista tão singular, com uma produção rica, sensível e potente, foi brutalmente silenciada. o homem responsável por isso, carl andre, viveu décadas após sua morte, enquanto mendieta teve sua vida interrompida no auge de sua potência criativa. ele continuou sendo celebrado em circuitos de arte, protegido por um sistema que tantas vezes se recusa a reconhecer a violência enraizada em sua própria estrutura.

artistas como tania bruguera têm honrado sua memória de formas que me fizeram chorar enquanto escrevia meu tcc (meu deus). pouco depois da morte de mendieta, bruguera criou o projeto homenaje a ana mendieta, no qual reencenou alguns de seus trabalhos mais emblemáticos. com isso, trouxe à tona a força visceral de suas performances, situando mendieta no contexto cultural cubano, onde sua obra era pouco conhecida por conta do exílio. e, mais importante, levantou a pergunta que ressoa até hoje: “onde está ana mendieta?”

Homenaje a Ana Mendieta, 1985–96
Tania Bruguera
Body Tracks, 1974
Body Tracks, 1974
Ana Mendieta

e foi isso que eu tentei trazer para o meu trabalho: honrar a força dela e transformar minha indignação em criação. mesmo sabendo que nada que eu fizer chega perto do que mendieta construiu, sinto que esse processo me aproximou de sua essência – de sua arte, de sua memória e de sua luta.

esse trabalho, no fim, não é apenas sobre moda ou fotografia – é sobre memória, resistência e a urgência de manter viva a voz de mulheres como ana mendieta, que, mesmo após serem silenciadas, continuam ecoando com intensidade através de suas obras.

Tania Bruguera: Artwork Survey: 1990s | Art21
Homenaje a Ana Mendieta, 1985–96
Tania Bruguera

como me senti quando terminei de escrever meu tcc… eu entendi eu entendi

beijinhos, espero que tenham gostado!

Uma resposta a “água viva”

  1. Avatar de cami𓇼 ⋆.˚ 𓆝⋆.˚ 𓇼
    cami𓇼 ⋆.˚ 𓆝⋆.˚ 𓇼

    oiiii dressa, amei ler seu texto e achei que suas fotos ficaram lindas demais!! apaixonada pela headpiece e principalmente pelo seu trabalho de luta e de resgate da memória, algo tão importante (para nao esquecer).

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