Cartão do Playland, 2010. Mídia retirada do site ‘acervo de lugares inexistentes’

Um hit desse ano foi a nostalgia, toda essa tendência de colecionar objetos, fazer journals e aquela vontade de guardar até o plastiquinho lindo de bala que a gente come bate muito naquele local do medo do esquecimento que a gente tem, do que a gente já deixou pra trás, os brinquedos de infância que nossa mãe doou sem nem perguntar (talvez esteja sendo pessoal demais com a minha nostalgia). 

Quando falamos de espaço, as coisas ficam mais complexas, os lugares que o tempo nos deixou sem poder mais habitar não cabem numa caixinha de lembranças… É estranho pensar que alguns dos nossos lugares favoritos não existem mais. Temos as fotos, que sempre fizeram esse papel do registro de tempo. Cada vez mais, nossos olhos biônicos são a ferramenta mais importante pra preservação desses espaços e momentos que não voltam, pode se dizer que alguns momentos registramos mais do que propriamente vivemos, e são tantas as memórias que registramos muito mais do que revivemos, e nessa ânsia do registro misturada a preguicinha da visita esquecemos do que realmente importa e nos ajuda a revisitar de fato esses lugares: a organização desses arquivos. 

Album comparativo da cidade de São Paulo : 1862-1887-1914, Militão Augusto de Azevedo e Aurélio Becherini, 1914. 

Arquivar é a maneira mais poderosa de manter a história viva. Não teriamos um contato tão vivo com nossos antepassados se não fossem os museus e instituições culturais, não assistiríamos tantos filmes de décadas passadas… O querer lembrar para não esquecer e para reviver é combustível forte, nos faz criar exposições, sites, blogs, acervos.

Selo da coleção da Flora Brasileira, 1990
Selo da coleção da Flora Brasileira, 1990

E como separar? Como guardar? Como definir graus de importância? Sempre penso que os museus quando montam exposições, eles optam por contar narrativas, aquilo que faz sentido naquele contexto sociocultural do momento. O público precisa de uma história minimamente identificável. Buscar algo que nos toque e sensibilize. Memória nostálgica. Releituras da infância. Na vida adulta atual. Buscar esses espaços inexistentes e memórias adormecidas, marginalizadas pelo nosso cotidiano ocupado e caótico. Vivemos nos centros das nossas vidas e o que se passou está às margens. Ah, mas como é bom lembrar e ser lembrado.

Descentralizar a posse da memória é provar a pluralidade do estar, do momento, da classe, da vida. É muito importante realizar que é um poder que se encontra nas nossas mãos também, qualquer pessoa pode ser uma arquivista da sua própria realidade, essa que por vez também se entrelaça na vida de outras pessoas também. 

É o nosso desejo de querer lembrar de tudo que agora pode ser guardado de forma digital. Nossos cadernos de colagem e diários de quando éramos crianças, antes perdidos em nossos baús, são redescobertos e digitalizados e com isso, cria-se uma identificação. Alguém de outra cidade, estado e país chora e se diverte com algo que eu nem mais lembrava da minha vida. É relembrar junto com desconhecidos, é transformar o íntimo em ferramenta de comunicação. É metamorfose de sentimentos. 

Caderno de memórias da leitora Yasmin (@i4ryuk), página de ida à São Paulo, e na primeira exposição da Blush. (hihi<3), 2024

Ver um projeto tão bonito como o ‘acervo de lugares inexistentes’ tomando conta do arquivo dos anos 2000 na internet, chamando e incentivando a juventude a criar e conservar junto que me fez ter vontade de falar sobre esse assunto que eu amo tanto: a ansia de conservar a memória. revisitar nosso passado que nem parece tão distante assim, mas quando você se percebe, tem mais de 20 anos passados aqui na Terra.

O acervo de lugares inexistentes é um site que se compromete a criar um catálogo de fotos de lugares (majoritariamente infantis) que já não existem mais, criado por Luísa Guarnieri, mas coletivamente cultivado pelos amantes e acompanhantes do projeto.

captura de tela do site, 2025
exposição temporária da barbie
porto alegre, 2008/2009
enviado por: Lara Minotto
convite de aniversário com logo da casa de festas mia follia
Rio de Janeiro, 2002
enviado por: Isabele Lima
decoração de natal do club penguin, nos shoppings Tatuapé e Boulervard Tatuapé
são paulo, 2011
enviado por: Mariana Ablondi 

Inspirada pelo acervo, elenquei alguns endereços digitais que cuidam da memória brasileira também:

──★ arquivo de adesivos de fruta ★───

captura de tela do site, 2025

Eu sou muito apaixonada por adesivo de fruta e tenho minha própria coleção, quando descobri esse projeto que também é da Luísa Guarnieri fiquei muito emocionada! Inclusive tenho alguns da coleção dela hihi. Esse por sua vez é sobre sua coleção pessoal, o que não deixa de ser incrivel, eu particularmente desejei uns pra mim.

──★ ferramenta de histórico do Google Maps ★───
Uma coisa que eu gosto de fazer no ócio é procurar e observar a passagem do tempo na minha cidade, no Google Maps. O Maps tem uma ferramenta de histórico de todas as vezes que ele passou por um local.

captura de tela da ferramenta de histórico, 2025

Por exemplo, um dia fiquei procurando todos os Oxxos (uma loja de conveniencia que se alastrou por São Paulo de repente), e curiosamente, a maioria dos estabelecimentos antes eram comercios locais.

Antes do ponto do comercio local
ser comprado pelo Oxxo, 2012
Oxxo, São Bento, 2023

──★ acervo do ims ★───

captura de tela do site, 2025

O acervo do IMS contem mais de 40 mil midias para pesquisa, com fotografias datadas desde 1800. Dentro do acervo pode-se pesquisar sobre fotografia, iconografia, música e literatura.

Gosto muito de ver as edições de Pif-Paf do Millôr, era uma seção da revista ‘O Cruzeiro’ com humor, charges e lindas construções gráficas.

Partitura de Labareda, Baden Powell
Pif-Paf,  Millôr Fernandes, 1948
Flagrante de rua – placas, letreiros e cartazes, David Zingg, 1980

──★ página da editora abril no internet archive ★───

A Editora Abril disponibilizou uma serie de scans de revista no Internet Archive. Pela pesquisa, você pode encontrar outras midias da editora (ou de qualquer coisa que exista na internet).

captura de tela do site, 2025

──★ menções honrosas não brasileiras, mas que podem servir de incentivo pra nossa produção ★───

  • Esse site, que randomicamente reproduz videos no youtube que têm nomes de câmeras padrão como títulos;
  • Esse querido que tira fotos diarias 9h09 da manhã todos os dias há mais de 20 anos – e posta no blogspot;
  • Esse bot no twitter que regularmente posta selos de todos os paises;

Espero que tenham gostado! Vocês conhecem mais iniciativas como essas? Deixem nos comentários!

Obrigada Camila pela ajuda ❤

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