É verão nos trópicos. E eu, nos subtrópicos, sei que é verão aqui também.

Sinto o calor, mas como se fosse um erro.
Falta alguma coisa: um barulho ou um cheiro.
Pode até ser aquele cheiro ferruginoso do elevador — os daqui, geralmente, não têm esse cheiro; os mais chiques, às vezes, exalam algum outro scent desconhecido.

Aquele veraneio no apartamento de uma tia em Camboinha.
Saudades. Oleosas. Grudentas.
Às cinco da tarde, com o cabelo ainda molhado e uma leve dor de cabeça, levanto de um colchão no chão e, por uma brecha, olho para minha avó (sempre acordada), fingindo estar dormindo na rede.
Por outra brecha, sei que ela também me vê.
Telepaticamente, nos estranhamos.

O vento uivoso que vem da janela na sala me sugere uma fuga — antes que tudo se transforme em sofá e TV. 
Atravesso o corredor branco, todo aberto, com vista para a dança dos coqueiros.
Desço para a rua cor de mar noturno.
Sinalizo alguma coisa com a mão para a madrugada. Refaço a passagem. 

Elevador, corredor, etc. 

Deixaram a porta aberta para eu voltar.
Chego, deito na rede onde minha avó esteve mais cedo, balanço e espero.
O sol abafar meu rosto, a distância, o banheiro.

Texto por Sofia Pimentel (@sofiapimentels) e arte da capa por Camila Simões.

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