para iniciar o ano mais leve e aguçar ainda mais toda a vontade de transmutação que esse comecinho traz, nossa primeira exposição do ano começa com Helena Obersteiner: artista visual, designer têxtil, ex-(?)tatuadora, professora, podcaster e eterna investigadora do espaço.
o trabalho da Helena sempre me chamou atenção por essa curiosidade de transformar a observação e referência em uma tradução totalmente original sua, sem parecer passar por momentos de incerteza, ou melhor, ela convida gentilmente esses momentos para também se apropriarem da sua criação. Sua trajetória é repleta de provocações aos suportes e universos dos quais ela busca explorar.
nessa exposição, decidimos traçar um caminho crônico a fim de vasculhar cada rota das suas produções, entender os movimentos e metamorfoses.



──★ ˙ ̟Como surgiu sua relação com a arte, principalmente o desenho? Quais suas referências e inspirações?
HELENA OBERSTEINER: Entendo o desenho como uma prática transdisciplinar. Para além do papel, através dessa prática, compreendi que ser artista poderia instigar um meio de observação do mundo ao meu redor e de entender que faço parte dele. É uma forma de reverberar e perceber os estímulos que recebemos. Vivemos em um momento em que passamos muito tempo em telas e o desenho se apresenta como uma possibilidade de estar junto, de criar comunidade.



O que me encanta especialmente é a possibilidade de ancorar experiências que envolvem os cinco sentidos do meu corpo no aqui e agora. Me interessa muito investigar como posso transformar essa atenção sensorial em acontecimento através do desenho. É uma prática que toca também questões de espiritualidade, e por isso sempre destaco a importância da minha investigação em relação à possibilidade de criar e imaginar futuros mundos. Fui me apaixonando pelo desenho conforme descobri todas essas possibilidades, porque elas dizem respeito a uma vida mais saudável e que me enche de esperança.

──★ ˙ Seu traço sempre pareceu muito livre, despretensioso e sincero. Como foi o caminho que você traçou para lidar com o erro? Existem produções que você ainda sente essa pressão no fazer?
H: Me reconheço como uma pessoa perfeccionista e já sofri bastante com discursos mentais solitários que julgavam tudo o que produzia. Um ponto-chave na minha investigação como artista foi me conscientizar de que isso estava acontecendo e buscar ferramentas para sair desse ciclo, processo que teve forte relação com a prática da meditação.

Percebi que esse componente era um dos pilares que estava travando meu desenvolvimento e comecei a levá-lo em consideração nas aulas do projeto Desenhos Feios. O que chamamos de erro pode ser interpretado de diferentes perspectivas e contextos. Existe uma pluralidade de pensamentos que nos atravessam, reconheço a importância de sabermos diferenciar com o que nos identificamos ou não. Assim, podemos construir nossos caminhos com sentido.
Percebi que, se não falamos sobre esse contexto, sobre essas conversas da mente, sobre a pluralidade de pontos de vista, não é possível seguir adiante. Com a força dos encontros coletivos, que vêm acontecendo ao longo dos anos em diversos cursos, consigo transmutar tudo isso. Existem nós que são desfeitos pela força do coletivo. Atualmente me sinto extremamente livre ao desenhar e é nessa prática que busco conhecimentos para outras partes da vida nas quais ainda me sinto pressionada a seguir uma expectativa.

──★ ˙ Ainda sobre traço e erro, queremos saber: Como se deu a ideia dos desenhos feios? E como isso se desdobrou a uma série de cursos?
H: O Desenhos Feios surgiu a partir de um movimento de olhar para minha própria trajetória e reconhecer quais pontos tinham provocado uma virada de chave, permitindo que meu processo se desenvolvesse. Decidi transformar essas descobertas em exercícios para propor a outras pessoas – não com a intenção de que chegassem no mesmo lugar que eu, mas para que pudessem olhar cada vez mais para si mesmas e encontrar suas próprias direções.


Quando iniciei o projeto há anos atrás, começamos com uma turma pequena. Logo percebi que o interesse foi crescendo de forma exponencial, e as turmas foram se multiplicando. A metodologia foi amadurecendo e se desenvolvendo a partir do contato com os participantes, tornando-se um trabalho essencialmente coletivo.
Vale destacar que esse movimento acontece também por um intenso trabalho de presença digital. O uso das redes sociais sempre foi um pilar para tornar viável esta iniciativa, que é tanto uma investigação artística quanto uma maneira prática de existir como artista.

Com o tempo, instituições começaram a entrar em contato, como o MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Centro Cultural São Paulo e o SESC, onde atuei no ano passado. A cada convite, desenvolvo uma nova proposta, que é um desdobramento dessa pesquisa e nasce a partir das especificidades de cada espaço.
──★ ˙ Ao longo do tempo, vemos as cores e outros materiais além do papel surgindo no seu trabalho, e ampliando mais as possibilidades de textura que você investiga. De que modo se deu essa transição?
H: Trabalhei por muitos anos com tatuagem, o que me levou a ter uma relação bastante objetiva com os meus desenhos por conta da necessidade de apresentar um produto. Quando me desconectei dessa prática, passei a ter muita curiosidade para entender novas relações cromáticas e espaciais.



A partir de algumas experiências, muitas pessoas passaram a comentar que o papel era pequeno para meu trabalho. Então fui buscar outras possibilidades que tivessem uma resposta mais expressiva e que me permitissem ampliar o tamanho do que eu estava produzindo. Foi assim que cheguei à cerâmica e aos tecidos e, mais essencialmente, ao corpo – que nesse novo momento não seria o suporte do desenho, mas o protagonista nessa busca por novas dimensões além do bidimensional.



2023

──★ ˙ ̟Você sempre compartilha abertamente seus pensamentos e descobertas sobre ‘viver de arte’. Quais dicas você daria para artistas que estão procurando se sustentar nesse meio?
H: Nesse sentido, preciso ser bem pragmática. Viver de arte é um caminho desafiador que geralmente requer anos de dedicação e, frequentemente, demanda manter outros trabalhos em paralelo.

É fundamental buscar formação e conhecimento em áreas complementares que possam ajudar a viabilizar a prática artística. Em minha experiência, fazer uma pós-graduação em marketing foi decisivo para conseguir realizar minhas ideias.
A realidade de ser artista no Brasil exige que sejamos muito pé no chão. Por isso compartilho essas reflexões nas redes sociais – para desmistificar a romantização dessa escolha profissional e evidenciar que este caminho requer muita dedicação, investimento e outras instâncias que ainda estou descobrindo. Não se chega a lugar nenhum sozinho, essa é a essência que me leva a compartilhar.



★ ˙ ̟Você pode conferir trabalhos, projetos e oficinas de Helena Obersteiner clicando aqui ★ ˙ ̟



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