
Meses atrás escrevi um texto no qual eu fiz duas perguntas:
Não estamos sempre desconfortáveis? não estamos sempre por fora?
E continuei:
Quando conheço um homem pela primeira vez, todos estão sempre nervosos.
Agora, reflito sobre essas palavras. E como nos agarramos em qualquer coisa para deixar de sentir. Eu estava convencida que o friozinho na barriga não era mais essencial, não só para questões amorosas, mas para tudo. Se eu entro numa festa escura e com luzes coloridas, preciso estar bêbada para deixar de sentir o nervosismo. Não sei o que fazer com minhas mãos, preciso segurar um copo, cigarro ou enfiar nos bolsos, ops, estou de vestido. E agora?
Porque, na verdade, eu estou nervosa para ligar a câmera do notebook e para que me olhem com os mesmos olhos cruéis que eu olho para mim mesma e para os outros. Eu aperto as unhas contras as mãos, mordo a boca, mexo no meu cabelo e olho meu celular a cada minuto. E, antes de passar para o próximo páragrafo, eu abri meu whatsapp novamente.
Em outra aba, estava lendo um livro que achei num drive que um dos meus orientadores de TCC, ex professor e amigo ocasional (Edu), me mandou há uns três anos, e sinceramente, só fui abrir agora. É o Introdução à Antifilosofia do Boris Groys e, gostei do conceito que ele traz logo no início sobre “estética da experiência”. Pensei bastante em como gostamos de autoidentificação. Lembro que quando estava fazendo o TCC, anos atrás, conversando com meus orientadores, comentei da obsessão de nos sentirmos vistos e representados. Que sempre que leio, assisto ou escuto algo, vou me interessar mais se algo for semelhante a minha personalidade ou algo que vivenciei.
Foi tipo quando eu ouvi “If You’re Feeling Sinister” de Belle and Sebastian pela primeira vez, fiquei estarrecida com esse trecho:
Hilary walked to her death
Because she couldn’t think of anything to say
Everybody thought that she was boring
So they never listened anyway
Nobody was really saying anything of interest, she fell asleep
She was into S&M and bible studies
Not everyone’s cup of tea she would admit to me
Her cup of tea, she would admit to no one
Her cup of tea, she would admit to me
Quantas vezes já não nos sentimos desinteressantes. Não por sermos quem somos, mas por receio de como seríamos percebidas e vistas. Hilary tinha seus hobbies e os adorava. Eu tenho os meus e você também. E todos acham tudo muito interessante, até chegar ao ponto de finalmente abrir a boca no meio de uma festa. As conversas que ensaiamos sozinhas sobre assuntos que amamos nunca acontecem como imaginamos.
Em uma cena da série “Girls”, a personagem Hannah, interpretada pela Lena Dunham, fala que sente medo o tempo todo e que é a pessoa que mais o sente no mundo inteiro. E o seu namorado (entre idas e vindas, né), Adam, interpretado pelo Adam Driver, com seu jeito amoroso & agressivo, lhe consola dizendo que ele também sente medo, que todos sentimos e bem-vinda ao clube!
A diferença é que não é o Adam Driver (1,89cm de altura) que vem me consolar. Infelizmente, sou eu mesma. Mas gosto quando sou lembrada que sim, tudo que estou sentido agora alguém já sentiu e que mais alguns milhões devem estar sentindo nesse exato momento. E, voltando para a Antifilosofia de Groys, ele cita Husserl, que fala sobre como para se tornar um filosófo é preciso é o objeto de estudo se sobreponha, num ato de fenomenologia (poética de análise do que está ali no meio do ser pensante e do objeto) redutiva, nosso eu ordinário e natural, com atitudes dominadas por auto-preservação, para se ter uma atitude (realmente filosófica) que ultrapasse o ideal de que se existe apenas uma maneira correta de ser sobreviver no mundo.
Ora, nós escritores estamos constantemente falando sobre nossas vidas em troca de um texto finalizado na tela de um computador. E pelo desejo de quem gostem. Que riam ou que chorem. Mas que sintam algo, pelo amor de Deus! É mais do que os elementos já apresentados, não é apenas eu e o texto, nem o conteúdo, nem os meios de divulgação, é o desespero de conexão. Mas, as vezes as consequências de subverter essas formas de se sobreviver na nossa sociedade tem consequências desagradáveis! Uma vez, escrevi um ensaio e algum maluco veio me encaminhar, dizendo que queria me conhecer e conversar, já que escrevi sobre esse desejo. Se ele fosse bonito eu até entrava na onda, mas como era feio, eu desdenhei e dei block.
A questão da busca por identificação continua, Groys prossegue falando sobre o conceito de “metanoia”, que é essa mudança de pensamento radical de rejeitar o eu antigo, limitado e ordinário e se abrir para uma nova possibilidade de vida e de evidências filosóficas. Nossa, só de recuperar o tesão em querer sentir o friozinho na barriga ao fazer as coisas me lancei em um recomeço filosófico nesse começo de ano. Antes estava paralisada com o que meu futuro próximo me parecia reservar, o assombro dos erros do passado, os ciclos autodestrutivos intermináveis. Talvez sejam esses rituais mentais de início de ano ou talvez eu só queira deixar para trás alguns comportamentos que não me cabem mais mesmo. Não que eu esteja melhorando em algo, me tornando alguém melhor, possivelmente só quero buscar outras vivências e narrativas! Acho que só deixei se ser menos burra do que um dia já fui.
Exemplo disso foi quando estava olhando o drive com os livros que o Edu tinha me mandado, vi inúmeros, alguns muito interessantes, mas nada estava casando com o que eu queria. Abri vários sobre arte, literatura e feminismo. Comecei a ler alguns, Donna Haraway, Monique Wittig, etc e tal. Já as li e as adoro, mas quando bati o olho, pensei: feminismo agora não. Menos com a Virginie Despentes… Quando vi que tinha o pdf do meu amado “Teoria King Kong”, abri um sorriso e fui dar uma olhada por saudades… E me relembrei do melhor índice que poderia existir:

Boa sorte, meninas. Vamos precisar! Sinto que a cada ano que começa estou no vícios frenéticos: a necessidade de auto renovação e consequentemente, de auto identificação. Todos querem anos melhores, empregos melhores, viagens mais longas, bebidas mais caras e folgas maiores. Me identifico com a Virginie porque quero te foder e que você me foda e depois, dormir com este inimigo. Que devido aos meus vícios frenéticos de pornofeiticeira (acredito na Márcia Sensitiva e amo transar), será impossível me estuprar (não conheço uma mulher que não tenha passado por alguma violência, incluindo eu e a Virginie). Porque nós garotas King Kong, isto é, que desejamos ser a besta fera sem gênero que vivia tranquila em seu habitat natural, livre da obrigação da servidão ao homem e sociedade, mas que é arrancada, usada e morta ao bel prazer destes, que ao mesmo tempo que nutrem um fascínio pelo grotesco, nos destroem por esse mesmo motivo. Realmente, viria a calhar ter uma boa sorte agora!
Mas se até no mais árduo e polêmico, existe um processo (necessário) de identificação, gostaria de retomar o conceito de recomeço e como seu valor é sempre atrelado a uma modificação para melhoria. Penso muito na personagem Marnie Michaels da série “Girls” pra exemplificar.
Marnie começa a série lá com seus 23 anos e sua vida é até ok, mora com a amiga, terminou a faculdade, tem um emprego e um namorado bobão que a ama mais do que ela o ama. Bem comum, não? Mas, com o passar de quatro anos, ela vai amadurecendo como personagem e, nesse caso, não é algo positivo. Ela termina com o namorado, é demitida, tenta mil empregos e nada dá certo, casa com um cara e se separa, quase é despejada e, quanto mais ela vai afundando, mais ela vai se tornando narcisista e maluca. Ela é linda, mas não é uma “cool girl” misteriosa, ela é cringe, pesa clima e é difícil assistir algumas cenas. Ela se coloca em situações horrendas, que ela mesma causa, e só percebe muito tempo depois, e quando o faz, permanece. Porque ela odeia recomeçar. Porque cada vez é mais difícil. A cada nova tentativa ela vai se perdendo até não fazer ideia de quem ela é. Do que ela gosta, quem são seus amigos, o que ela sabe fazer e o que ela quer. Ela precisa de atenção, de qualquer um. E mesmo assim ela continua se sentindo superior a tudo e todos e é incapaz de enxergar que seus interesses amorosos também tem problemas e questões pessoais. Ela vive tão dentro do próprio mundinho caótico querendo ser adorada que não percebeu que dois de seus namorados eram viciados!! Incapaz de aceitar seus erros e de aprender com eles, ela continua vagando buscando algo que não existe: algo que a complete.
E pior que me identifico! Umas duas semanas atrás eu estava na casa da minha amiga Catarina, com nossas amigas, e a mãe dela ficou perplexa porque eu chamo os caras que saio de Camilos! Segue um pouco do diálogo:
Mãe de Cat: Narcisista mesmo! Quer que todos eles tenham a sua personalidade, é?
Eu: Não! Eles podem ter a personalidade deles, mas a melhor parte deles é justamente serem vínculados a mim!
E ela disse que era por isso que eu estava solteira! E ela tá certa mesmo, mas, eu, por incrível que pareça, tenho consciência das coisas! Eu só não sei o que fazer com esse saber! Sei porquê sou assim, porquê fiz o que fiz e faço o que faço, mas e se eu não quiser mudar? E se não tiver o que ser mudado? Não preciso de solução porque não existe problema! Ou talvez eu esteja tentando me convencer disso…
Mas, mesmo sendo uma péssima pessoa, a Marnie era uma ótima amiga! E eu acho que eu sou também! Ontem, eu estava de novo na casa de Catarina, com as meninas, e teve uma hora que já estavámos mais pra lá do que pra cá e nós duas paramos de cantar (gritar) no karaokê e, conversando, li pra ela esse texto, falei que ainda estava incompleto, etc. Mas, foi muito lindo ver que desde o começo, ela se identificou com o que estava escrito! E ela riu dizendo: “Nossa, como que pode, mesmo com nós duas sendo tão diferentes uma da outra, vivemos e sentimos as mesmas coisas!” E eu estava feliz e ela também! É sobre isso! É pra isso que escrevo! Recompensa nenhuma pode ser maior do que ter lido o parágrafo sobre a Virginie Despentes e as nossas vivências como mulheres e ver minha amiga querida que conheço desde a adolescência se emocionar e me abraçar.
Algumas coisas podem até mudar, mas outras continuam as mesmas! Sim Catarina, eu sempre vou amar você, sua casa e beber aí até desmaiar! Como quando passamos no Enem e, eu e outra amiga nossa, bebemos tanto que demos pt e você e sua mãe tiveram que dar banho na gente e, no dia seguinte, ela veio nos dar um carão… Porque ontem eu bebi muito e dormi no seu sofá, agarrada numa almofada e, quando acordei, tomamos café e lavamos a louça, ainda bêbadas.
Disclaimer: Não somos alcoólatras!!111





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