Em um domingo, depois de assistir ao Nosferatu original com meu namorado, fui conhecer o restaurante Brota, em Botafogo. Não me sinto apta para oferecer uma boa review, as entradas eram boas, os drinks bons e os pratos dos meus pais e de Pedro bons, mas o meu era muito sem graça. Não me parece justo chamar o restaurante de sem graça nesses termos… então não vamos falar do restaurante. Vamos falar sobre onde ele fica. Assim que desci do Uber reconheci o antigo Bar Reduto, agora lar do Brota, do seu bar irmão Libô e de uma loja de roupas a qual não dei muita atenção. Conheço o Reduto de alguns anos atrás, quando ele abrigou algumas edições da Feira Uva, uma feira que reune pequenos artistas, música e dança.

Se eu não me engano era 2022 quando fui a Feira Uva pela primeira vez. Não me lembro com quem marquei, mas encontrei algumas amigas da faculdade lá – talvez também esteja misturando as edições na minha cabeça. Lembro-me de descer para o subsolo procurando por alguém, me lembro de não achar. Lembro-me de pensar muito sobre o que usar, num ritual que eu ainda me pego fazendo, um cosplay de uma certa zona sul; lembro-me de sentir que não tinha dado certo. 

Eu sou de Niterói e em 2020 me mudei com a minha familia para o Rio, mas todos sabemos o que aconteceu em 2020, então, para todos os efeitos, 2022 foi meu primeiro ano de fato habitando esse espaço carioca. Quando de fato comecei a perambular por essa cidade, de bar em bar, festa em festa, casa em casa, me sentia um potrinho que acabou de nascer e ainda tem as pernas bambas. Me sentia intrusa. Me sentia usando boné em público quando todos lá sabiam que eu nunca usava boné. 

Me senti assim em todas as Feiras Uvas que fui, mas continuei indo. Queria nutrir minha amizades no Rio, era importante para mim e eu gostava (e ainda gosto!) daquelas pessoas. E de vez em quando, enquanto dançava ao som de Promiscuous, eu me sentia bem.

O Reduto fechou, a Feira Uva mudou de casa e eu nunca mais fui.

Porque estou dizendo tudo isso?

Esse final de ano me fez morder a língua, fui de cínica negacionista de textões de fim de ano à pessoa emocionada e contemplativa que só pensa em gratidão. Entreguei meu TCC no início de Dezembro e tive minha sala lotada das amizades que fiz ou nutri na faculdade, incluindo aqueles que tão generosamente me ajudaram a realizar meu projeto, topando trabalhar de graça e até ir para Paquetá sob Sol escaldante. Aquilo me tocou profundamente, alguém que te abre a sua casa para que voce possa atingir os seus objetivos, ou que dispõe seu dia, sua mão de obra ou até mesmo alguém que se dispõe a ir para a faculdade nas férias só para te ouvir falar… tem algo de muito especial nisso.

Semanas antes dessa apresentação, fui ao Rock The Mountain, um festival na serra do Rio de Janeiro, com uma dessas amizades e outras 12 pessoas, amigos dela, que eu nunca tinha visto na vida. Em nenhum momento me senti potro. 

Fiquei emocionada com os vínculos que criei ao longo desses últimos anos. Pessoas boas, altruístas, parceiras, doces. Pessoas que me inspiram a ser mais boa, mais altruísta, mais parceira, mais doce.

Se hoje não me sinto potro, se evolui a um pônei (ou quem sabe até um cavalo, para aqueles mais otimistas) não foi por mérito meu, por assim dizer. Não fiz qualquer jornada espiritual de confiança ou li qualquer livro cafona de Como se Portar em Festas. Talvez meu mérito seja como curadora… mas ainda assim acho que não. Se hoje sou pônei, ou, abandonando as metáforas, se hoje sou eu, foi através dos outros. Cada vez mais acredito que o mundo só se abre através da relação que temos com o outro, seja ele quem for. É vendo o que tem de especial fora que podemos reconhecer isso dentro, é vendo o que pode ser que podemos começar a entender o que somos (e, talvez, a partir dai, o que queremos ser.) Tenho percebido, mais e mais, o quão incompleta é a introspecção. Acho que nela muito se indaga pelo prazer de indagar não pela curiosidade da resposta e que esse é um processo de um ciclo vicioso com poucos frutos, as respostas não estão escondidas nas esquinas do cérebro, mas no mundo. Nos outros. Refletir é essencial, claro, mas temos de ter cuidado para não se transformar em algo masturbatório, egoico.

Por alguma curiosidade do destino o twitter me mostrou um post com uma frase de Fernando Pessoa, autor que usei na epigrafe do meu TCC, que dizia “Quando me entrego, embora pareça que me expando, limito-me. Conviver é morrer. Para mim só a minha autoconsciência é real; os outros são fenômenos incertos nessa consciência.” Lendo isso sinto pena de Pessoa, apesar de tentar evitar esse sentimento (acho um pouco condescendente) e sinto um profundo desejo de nunca me permitir ser dessa forma. Autoconsciência por autoconsciência não vale de nada e limitar-se é uma escolha. Torço para que em 2025 possamos escolher certo. Amém para nós todos.

Texto por Mariana Victer

Uma resposta para ““Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter em pé.””.

  1. que texto lindo!!!! de fato, sou melhor por ter pessoas ao meu lado; se sou suportável, é graças aos queridos que dividem o peso da vida comigo.

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