Sob a redoma translúcida do quarto escuro, sobre o leito suave da minha juventude, meu corpo repousava inquieto. Pensamentos anuviados contemplavam minha mortalidade – mas era belo! Um sorriso certo acompanhava os orvalhos acumularem-se nas janelas d’alma e se transformarem em pérolas, que curvavam-se sobre mim e alinhavam-se à minha silhueta. Deitada ali, senti o pequeno movimento das pérolas da minha inocência e das borbulhas da minha inquietude; gêmeas, acomodavam-se.

Levantei meus olhos e ergui a tela que brilhava diante da minha euforia, aflitos, eles dançavam buscando. Um ponto curioso saltou! Eram stills de um curta-metragem – o vislumbre de vestígios maculados e coloridos de um cavalo exibido trotando; de alguma maneira, soube que o desassossego que me ofuscava naquela madrugada, encolhia.

Uma sede de água de côco espelhava minha sinestesia; e foi na neblina invisível que o cheiro azul difundiu-se no quarto e, intuitivamente, como num gesto de varinha mágica, dei play: “Oh magia embaralhada! É você quem eu busco, a nitidez hoje não me interessa!” – rompeu-se num grito inaudível a voz de mil conchas exprimida num suspiro. Na minha frente a presença dum cavalo em sua mais sublime forma – difusa e magnífica – mesclava-se ao ambiente e desafiava confiante certezas abobalhadas: “rodopia, cavalinho, e me leva contigo também!” – rompeu-se novamente a voz de mil conchas num suspiro.

Meus olhos espiralavam-se como num hipnotismo, enquanto meus dedos, seguidos pelo mesmo movimento, giravam a pequena manivela daquela caixinha de música cujas notas repetiam-se, também, na cadência cíclica do carrossel de um só cavalo.
“Trota, trota, cavalinho!” rompeu-se mais uma vez o suspiro de mil conchas, “e dilui-se comigo no caleidoscópio cintilante da tua existência inocente”, continuou agora mais inaudível; nesse momento, todas as cores do mundo dançavam no quarto, e minha silhueta perolada invocava o gosto solar, lunar e de todos os astros que o inspiravam a lançar-se no algodão-doce fugaz daquele chão macio.

Naquela noite sonhei que a água de côco girava em minha língua, os orvalhos – que eram pérolas, me contornavam, o encadeamento de luzes embrulhava meu leito, e aquela música… oh, aquela música! Ela conduziu meu sono à pequena vila em Berlim que era deslumbrada pela beleza insondável. E eu, eu transmutava lentamente no Cavalo, que era azul mas também vermelho, era verde mas também rosa e amarelo – a inquietude agora desvanecia.


Berlin Horse, 1970, sob a direção deslumbrante de Malcolm Le Grice e da trilha sonora sagaz de Brian Eno.

arte por jessica caroline

Uma resposta para “A Glimpse of Berlin Horse”.

  1. amei tanto escrever esse sonho!
    obrigada meninas ❤ ❤

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