Eu olho pra tela do meu computador todos os dias, eu sei que talvez o meu tempo de tela no computador deve ser mais que o tempo que eu passei fora dela durante esses 24 anos de vida. Em algum momento da pandemia, eu me vi todos os dias olhando pra tela de um computador por mais de 10 horas: trabalho remoto, faculdade remota, lazer (remoto) e desenhos (digitais), tudo em uma tela. Não que eu já não passasse muito tempo na frente das telas. Aos 8 anos um computador doméstico entrou em casa, aos 11, ganhei um tablet, e desde então nunca parei de frequentar a internet, todos os dias. Desde então, a internet passou a ser minha segunda casa — um espaço onde eu, um corpo de carne e osso, coexistia como uma entidade virtual.
Eu uso Twitter há 13 anos, essas ideias de construção de uma segunda personalidade sempre foram questões pra mim, por ter sido uma criança muito tímida, solitária, eu conseguia mostrar uma persona muito mais confiante nas redes, falar do que eu gosto e conhecer mais coisas que eram do meu interesse, sem precisar de ninguém.
Minha relação com a tela é de simbiose. Ela é minha extensão e, ao mesmo tempo, uma moldura que define como existo e crio.
A Donna Haraway fala muito sobre esse processo de formação de identidade onde somos moldados por máquinas e como coexistimos com essas outras espécies tecnológicas, onde moldamos e somos moldados por eles. Um híbrido de ser humano e máquina, um corpo virtualmente ciborgue, interconectado pelas redes e espaços digitais. Gosto de pensar na metáfora que o Flusser faz no livro ‘O Mundo Codificado’ quando eu produzo imagens, onde ele compara nossos olhos às câmeras, nosso cérebro aos processadores e as mãos como ferramentas mecânicas.
Meu computador é minha casa, meu companheiro e meu observador. Ele guarda rastros de um tempo que é meu, mas também de um tempo que nunca foi totalmente meu.

No caso desse meu projeto, a defesa inicial veio de trazer mais visualidade entre essa conexão e separação de corpos, o computador não é neutro, é meu espaço de performance, eu sou o humano, ele é a máquina, nós se encontramos entre o trabalho e o lazer, a produção e a dispersão, a exposição e o individual, a matéria e a antimatéria. Nesse período, eu sentia muita necessidade de registrar meu tempo de alguma forma, mas nunca fui a pessoa da escrita, dessa maneira a única coisa que fazia sentido era ter um diário imagético. O entendimento e importância dessa pesquisa foi evoluindo durante a própria execução, onde a máquina e eu fomos evoluindo juntas também, como sempre foi. Eu performava minha presença no trabalho, registrava minha rotina e encarava meu reflexo nas janelas digitais.
Meu computador é minha ferramenta de trabalho, meu palco, diário e espelho.
Tudo que registro são rastros, pegadas de um momento efêmero da minha rotina que por muitas vezes é extremamente repetitiva, fragmentadas em blocos de notas, pesquisas no navegador, as músicas no meu Spotify e programas da Adobe. Estímulos constantes e distrações superficiais que todo ambiente digital traz, entre as horas do meu trabalho CLT, as demandas do meu dia-a-dia e meus projetos pessoais, sempre online, sempre criando, sempre consumindo. É uma dependência tecnológica induzida.
Meu computador não é apenas uma ferramenta; é um ser dominante. Ele organiza meu tempo, dita minhas prioridades, registra minha vida e condiciona minha forma de existir.

O que começou como um registro diário inofensivo, onde lentamente é narrado sobre minha vida, as minhas mudanças de cabelo e quais tarefas eu estava executando se torna uma provocação a colonização do mercado que invadiu tão bruscamente uma área que majoritariamente era “lazer”, refletindo e resistindo às dinâmicas do sistema do nosso mundo atual. Nós nos tornamos servos de máquinas que dependem de nossa presença, nossa produtividade e nosso consumo para funcionar.
Continuo negociando meu espaço entre o que me liberta e o que me aprisiona — um corpo humano tentando coexistir com um sistema que não é neutro.

Caso tenham interesse de ver o projeto completo (até agora) subo diariamente as fotos em uma pasta no drive, aqui.







Deixe um comentário