
Como pode… é como quando eu ia sair com alguém. De banho tomado e toalha na cabeça, vislumbrei meus três perfumes e escolhi o Johnson’s Baby verdinho. Mais tarde, já sem a toalha na cabeça e o restante da roupa, o alguém sorri ao sentir meu cheiro tão familiar, eu olho para o teto e tenho vontade de rir. Eu não tenho nem dinheiro para comprar um perfume de Femme Fatale! Sou apenas uma jovem que vive de freelas e da bondade do nosso senhor Jesus (sou ateia). Mas, em contraponto, não depilo minha florestinha, como se fosse um consolo para mim mesma: ei! você é adulta! só não tem dinheiro para agir como tal! Nem maturidade, às vezes…
Ontem, estava ouvindo música e quis enfiar meu punho dentro da boca, mas ao invés disso, dei um grito silencioso ao ler a letra de “You’re Just a Baby” de Belle and Sebastian:
So kiss me on the cheek before you go to sleep
You will be working in the morning
And I won’t be there to see you go off you’re head
Yeah, you will be crying in the morning
And I won’t be there to see you go off you’re head
There must be a reason for all the looks we gave
And all the things we never said before
So what’s the score?
Cause there must be a reason for all the looks we gave
And all the things we never said before
You’re just a baby, baby girl
So kiss me on the cheek and then go off to sleep
You’re just a baby, baby girl
So let go of my hand so we can get some sleep
You will be crying in the morning
And I won’t be there to see you go off you’re head
Cause you will be marring in the morning
And I won’t be there to see you go off you’re head
E enquanto parava pra almoçar lembrei de outra música deles, a “Seeing Other People”:
Cause we’re seeing other people
At least that’s what we say we are doing
So how are you feeling?
I don’t think you can be dealing
With the situation very well
You take a lover for a dirty weekend, that’s ok
But when it’s over
You are looking at the working week through the eyes of a gigolo
You’re kissing your elbow
You’re kissing your reflection
Fiquei refletindo como temos que lidar com a vida adulta… todos temos que trabalhar de manhã cedo, mas por favor, me fale coisas bonitas antes de dormirmos e não apague todas as luzes da casa, porque eu ainda tenho medo do escuro. Mas então já é dia, e, eu tenho que escolher entre tomar banho ou tomar café, mas só consigo pensar que quando eu voltar, você não vai mais estar aqui e que eu odeio cozinhar, ainda mais cansada. Como que já estamos casando, morando sozinhos, trabalhando 8h por dia, se eu morri de chorar quando minha mãe disse que doou minhas bonecas de infância (que eu mesma tinha selecionado para doação)?
Porque ontem, enquanto eu estava no meu turno, assisti “Falsa Loura” (2007) do Carlos Reichenbach. É um filme sobre uma mulher que trabalha numa fábrica, um trabalho cansativo, duro e que obviamente, paga mal. Em contraponto com sua realidade, ela sai com suas amigas quase todas as noites para dançarem, beberem e transarem. Os interesses amorosos da personagem são dois cantores. Ela os admira e os deseja. Ela os conhece e eles fodem. E logo depois ela precisa correr para o trabalho, mas não antes de chorar na entrada da fábrica. É o conto da Cinderela, em cada homem que conhece, a personagem, embora muito orgulhosa de seu trabalho e do seu caráter, sonha que alguém a ame muito e a tire dessa condição financeira. Mas todo dia a realidade lhe bate no rosto: não foi dessa vez, você não aprende? Vá trabalhar e de noite vamos sair de novo. Quando terminei de assistir, ainda faltava quase 1h de trabalho, também não estava com tempo de analisar o filme, mas comecei a chorar. Algumas coisas a gente simplesmente entende.
Conversando esses dias com Edu, falamos sobre a tese dele do doutorado, “O enquadramento performativo como trabalho de arte”, e em específico, sobre o “Rapto de Ganimedes”, mito grego de uma criança linda que é raptada por Zeus para servir o Olimpo. Falamos sobre “O serviço e a recompensa”… Esse nosso desejo primário de sermos escolhidos. De nos vejam como os mais inteligentes, bonitos, interessantes ou com mais seguidores e curtidas. Que a performance que fazemos seja reconhecida. Queremos que nossos chefes nos deem um aumento pelo esforço diário. E ainda sobre “Falsa Loura”, impossível não relacionar os desejos alucinantes da protagonista: o serviço é o sexo e a recompensa que ela busca é o amor romântico do princípe de cavalo branco. Chorei, porque pensei em mim, em como a cada nova pessoa que me relaciono esses impulsos aparecem: uma vez, estava num bar com um alguém que eu estava saindo, ele me disse que não íriamos pra casa dele depois porque ele ia viajar logo cedo. Meus olhos marejaram e ele perguntou se eu tinha ficado ofendida e eu prontamente disse que sim. De vez em quando penso nisso, na minha revolta, de a única coisa que eu poderia oferecer (sexo) estar sendo refutada, que meu serviço não era necessário e consequentemente, não viria a ter minha recompensa: o amor.
Me masturbando hoje de manhã e pensando em como escrever esse texto, relacionei o já citado filme, com outro, “A mulher que inventou o amor” (1980) do Jean Garrett. O meu longa-metragem favorito. Nele, a personagem principal, com uma visão muito inocente sobre o amor é retirada abruptamente de sua bolha e passa a ser uma prostituta. Mas, quanto mais ela se aventura com amantes, mais miserável ela se torna. A perversidade da vida real vai a tornando insensível e cruel e cada vez mais fora da realidade. Ela tenta buscar prazer e realização pelo sexo, já que o amor se mostrou falho, mas tudo o que ela recebe é uma infelicidade alienante, reclusa em seu universo particular sem começo, meio e fim e sem próposito. Seu corpo, seu maior e único atributo, seu serviço, não vale nada para ela e nem para ninguém. Somos todos esquecíveis sem nossa recompensa.
Esses dias, estava lendo o “A Partilha do Sensível” do Jacques Ranciére, em especial, o quinto e último capítulo: “Da arte e do trabalho. Em quê as práticas da arte constituem e não constituem uma exceção às outras práticas.” No qual, é dito:
“Pela noção de fábrica do sensível, pode-se entender primeiramente a constituição de um mundo sensível comum, uma habitação comum, pelo entrelaçamento de uma pluralidade de atividades humanas. Mas a ideia de partilha do sensível implica algo mais. […] É sempre uma distribuição polêmica das maneiras de ser e das ocupações num espaço de possíveis”.
E, no terceiro livro da “República” de Platão, ele fala sobre a figura do fazedor de “mímeses”, esse ser duplo, que não exerce apenas uma funcionalidade em seu emprego, faz e é duas coisas ao mesmo tempo. Vai contra a separação arte x trabalho e vida pessoal x vida profissional. E de como ele é caçado pelo tempo e pela noção de produtividade. Faça apenas o que lhe é mandado e quando o terminar, você terá tempo livre para fazer o que deseja.
Seria perfeita essa indústria utópica, eu e você aglutinados por vontades e desejos em comum. Mas ao fechar a tela do seu celular, porque o intervalo do trabalho acabou, voltamos à realidade. A outro tipo de amálgama humana, dessa vez, há uma hierarquia. Quando finalmente batemos o cartão, podemos ser nós mesmos. Mas e quando não gostamos do que vemos no reflexo da vidraça no ônibus e do metrô? E se no meu tempo livre, não consigo ser quem eu deveria ser? O que fazer e o que pensar? Quem eu sou além do que eu faço e do que sou remunerado?
Porque quando chego em casa e vejo que tudo está do jeito que deixei e o silêncio mortal me faz lembrar de como era o que eu desejava, sinto saudade de chegar em uma casa onde eu era esperada. De ver de longe a luz acesa. E me sinto sem ar, eu desço para a rua e o abafado da noite sem vento, do céu de piscina de azulejos pretos e águas cristalinas infinitas, dos carros buzinando e das pessoas nas ruas preenchem minha mente. E perco a noção de tempo. E então preciso voltar porque meu estômago está roncando, porque tenho mensagens para responder, banho para tomar, remédios para engolir e uma cama para deitar. E tentar dormir.
Rancière segue, fala sobre “a arte das imitações” (tekne), e que esta, não é uma mentira, mas sim, um técnica. Porque ela deixa de ser um simulacro, mas cessa ao mesmo tempo de ser a visibilidade deslocada do trabalho como partilha do sensível. E eu penso numa cena do final de “Falsa Loura”, no qual a personagem aparece nua e outro personagem a olha e diz:
“achei que você fosse loira de verdade”.
A Cinderela que finge ser princesa por uma noite. E eu que finjo ser eu mesma todas as noites.
Essa noite, estava conversando com meus amigos e acabei falando que quando criança fiz várias coisas pra ocupar meu tempo mas não amava nada que eu fazia e pensei, nossa nada mudou! E acabei lembrando de uma cena de um dos meus filmes favoritos, o “Asas do Desejo” (1987) do Wim Wenders, no qual, o anjo Cassiel, o mais niilista, observa as crianças num circo e reflete sobre como já viu cenas como aquelas infintas vezes, sobre como já viu nascer, viver e morrer incontáveis pessoas por uma imensurável quantidade de anos. Ele já viu tudo. E nada pode fazer. Seu alento é pouco para o sofrimento humano. Quem cuida do anjo? ninguém pode vê-lo.
Quando a criança era uma criança
engasgou comendo espinafre, ervilhas, pudim de arroz e couve flor cozido
agora come tudo isso e não só porque o tem que fazer.
Quando a criança era uma criança, uma vez acordou na cama de um estranho
e agora isso acontece de vez em quando.
Muitas pessoas pareciam bonitas
e agora só algumas
se tiver sorte.
Tinha uma imagem precisa do paraíso
e agora só dá pra adivinhar.
Não conseguia conceber a ideia do nada
e agora estremece com a ideia.
Quando a criança era uma criança,
brincava com entusiasmo
e agora, só fica igualmente animada quando se trata de seu trabalho.
Às vezes gosto de pensar que sou igual a uma das crianças que Cassiel viu no circo: ele acompanhou minha infância e tudo o que a envolve. E agora, por acaso, me vê adulta num parque de diversões, eu choro na roda gigante. Algumas coisas nunca mudam.

Arte da capa por Cami e Dressa :3





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