5 anos atrás me recomendaram a tetralogia napolitana da Elena Ferrante e li todos os livros no meu falecido iphone 7 de botão em 1 mês. virou a minha série favorita de livros, mas ter lido todos pelo celular me fez perder a chance de ter um contato com os livros impressos. até que em 2023, a editora globo relançou os livros e ganhei o box de presente do meu namorado e agora eu tinha uma missão que estava muito animada pra cumprir: reler tudo outra vez.
mas como eu não consigo fazer nada simples sem tornar Uma Coisa, decidi criar uma coluna aqui na blush pra registrar comentários sobre cada livro, falando tudo que pensei e amei ou odiei enquanto revisito essa série.

no dia 8 de janeiro de 2025 comecei minha jornada com Amiga Genial, um post it azul, canetas e uma cartinha de pokemon como marca-página e um sonho.


hoje, enquanto escrevo este parágrafo, é dia 30 de janeiro. levei 22 dias pra ler o primeiro livro e essa impressão virou um xodózinho pra mim. amei a textura do papel, o miolo super leve e confortável de ser carregado e segurado. além de ser maleável na medida que eu gosto, as páginas têm um cheiro muito gostoso.
ah, um aviso – esse comentário tem spoilers. apesar disso, meu objetivo é não só alcançar pessoas que já conhecem a tetralogia, como também alcançar quem quer um dia conhecer essa história. a partir desse momento fique à vontade para continuar ou não. caso não queira ler tudo inteiro recomendo pular pro final para as observações finais super relevantes.

o começo do livro se dá com Rino, filho de Lila, ligando para Lenu dizendo que sua mãe sumiu. a surpresa não foi tão surpresa para Lenu, que já sabia do desejo da amiga de sumir. a tetralogia napolitana existe por causa do sumiço de Lila e por Lenu trair o desejo da amiga de sumir sem deixar vestígio – ela resolve escrever um livro falando todos os detalhes da amizade das duas. diva né.
fiquei pensando muito no posfácio incluído nessa edição da Maria Carolina Casati que diz que Lenu só existe porque escreve sobre Lila. e Elena Ferrante só existe porque escreve sobre Lila através de Lenu.
“Na época já havia algo que me impedia de abandoná-la. Não a conhecia bem, nunca tínhamos trocado uma palavra, mesmo competindo entre nós, na classe e fora dela. Mas eu sentia confusamente que, se tivesse fugido com as outras meninas, lhe teria deixado algo de meu que ela nunca mais me devolveria.”
na primeira vez em que li esse livro, achei a relação de Lenu e Lila muito fascinante mas tive um olhar muito limitado que me fazia pensar: Lenu, a boa, Lila, a má, mas Lenu meio má também.
é difícil em um primeiro momento me desprender dessa percepção, até porque com uma narradora em primeira pessoa e essa narradora sendo Lenu, tudo que sabemos sobre ela mesma e sobre sua amiga é distorcido por suas próprias impressões e sentimentos. mais pra frente Lenu até diz para Antonio: “Sempre foi assim, desde quando éramos pequenas: todos acham que ela é a malvada, e eu, a boazinha.” e isso deriva da natureza da relação que as duas alimentaram ao decorrer dos anos – admiração misturada com competitividade e inveja. não consigo deixar de pensar também em como a fuga de Lila no início do livro deve ter reafirmado todos os sentimentos mistos dentro dessa amizade.
mas hoje consigo enxergar muitos outros lados dessa amizade. apesar de ter sido algo complexo à primeira vista, não consigo deixar de achar como tesouros alguns momentos que as duas compartilharam: leram mulherzinhas juntas, passearam para fora dos limites do bairro (“nos demos as mãos e fomos”), prêmios concedidos por serem leitoras muito assíduas, as festinhas e a troca de experiências escolares.
mas como quase tudo nesse livro é multifacetado, para todos esses momentos bons, Lenu associa para cada um alguma atitude questionável de Lila.
afinal, só compraram e leram mulherzinhas porque Lila sumiu com a boneca de Lenu e Lenu fez o mesmo com a boneca de Lila e em um desafio de coragem, foram atrás de dom Achille, acreditando que ele havia sequestrado as bonecas, e na visita a sua casa, o tão vilão, deu dinheiro para as meninas.
quando ultrapassaram os limites do bairro, Lenu se sentia muito bem, livre e alegre até o momento em que Lila, sem expressar muitos motivos, quis ir embora com o tempo fechando.
foram premiadas pela biblioteca por emprestarem muitos livros, mas toda a família de Lila foi premiada porque ela emprestava os livros nos nomes de seu irmão, mãe e pai. Lila lia mais que Lenu poderia gostar.
as festinhas, marcador importante da transição de infância para adolescência das meninas, se tornaram um ambiente onde Lenu reafirmava sua então feiura de puberdade por não ser tão desejada como Lila era.
e por fim, mas o que mais me chamou atenção, a vida escolar das meninas. a relação das duas se iniciou com competitividade escolar. embora as duas fossem igualmente muito inteligentes, Lila teve um estrelato nem um pouco esperado, o que fez com que a professora Oliviero sentisse completa desafeição pelos Cerullos, incluindo a própria Lila, quando seus pais decidiram não investir no desenvolvimento de seu sucesso escolar. o desprezo foi tanto que quando Lila escreveu um livro sozinha, o polêmico Fada Azul, que fez Lenu a pessoa mais chocada de Nápoles bater na porta da professora para mostrar o livro, a mesma apenas respondeu com um grande descaso.
mas Lenu, apesar de ter continuado os estudos sem muito apoio da mãe, era tão fascinada com os avanços acadêmicos de Lila que se encontrava perdida sem a sua amiga que era tão inteligente como ela ou até mesmo mais brilhante. não era ninguém se não pudesse competir com Lila em um mesmo degrau.
“Toda aquela fase prosseguiu nesse ritmo. Logo precisei admitir que as coisas que eu fazia sozinha não eram capazes de disparar meu coração, só aquilo que Lila tocava se tornava importante. Se ela se distanciava, se sua voz se afastava das coisas, estas se cobriam de manches, de poeira. A escola média, o latim, os professores, os livros, a língua dos livros me pareceram menos sugestivos que o acabamento de um sapato”
toda a ambição de Lenu foi baseada em dois pontos: o desejo de prosperar e se afastar do bairro pelo intelecto e para se aproximar, de alguma forma, da mente brilhante de Lila. e quando uma deixou de estudar, para outra é quase como se não houvessem mais motivos. mas ao contrário do que Lenu espera, mesmo fora da escola, Lila não a deixa sozinha.
quando Lenu passa no exame da escola média com notas muito altas e foi muito elogiada pelo pai, Lila a questiona porque 8 e 9 e por que não 10. quando lenu conta para lina que vai para o ginásio, lila conta que menstruou. e quando Lenu descobre que Lila está estudando grego sozinha e aprendendo muito mais numa velocidade que Lenu, nunca poderia vencer, ela se abala. fica ainda mais claro como Lenu, a intelectual, nerdola, orgulho dos professores e do pai, busca esse sucesso acadêmico para alcançar a amiga.

“Em certas manhãs frias, quando me levantava ao alvorecer e repassava as lições na cozinha, tinha a impressão de que, como sempre, eu estava sacrificando o sono quente e profundo da manhã para fazer bonito diante da filha do sapateiro.”
mesmo com Lenu deixando claro pra gente como tinha uma grande inveja e vontade de se afastar de tudo que conhecia, eu adorei demais essa querida. penso muito que quando ela resolve contar a história de Lila, ela busca passar um retrato específico e cheio de camadas sobre essa relação e essa amiga, e também vai passar um autorretrato para quem ler.
achei Lenu tão brilhante como a amiga que tanto descreve. os dias que ela passou em ischia foram os que mais me aproximaram dela. a rotina dessas férias era tentadora, dormia na cozinha e tinha algumas tarefas mas passava o resto do tempo livre. ia para praia e lie e nadava. não tinha saudades de nada apenas de Lila.
“Era um temor antigo, um temor que eu nunca superara: o medo de que, perdendo partes de sua vida, a minha perdesse intensidade e centralidade”.
mas tudo se abala com a chegada da família Sarratore, tudo parece bem até que Nino, seu amor secreto e eterno, que a pega de surpresa e a beija, alerta Lenu sobre seu pai ser uma má pessoa. até o momento, para Lenu o pai de Nino era uma figura a ser admirada, afinal, mesmo iludindo e deixando a delírios a vizinha Melina, ele tinha um grande carisma e Lenu descobrira que ele havia publicado um livro, o que a fez perceber que alguém do mesmo lugar que ela pode escrever, então, ela pode escrever, e quem sabe frequentando a escola ginásio ela poderia escrever e torna-se rica antes de Lila com sua fábrica de sapatos.
alguns dias depois, essa ilusão de que o pai de Nino é uma figura admirável se desmancha inteira – ele abusa de Lenu no meio da noite. essa cena me aterrorizou tanto que tive pesadelos por alguns dias seguidos.
para além disso, uma das partes que mais me deixou encantada por Lenu foi quando ela começou a ficar afim de Pasquale e todo mundo falava para ela se afastar dele porque além de ele ser filho do assassino de dom Achille, ele também era comunista 😦 … e ela muito diva e malandra só pensa: filho de assassino e comunista? que delícia.
Lila também me impressionou muito mais do que na minha primeira leitura. mesmo que colocada por Lenu como astuta e vazia de carisma, percebi ela como uma pessoa muito sentimental. apesar de ser mais nova que seu irmão Rino, Lila o protege como ninguém, se preocupa com todas as suas mudanças de humor e momentos de mal estar. é com ele que decide tocar o projeto de fábrica de sapatos após ter seus estudos interrompidos pela família.
um dos momentos do livro que mais me fez pensar sobre Lila e que eu tinha esquecido da primeira vez que li, foi que em 31 de dezembro de 1959, acontece o seu primeiro episódio de desmarginação – de repente se dissolviam as margens das pessoas e de tudo. já tinha experimentado a sensação de transferir-se a uma pessoa ou algo inanimado violando os contornos. mas nesse episódio pareciam entidades desconhecidas e mostrando uma natureza assustadora. a descrição de Lenu sobre essas sensações parecem muito fantasiosas, mas acredito que é o que mais se aproxima da sensação de não pertencer ao seu próprio corpo, como se essa vida não fosse sua e como se essas pessoas a sua volta nunca tivessem sido reais. como se realmente algo fictício e de outro mundo.
relembrar desse lado mais vulnerável e sensível de Lila, me fez gostar muito mais do que eu me lembrava da personagem. além disso, sua inteligência para além de atividades escolares também me fazia a admirar ainda mais do que eu esperaria. dei bons sorrisos quando convenceu Lenu a aceitar ser namorada de Gino apenas se ele comprasse sorvetes para as meninas durante o verão inteiro.
a vida de Lila passa por uma reviravolta maluca quando dispensa Marcello Solara (finalmente) e fica noiva de Stefano (decepcionante). a mudança de status de Lila é radical o suficiente para Lenu descrevesse esse momento da seguinte forma: “(…) como se fossem John e Jacqueline Kennedy em visita a um bairro de miseráveis.”
Lenu se envolve nos preparos do casamento porque, segundo Lila, Lenu tem o dom de enganar as pessoas com as palavras, atenuando os impasses que sofria com sua futura sogra e cunhada. isso ficou muito na minha cabeça… a pessoa objeto e razão do livro dizer isso sobre a narradora: “usa palavras para enganar as pessoas”.
em paralelo a isso, Lenu começa um romance com Antonio, mas não amava o menino. todo o affair passa a ser engraçado pra mim porque Antonio é filho de Melina que foi iludida pelo pai de Nino, Nino o amor dos olhos de Lenu desde o princípio da narrativa.
durante o casamento, os sentimentos de Lenu de ter sua própria desmarginação aparecem tão fortes como nunca, mas nesse sentido, de deixar de pertencer ao que pertence. e até parece esquecer que está no casamento da amiga.
durante a cerimônia, Lenu avista a própria mãe e percebe em seu olhar o ressentimento de como seu sucesso nos estudos não a deixa orgulhosa nem conformada porque sua amiga malvada conquistou tudo o que ela deveria conquistar: um marido de posses que garantisse tudo que precisaria. e na celebração, com amigos do bairro, Lenu se via distante de todos porque seguia um percurso ignorado por eles – a busca por uma boa educação. chega a ser até difícil de entender se Lenu tinha essas reflexões para se distanciar propositalmente e assim se sentir superior e difernte dessas pessoas ou se realmente essa barreira invisível tornava-se cada vez mais intensa com suas transformações e progressos.
continuaria criando essas barreiras entre expectativas da mãe e laços dos amigos.
o livro se encerra com Marcello Solara aparecendo no casamento de Lila com os sapatos Cerullo.

mas não tenho como falar de Amiga Genial sem falar sobre como Lenu e Lila parecem mutualmente apaixonadas. entre tantos momentos que me levaram a ter essa impressão, dois se destacam.
- quando Lila, fazendo papel de homem, puxa Lenu para dançar, ensinando passos e cantando uma música qualquer. as duas pareciam muito felizes.
- e o mais intenso de todos, quando Lenu ajuda Lila a se arrumar para seu casamento. sentimentos e pensamentos confusos mas ao mesmo tempo muito eróticos. e a sensação de perda da amiga não só para o casamento que vai acontecer, mas também para a relação sexual que vai ter com Stefano.
elas vivem o mundo uma pelos olhos da outra, se admiram ao mesmo tempo em que se invejam, Lila não vive sem relatar seus passos para Lenu e Lenu não vive sem relatar seus passospara Lila – uma relação tão grande de dependência que é difícil não enxergar uma porção de paixão.
uma das partes mais lindas e a mais reveladora do livro é quando Lila insiste para que Lenu nunca abandone os estudos: “Você é a minha amiga genial, precisa se tornar a melhor de todos, homens e mulheres”. desde o começo, Lenu nos leva a pensar que a Amiga Genial é Lila. mas aparentemente, para Lila, Lenu é tão genial quanto ela mesma.

entre um dos motivos que me faz querer reler esses livros todos, é entender os motivos que fazem com que eu seja tão apaixonada por eles. no primeiro momento, o que mais me fez amar essas histórias foi a relação mega maluca de Lenu e Lila. agora nessa nova visita acho que vou encontrando outros motivos. relembrar às vezes tem como ser uma delícia.
minha parte favorita do livro é quando Lenu conta do dia em que seu pai levou ela pra passear pela cidade. os limites do bairro foram se abaixando. manhã clara e de vento. ele conhecia tudo e todos. passaram o dia todo juntos, o único que ela conseguia lembrar. levou para que ela visse o local onde trabalhava. falava de Lenu para todos com muito orgulho. viram o mar. “Meu pai me apertou a mão como se temesse que eu fugisse.”
dentre as milhões de reflexões que esse livro me fez ter, a que mais ficou comigo foi sobre origens e criação.
o bairro é como um lugar vivo, um outro protagonista junto com lenu e lila. é violento, mas ainda muito familiar. cheio de nuances e vida, que ainda que contemplem a morte e momentos dolorosos, ainda são vidas a serem vividas. quando Lenu decide que seu objetivo é ascender pelo intelecto, seu desejo é buscar essa ascensão para se afastar desse bairro, se afastar das pessoas que conhece e com quem mais convive, e principalmente, se afastar de sua mãe. não existe nada que Lenu conheça mais do que aquele lugar e talvez seja isso que a faz querer sair de lá.
quando adolescente, o que eu mais queria era sair do bairro em que moro, deixar de conhecer quem eu conheço, não ser igual à minha mãe, porque queria ser conhecida como Eu e não como a derivação de alguém. achei que isso era meu amadurecimento, que a fuga e a distância seriam minhas vitórias.
ainda bem que essa vontade foi embora. apesar de olhar com um coração meio amargo e meio doce para o lugar que cresci, sinto uma pontada de tristeza pensando que todo lugar vai deixar de existir quando não for mais parte da minha vida.
hoje me pareço muito com a minha mãe quando tinha minha idade – cabelo, rosto e até mesmo roupas. fico muito feliz quando dizem que somos parecidas e cada dia percebo o quanto dela tem dentro de mim. como quando criança, ela era pra mim a única pessoa que eu gostava que arrumasse meu cabelo ou me passasse um batom e hoje me pergunta como usar qualquer maquiagem.
o dia do passeio de lenu com seu pai me lembrou do dia que meu pai levou eu e meu irmão para conhecermos o parque villa lobos recém inaugurado. e também, dos dias que ele nos levava quando éramos crianças para conhecer o lugar que trabalha. como ele conhecia todo mundo, como se gabava para os colegas das nossas minúsculas conquistas. é assim até hoje quando saímos juntos pelo bairro que cresci, que ele cresceu, e onde moramos.
a diferença é que quando éramos crianças, eu também sentia que ele apertava as nossas mãos como se temesse que fugíssemos.
hoje acho que eles mostram isso de outras maneiras. ✾

observações finais e muito relevantes
personagens que mais amei: Lenu, Lila, Rino
personagens que mais odiei: os Solaras, Stefano, pai de Lila, Donato,
músicas que mais ouvi enquanto lia: playlist Good Night da Nintendo Music
momento em que mais li: antes de dormir
nota pro livro: infinitos 10 de 10

texto por luana (luanacintilante, arimuraluana)



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