durante esse período do nosso tema sobre trabalho, passei alguns dias lembrando de livros de relatam sobre vida laboral e seus conflitos e encontros com a vida pessoal.
deixo aqui minha lista de recomendações que acredito que conversam muito bem com nossa ideia sobre o tema. aproveitem!


diary of a void
emi yagi
“Even if it’s a lie, it’s a place of my own. That’s why I’m going to keep it. It doesn’t need to be a big lie—just big enough for one person. And if I can hold on to that lie inside my heart, if I can keep repeating it to myself, it might lead me somewhere. Somewhere else, somewhere different. If I can do that, maybe I’ll change a little, and maybe the world will, too.”
“Ainda que seja uma mentira, é o meu lugar. É por isso que vou continuar alimentando-a. Não precisa ser uma mentira grande – apenas grande o suficiente para uma pessoa. E se eu consigo segurar essa mentira dentro do meu coração, se eu consigo continuar repetindo-a para mim mesma, talvez me leve para algum lugar. Algum outro lugar, um lugar diferente. Se eu consigo fazer isso, talvez eu mude um pouco, e talvez o mundo mude também.” tradução livre
shibata trabalha em um escritório predominantemente ocupado por homens, e frequentemente se encontra ocupando tarefas que não dizem respeito ao seu cargo como servir café e limpar a mesa do dito café. um dia, ela se cansa de ser apenas A mulher que serve café e diz que está grávida e não consegue mais sentir o cheiro da bebida sem passar mal. mas é mentira. ela nunca esteve grávida.
as condições de seu trabalho fez shibata mentir, mas é por essa mentira que ela descobre um nova maneira de ser tratada e de trabalhar.
essa proposta é absurda mas fiquei muito interessada pelo livro inteiro, adorei acompanhar a rotina coberta por essa mentira.
cartas a uma negra
françoise ega

“Mas, Carolina, vejo você escrevendo à luz de vela, sem a presença de ninguém para lhe dizer que tipo de mamoeiro você é, me debruço então sobre uma nova página e encho de realidade.”
françoise era antilhana e trabalhava prestando serviços domésticos em marselha. uma vez se deparou com um texto sobre carolina maria de jesus e o nível de identificação foi tanto ao ponto em que françoise passou a escrever cartas para carolina, mas nunca foram entregues. nessas cartas, desabafa com carolina sobre as explorações que também sofria, sobre o cotidiano cheio de dificuldades e injustiças.
esse livro é um dos mais incríveis que eu já li. a escrita da françoise é tão sincera e viva que é como se ela estivesse na minha frente me contando todas essas histórias. queria que todo mundo lesse essas cartas e as absorvesse como devem ser absorvidas.

querida konbini
sayaka murata
“Meu corpo pertencia à konbini, mesmo nas horas em que não estava em serviço. Se eu dormia, me mantinha em forma, me nutria, era para poder trabalhar com saúde. Tudo isso fazia parte do ofício”
keiko passou metade da sua vida inteira trabalhando em uma konbini, uma loja de conveniência. a kobini funciona de forma mecânica, com suas regras, rotinas e dinâmicas próprias de funcionamento, e é nesse repetição que keiko, uma estranha desde a infância, encontra pertencimento. a konbini opera dentro dela assim como ela opera dentro da konbini, e vive sua vida sob pressões de expectativas de amigos e família que a questionam frequentemente por que não se casa, por que não transa, por que não tem filhos.
amo essa leitura porque ao mesmo tempo em que keiko se apresenta de forma tão subordinada ao seu serviço, é a maior rebelde à normalidade esperada por todos em sua volta.
vestígios do dia
kazuo ishiguro

“Várias outras providências referentes aos arranjos aqui da casa durante minha ausência terão de ser tomadas. Mas, no final das contas, não vejo nenhuma razão genuína para não fazer minha viagem.”
quase como que um diário de bordo e ao mesmo tempo um diário pessoal, stevens relata nesse livro tudo sobre sua viagem que seu patrão fortemente sugeriu que a fizesse. em meio aos acontecimentos da viagem, stevens fala de forma muito apaixonada e reflexiva sobre seu serviço como mordomo e sobre sua relação com a governanta.
stevens fala do serviço de uma maneira cheia de dedicação e abdicação, quase como se fosse mordomo primeiro, e pessoa segundo.
li esse livro ao mesmo tempo em que estava reassistindo downton abbey, e foi muito divertido. ambos passam em períodos semelhantes e quase próximos, foi muito bom consumir duas coisas que se complementavam.
mudar: método
édouard louis

“Durante todos esses anos achei que tinha mudado e me tornado outra pessoa mas me enganei. Me enganei. Pensava que tinha fugido, mas era prisioneiro desta cidade, esta cidade me enganou, mentiu para mim, me fez acreditar que ela era o lugar da liberdade, mas era apenas o lugar da fatalidade, tudo isso não passa de uma mentira, eu vivi uma mentira.”
o autor conta de forma muito confessional como encontrou nos estudos e no trabalho da escrita uma distância de suas origens e família e de seu temido destino como apenas um corpo castigado e ferido pelas condições que encontraria se permanecesse nasceu: pobreza, homofobia e violência.
uma leitura difícil de digerir mas que ao mesmo tempo eu não conseguia me desprender. sorri e fiquei triste com ele e passei dias pensando em eddy e édouard.

luana além de membra e designer na blush é também um pouco nerdinha de livros e tem uma coluna em andamento aqui na blush sobre a tetralogia napolitana de elena ferrante. pode ser encontrada no instagram como @luanacintilante e @arimuraluana



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