abri o slide da aula e a primeira coisa que vejo é uma citação da lygia clark:

mondrian: hoje eu gosto de você

clark: Sinto-me sem categoria, onde é o meu lugar no mundo?

hoje gosto de você. ontem, não se sabe mais, é passado e está destinado a ser perdido no tempo. você vai esquecer. o hoje é agridoce. 24h gostando. nada mais e nada menos e o amanhã é incerto. será que vai me odiar? ou pior, esquecer de mim. onde fico na sua vida? essa é a primeira pergunta que se faz, em vez de, onde eu fico na minha própria vida?

durante um grande período histórico-cultural, as mulheres eram vistas apenas como representações do universo da arte, ou seja, como os homens as viam e transmitiam seus próprios desejos e inquietações. se olharmos atentamente, em pinturas, as mulheres sempre seguram objetos: livros, leques, crianças, animais de estimação, bolsas, joias, etc. ao passo que os homens sempre estão com suas mãos livres, justamente para estarem desimpedidos para realizarem tudo o que desejam. enquanto as mulheres possuem deveres e distrações: ser mãe, cuidar do lar e passatempos domésticos. (1)

oriental woman at the fountain, 1838 – théodore frère
jean-léon gérôme com emma dupont (1885), modelo da escultura omphale (1887)

no artigo, “aspectos da representação feminina na história da arte”, de paola sayuri prado, é discutido a noção de “tutela” dos homens sobre as mulheres. ou seja, como as mulheres predominantemente assumiam o papel de musas destes homens. mulheres estas, com seus corpos objetificados a bel prazer e deleite sexual dos artistas. rejeitadas de ilustrarem sua própria narrativa e representação de seus corpos.

estudando sobre o grupo fluxus e o acionismo vienense, tava tudo muito bem, tudo muito bom, mas na verdade não durou muito tempo. isso porque me questiono sobre os integrantes, no fluxus, havia apenas uma única mulher: yoko ono. já no acionismo: nenhuma. penso nessas vanguardas, rebeldes e reflexivas, mas que só possuíam uma visão masculina e de projeção artística de desconfortos destes. em contraponto ao movimento de arte feminista dos anos de 1970, que embora possua suas problemáticas binarizantes, desconstruiu o arquétipo de mulher, como ser social e cultural (a dona de casa e a musa do artista), e que ainda não é considerado como vanguarda.

vi uma citação de günter brus, fundador do movimento do acionismo vienense, que irei me debruçar com mais afinco:

meu corpo é a intenção. meu corpo é o evento. meu corpo é o resultado.

hum… certo. ok que ele realmente usava o próprio corpo em performances, mas, anni brus, a sua mulher, também, e é cômico até ler sobre como ela “exerceu um papel fundamental no trabalho do marido”. por favor, quantas esposas de artistas são taxadas em biografias dessa maneira? onde está o “breaking the frame” (composição número 5, 1954, de lygia clark)? a quebra tão necessária de artista x musa? porque as obras artísticas de homens e mulheres são bizarramente distintas esteticamente? mesmo se tratando de questionamentos e técnicas semelhantes?

“breaking the frame” (composição número 5, 1954, de lygia clark)

bati os olhos nos trabalhos “die blutorgel 7 (malaktion)” de hermann nitsch (1962), pintura com tinta vermelha, disposta de maneira a ser semelhante a grandes quantidade de sangue derramado; “self painting” de günter brus (1964), série de fotografias sobre cicatrizes, cortes e sangue; “enmiring of a female body – enmiring of a venus” de otto muehl (1963) e por fim, “50. aktion” de hermann nitsch (1975), que irei discorrer sobre, logo em breve.

“die blutorgel 7 (malaktion)” de hermann nitsch (1962)
“self painting” de günter brus (1964)
“enmiring of a female body – enmiring of a venus” de otto muehl (1963)
“50. aktion” de hermann nitsch (1975)

depois de olhar esses quatro trabalhos em seguida, me questionei o porquê das artes plásticas/visuais de artistas homens serem grotescamente brutas e, sinceramente, exalarem superficialidade. quero dizer, impossível não lembrar de louise bourgeois com seus inúmeros trabalhos utilizando diferentes tonalidades e materiais na cor vermelha e trazendo temas similares: corpo, representação, performance e totem (2). mas só de bater o olho eu sei qual obra foi feita por um homem e por uma mulher. são impactos diferentes. sinto que os homens são desesperados para provar um ponto. que eles são capazes de sentir. mas não gosto de como essa mensagem chega.

to whom it may concern, 2010 de louise bourgeois

por exemplo, na obra “confrontation” (1978), de bourgeois, uma grande mesa apresenta objetos disformes. em uma ponta, visivelmente o que seriam representações de orgãos humanos, até a outra ponta, com outros objetos simbolizando estes orgãos, mas em estado deformado, desproporcional e grotesco. há uma performance desta obra também, no qual o performer traja uma vestimenta de orgãos. é o passar do tempo e além disso, das convenções de simbologia. é a degradação do corpo na nossa frente, começo, meio e fim, é o ciclo (in)terminável da vida, é a lembrança do que isso significa para nós, esquecidos pelo dia-a-dia. a brutalidade que nos aguarda em cada esquina e a cada ruga.

“confrontation” (1978) de louise bourgeois
louise bourgeois, performance confrontation-a banquet/a fashion show of body parts, (1978)

e como não falar de VALIE EXPORT? que com seu nome artístico chamativo, assim como suas perfomances, voltadas sobretudo para o viés feminista, buscou nunca referenciar os sobrenomes do seu pai e do seu marido, e assim, trazer sua própria identidade no meio das artes vienenses, que eram totalmente atreladas ao acionismo e o fazer artístico de homens. em “action pants: genital panic” (1969), que se constituiu em uma série de seis cartazes iguais, nos quais a artista aparece segurando uma metralhadora e usando uma vestimenta que permitia revelar sua genitália. VALIE, olhava então como se fosse disparar a qualquer momento, expondo assim, por meio de seu ato performático uma simbologia lúdica da desconstrução dos arquétipos da mulher, algo extremamente emblemático para o contexto cultural, principalmente da época.

“action pants: genital panic” (1969) de VALIE EXPORT

já com “enmiring of a female body – enmiring of a venus” de otto muehl (1963) e “50. aktion” de hermann nitsch (1975), vemos uma representação de venus/female body… pela prévia, “desconstruída”, na visão do artista, ao trazer a ideia do corpo (feminino) ensanguentado e cobertos de vísceras de animais. qual a ideia que o artista quer passar? qual o sentido dessa representação de corpo feminino? que vênus é essa?

uma imagem em específico me chamou a atenção, gostei de como o homem se encontra crucificado, frente a frente com um animal morto, aberto com suas entranhas para fora. iguais? achei interessante o formato do objeto, me lembrou algo feminino, talvez fosse a intenção de nitsch. pode ser a visão de que o homem vê a mulher como inferior, um bicho, algo a ser morto e lacerado, algo a ser explorado até depois da sua morte. pois o foco da imagem é seu corpo dilacerado e, mesmo que fosse disposto em um patamar de elevação e insubordinação estética-visual ao do homem crucificado, o animal está morto. não tem nada para contar e mostrar, mesmo de costas, é o homem quem narra tudo. e, ele ainda está vivo.

“50. aktion” de hermann nitsch (1975)
(1): fala do professor brunno almeida maia no curso o corpo utópico, MASP escola, em mar. 2024.

(2): “o totem é um símbolo, uma representação material produzida por um grupo social que tem por hábito destacar um elemento retirado da natureza ou do mundo que os circunda. os totens podem ganhar a forma de animais, plantas, objetos sagrados ou não sagrados, deuses, santos, orixás ou ancestrais. em geral, a palavra “totem” é associada à noção de “marca de família” e vem daí sua acepção como signo de pertencimento. […] já o totemismo, culto ao totem, é uma prática social que se vincula a esses mesmos objetos votivos e que ganha inscrições diversas nas várias sociedades em que é cultuado. […] o totemismo se constitui, portanto, numa linguagem que, nas mais diversas experiências sociais em que pode ser encontrado, serve para “fazer pensar” e representar os povos e nações que recorrem a esse tipo de produção material e simbólica. (BECHELANY, SCHWARCZ e DE LA BARRA, p. 54) – “histórias da sexualidade” do MASP.

texto de cami, @punk_cyborg_ e arte de ju, @juliesphere

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