festas de aniversário, sexo casual pós-término e mudanças de rotina. coisas comuns que já passamos. mas, o que elas tem em comum? o que elas significam, não apenas num contexto identitário do eu, mas no sentido coletivo? são de passagem. elas carregam uma performatividade, uma busca de metamorfosear um acontecimento ou memória, de transmutá-la para que sua significância permaneça viva, para que então, a partir disso, se possa recomeçar. a brutalidade da transição.

algo similar ao que aconteceu conosco quando éramos bebês. jacques lacan1, fala sobre a primeira vez que nos olhamos no espelho, como essa imagem que vemos refletida, é uma espécie de solução para nosso desamparo emocional. antes, olhávamos para nosso corpo e não conseguíamos movimentá-lo da maneira que desejávamos, para demonstrar nossa fúria contra a solidão que é preciso para nos desenvolvermos. o choque de ter que pensar e se movimentar por si só, é o nosso primeiro grande trauma. e, a única saída, é transmutar dor em prazer. e consequentemente, criando a engenharia das decepções, porque, nem sempre obtemos o prazer que desejamos pela dor. mas, já passado esse choque, nos deleitamos com nossa auto imagem, uma vez ela mostra, na verdade: 

um triunfo imaginário pela antecipação de um grau de coordenação muscular que, na realidade, ele ainda não alcançou. 

ou seja, os ritos de passagem são um espelhamento utópico de uma materialização de uma quebra de expectativa nossa com o passado, no qual, o ato do desejo por si só, é força motriz. se após esse período transitório do rito, vamos alcançar o que queremos ou não, é algo em segundo plano. porque num plano psíquico neutro, podemos performar nossa fantasia.

no campo das artes, vamos analisar as manifestações representativas segundo a hermenêutica, e mais especificamente, pela prática ritualística do totemismo. uma exemplificação disso, são as obras, que apelido de trindade do ciclo: a criança tecida (2002), mulher em espiral (1952-2003) e mamãe (1999), de louise bourgeois. com “a criança tecida” (2002), um ode à maternidade, infância e relações familiares, a artista trouxe por meio da utilização de material têxtil e de distintas técnicas de manuseio e criação de diversas obras esculturais. em “mulher espiral” (1952-2003), considero as representações de corpo-casulo o contorcionismo para se estar viva e presente e as relações que o corpo cria de morada e lar. com “mamãe” (1999), a maternidade, a relação mãe e filha, o passado da infância encontra a adulta que agora é mãe. 

a criança tecida (2002) de louise bourgeois
mulher espiral (1952) de louise bourgeois
mamãe (1999) de louise bourgeois

bourgeois, com suas demais obras esculturais totêmicas, que abordam e ilustram representações de corporalidade, trouxe a sua própria visão e interpretação de como estas alegorias materializadas são. com suas experiências e vivências expostas por meio destas, expõe relações parentais e traumas. pelo viés dos totemismos contemporâneos, com o intuito de tratar da quebra de dicotomias entre feminino e masculino, criança e adulto, belo e grotesco e mãe e filha. formulando suas concepções intimistas para a criação de representações totêmicas. sobre corpos, distorções, fuga da realidade e experimentações.

partindo destes princípios, podemos abordar o totemismo da criança como característica da artista. com as suas intervenções artísticas, vê-se as diferentes fases do fazer da arte, mas acima disso, de passagem de tempo. fala-se da infância, da vida adulta e da velhice, mesmo sem uma equação tradicional de começo-meio-fim. é relembrar memórias, voltar o olhar para o passado para que, este possa ser exorcizado e transfigurado em uma nova significação. é evocar lembranças, alterá-las, materializá-las. 

fillette (1968) de louise bourgeois
fée couturière (1963) de louise bourgeois

com yayoi kusama, podemos interpretar suas obras na funcionalidade de ritos de passagem segundo a proposta conceitual de aldo natale terrin2, no qual, a hermenêutica em questão estaria ligada, por um lado, ao ludus e por outro, a finalidade. de forma que, respectivamente, o caráter corpóreo de manifestação e o entendimento da significância de finalidade sem fim.  Juntamente com o processo redentor e da repetição. que irei desenvolver, a seguir, atrelando a algumas obras plásticas e performáticas da artista.

em accumulation n.1 (1962), uma única poltrona branca nos revela objetos de tecido proeminentes, falos, mas que de longe parecem uma intervenção da natureza, uma tela branca das possibilidades naturais da fauna e flora. um ano depois, em aggregation: one thousand boats show, um único barco perdido, repleto dos mesmos objetos brancos fálicos. mas, dessa vez, o ambiente em que se encontra possui a replicação da imagem do barco, que visto de longe, revela sua forma, é um falo. dois anos depois, com infinity mirror room, kusama chega ao máximo do ludus e do poder. é o auge da diversão. com espelhos por todos os lados, a artista, trajando um macacão vermelho, se encontra em pé, é a criadora desse mundo de piscina de falos (com bolinhas). ela, de vermelho total, dona dos objetos pintados dessa mesma cor, mas em menor escala. até aqui ela criou uma narrativa que a leva ao máximo do aproveitamento estético e simbólico, ela domina o falocentrismo. não é um sonho? e ela o torna real. contudo, é no mais niilista, íntimo, romântico e solitário peep show ou endless love show, que me debruço.

accumulation n.1 (1962) de yayoi kusama
aggregation: one thousand boats show, (1993) de yayoi kusama
infinity mirror room (1965) de yayoi kusama
peep show ou endless love show (1966) de yayoi kusama

a artista está sozinha. dessa vez, deitada, imersa nesse ambiente, as bolinhas estão na própria roupa, sua armadura e estão nela. e ambas absorveram algo. está vulnerável em meio aos espelhos e luzes coloridas acima dela. ela criou esse mundo ou só o habita? ela o comanda? está livre ou presa? os espelhos refletindo ela mesma e sua vulnerabilidade são, na verdade, uma gaiola? ela está presa consigo mesma. se ela já dominou os falos o que se fazer com eles? agora fazem parte dela? e como ela se sente com isso? está completa? feliz? porque então não consegue se levantar e se olhar no espelho? 

kusama criou uma narrativa com essas obras, há uma repetição, um acúmulo, o corpo brinca se mesclando aos espaços, mas nunca se torna um só. ela compreende, por fim, ao não mais buscar a aglutinação para com as bolinhas. estas, em “endless love show”, como luzes coloridas acima de sua cabeça, que ameaçam sua paz, o significado dos seus ritos. a redenção não é exatamente ligada ao viés religioso, mas, ao entendimento da organização do sentido. a repetição de simbologias em expressões ritualísticas, passam a apresentar um valor de confirmação do mundo. a figura do outro valida o totem, esse sentimento de integridade. o desejo que o utópico imagético, ao ser repetido, deixe de ser solidão.

por fim, com o conceito de ação ritual, compreende-se a máxima ação do fazer artístico como um ato ritualístico. ritualidade esta que deve ser interpretada como uma ação que a sua finalidade não apresenta uma urgência de significado, que se manifesta pelo trato social. no qual, o seu enfoque pode estar atrelada tanto a um recorte micro como macro, de análise de como essa ação se comporta e é utilizada pelos indivíduos: sendo aglutinada ou transmutada pelo social. isto é, os ritos materializados no dia a dia, no imaginário comum de certos contextos sócio-culturais.

como em homebound (2000) de mona hatoum, que se trata de uma instalação com objetos do cotidiano, comuns em nossas casas e presentes no nosso dia-a-dia, que estão conectados por fios: a ritualidade do sensível comunitário. ou, em truisms (1978-1982) de jenny holzer, com suas frase-mantra tão passíveis de identificação pessoal pelo tom lúdico. com cindy sherman e suas séries fotográficas, em que arquétipos da figura da mulher são questionados e reinterpretados: a típica dona de casa americana com sua rotina doméstica de repetição, a musa dos homens artistas retomando seu poder sobre a representação de seus corpos, a viciada em plásticas e na busca pela juventude eterna, entre outros.

homebound (2000) de mona hatoum
truisms (1978/1982) de jenny holzer
untitled film still #3 (1977) de cindy sherman

agora, o espelho torna-se apenas mais uma experiência entre outras, indicando que um processo de introjeção simbólica já ocorreu.

darian leader

o espelho pode ser interpetado, nesse caso, como um processo ritualístico. já houve a sua passagem, foi-se o tempo. contudo, em breve, vamos acabar pisando novamente na cabeça da cobra que morde a própria cauda e vamos, novamente, precisar tomar uma decisão: sermos engolidos por ela ou andarmos pelo seu corpo (social) até chegar ao seu fim, para então podermos (re)começar.

  1. no livro “gozo” de darian leader, há essa análise feita por jacques lacan. ↩︎
  2. presente no artigo “ritualidade da arte: performatividade da memória” de joão manuel duque. ↩︎

texto de cami, @punk_cyborg_ e arte de ju, @juliesphere

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