quando somos crianças, escutamos inúmeras vezes que, quando crescermos, não vamos perceber o tempo passar, e é verdade. dias começam e terminam, quase que despercebidos. mas quando nos olhamos no espelho, de repente não somos mais quem estávamos acostumados a enxergar.


como a temática do mês é sobre ritos de passagem, trouxemos filmes que abordam a passagem do tempo de diferentes maneiras, e como ela nos perpassa profundamente. seja por meio de experimentações diversas da sexualidade como ponto de transição para a vida adulta ou a partir da quebra de paradigmas socialmente aceitos sobre o sexo e a liberdade, ou ainda, o que ocorre no próprio ciclo de vida da mulher, da sua infância e adolescência até a vida adulta e a velhice. e que prazer poder ver e viver o amadurecer.


tabu e perversão

camila simões

o tabu é o antagonista do desejo. é o que tenta impedir a perversão de acontecer. um esquema de libido e frustração e, disso, uma satisfação depravada. um não existe sem o outro. a punição por pecar vira fantasia. é depressão e masoquismo. espécie de deleite infantil precoce, distorcida pela censura advinda do conflito, que se torna um sentimento de sofrimento. libido frustada e faceta punitiva. impulsos destrutivos e ritmo de atração e repulsa. feitiços eróticos de destruição e desejo. compulsão obsessiva que cria um prazer cruel e medonho. é a ferida narcísica que lateja e doi, mas que é desejável. e, com essa lista, a cinefilia encontra a malícia e a transgressão do sexo.


a mulher que inventou o amor
jean garrett, 1980
1h40

doralice é uma jovem com uma visão do amor e do sexo muito romantizadas e que vê isso mudar quando é brutalmente estuprada por seu chefe açougueiro. ela ainda tenta viver na sua fantasia infantil, mesmo começando a trabalhar como prostituta. então, com o passar do tempo e dos homens que conhece, ela percebe, finalmente: o mundo utópico que a prometeram não existe. o amor não a satisfaz e o sexo não a faz feliz. não há salvação para doralice.

nomad (烈火青春,)
patrick tam, 1982
⏱ 1h36

quatro jovens (louis, kathy, pong e tomato), se conhecem e vivem um verão em meio a romances e sexo. mas as diferenças sociais e políticas dentro do grupo começam a aparecer de forma brusca e violenta. a realidade já estava escancarada para os protagonistas, mas eles se recusavam a se desvencilhar do alienante paraíso que haviam criado. é o fim das férias utópicas e do ócio eterno. é o fim do coming of age, é preciso crescer.

lavoura arcaica
luiz fernando carvalho, 2001
⏱ 2h43

na são paulo dos anos de 1940, um jovem, andré, foge de casa. ao seu irmão mais velho, pedro, é incutida a tarefa de trazê-lo de volta para casa, mas andré se recusa. vemos então os problemas crônicos desse lar: a forte presença religiosa repressora e a figura tirânica do pai. bem como, sua válvula de escape e maior segredo: andré é apaixonado pela irmã, ana.

sexo errado

catarina ondulata

sexo na adolescência é uma permissão pra viver. despertares sexuais são momentos que definem a liberdade. nesses filmes, os adolescentes são permutados por estruturas que controlam a tomada de decisões e a identidade reprimida leva à rejeição de desejos genuínos e pessoais. de certa forma, a vida assexuada anterior  é repleta de falsas experiências e a liberdade fica comprometida, pois não se consegue agir de acordo com os próprios desejos reais, mas sim com uma pressão social ideal. os filmes exploram como a perda de identidade, ou melhor, de disfarce, pode ser percebida e manifestada de maneiras sutis, e então, você tem um breve momento em que seus sentimentos e desejos são materializados por você mesmo. por meio da experiência sexual. a capacidade e a permissão para ouvir seu desejo e cometer um ato que surgiu e acontecerá apenas para suprimir sua necessidade, brutal e pura. e dentro dessa ideia, os filmes retratam o sexo errado, que é outra coisa que une os personagens dos filmes. o sexo já parece algo errado, então quando é errado duas vezes, é ainda mais libertador, pois nos filmes os adolescentes são especialmente rodeados de limitações acerca da própria identidade, então eles usam do sexo e desejos como protesto e como rito de passagem. provando que crescer é a perversão absoluta. moonlight whispers, das tripas coração e last summer tem essa linda ideologia.

l’été dernier
catherine breillat, 2023
1h44


théo, um adolescente, é forçado a se mudar pra casa do pai no interior depois de problemas de comportamento na cidade, e lá tem um caso com a madrasta. 


moonlight whispers (月光の囁き)
akihiko shiota, 1999
1h40


satsuki e takuya se conhecem na aula de esgrima. takuya alimenta uma paixão pela satsuki, com um lado perverso e sadomasoquista, e ela se surpreende com ela mesma, por conseguir e querer se entregar aos poucos a takuya. 


das tripas coração
ana carolina, 1982
1h40


em um colégio tradicional para meninas a visita de um agente do governo pra resolver problemas financeiros transforma o filme em um sonho, literal. as meninas do colégio parecem gostar das regras, pelo prazer de quebrar-lás e usar dessas limitações pra basear todos os desejos e paixões.

eterno amadurecer

gabriela de mello

monogamia, maternidade, bondade, casamento, submissão. desde a infância até a velhice, a mulher perpassa diversos estigmas que recaem sobre sua sexualidade, sua socialização e seus relacionamentos. o lugar da mulher no mundo é definido por uma ótica masculina de poder, o patriarcado. realidade essa que divide, ainda, as mulheres entre boas e ruins. mesmo com toda a violência e a culpa – condições com as quais ela luta contra por toda sua vida – a mulher ainda precisa encontrar formas de sentir prazer e encontrar felicidade na própria vida.

une vraie jeune fille
catherine breillat, 1975
1h29

em meio a descobertas da própria sexualidade e identidade, a entediada e inquieta alice descobre jim, um homem mais velho que trabalha numa serralheira local, nutrindo, ao mesmo tempo, sentimentos de desejo, perversidade e repulsa – pelo sexo oposto e por si mesma.


girlfriends
claudia weill, 1978
1h26

susan está se mudando com sua amiga anne, que logo depois decide se casar com um homem que conheceu há pouco tempo. além disso, ela se sente frustrada com sua carreira de fotógrafa e sua vida social e amorosa. ela precisa aprender a navegar a cidade sozinha – mesmo contando com várias companhias no caminho.


os homens que eu tive
tereza trautman, 1973
1h25

pity é uma mulher que só se sente viva de verdade quando está livre e amando, com isso, ela vive relacionamentos diversos – e preciosos de maneiras diferentes – ao longo de sua jornada. ela assume as vontades que uma mulher pode ter de amar, transar e desejar e de ser amada, tocada e desejada.


a blush adoraria saber a opinião de vocês
sobre os filmes indicados ou sobre seus coming of age favoritos!

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