
quando nascemos, segundo freud, estamos fundidos emocionalmente às nossas mães, somos uma só alma, não possuímos ainda uma personalidade. quando a figura do outro, no caso a mãe, não comparece para atender nossas necessidades, o bebê começa a perceber a sua individualidade. e que está sozinho no mundo. é partir do rompimento de expectativa e de vínculos que crescemos. esse é o princípio oceânico do mundo, no qual, o nosso primeiro objeto de amor, aquilo que um dia nos completou, tem outro amor (nosso pai, que representa a lei) e isso gera trauma. a interrupção da nossa narrativa e o que vem a seguir: a consciência de que não somos capazes de dar conta daquele rompimento traumático. logo, todos os objetos amorosos apresentam a tendência à repetição. no momento que vivenciamos algo, somos capazes de dar sentido, mas a nossa consciência não possui essa capacidade, por conta do choque. logo, tudo que não é resolvido, tende a se repetir. esse imaginário cíclico infinito de rompimentos que nos laceram.
então, já somos crianças, com nossa pureza perversa vivemos nossos dias. é a primeira parte da nossa trilogia obscena. como se o caderno de lori lamby de hilda hilst representasse nossa inocência e nossa repetição de padrões tirânicos do coração.
à memória da língua.
todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas. – oscar wilde
e quem olha se fode. – lori lamby
o livro conta a história de uma criança de oito anos, que narra seu dia-a-dia: os pais a prostituem. um diário dos encontros com seus clientes e da sua vida doméstica. só para então, no final da história, descobrirmos que, na verdade, lori estava apenas completando a narrativa de um livro pornô, que seu pai, um escritor com bloqueio criativo, havia deixado de lado.
as repetições de práticas sexuais de adultos no ambiente familiar juntamente com uma imaginação fértil, é sobre isso o livro. mas também, a vida real. lembro quando eu, criança, tinha o hábito de pegar uma revista com uma seção sobre bdsm e, observando escondida atrás da cama, não sabia o que era aquilo ainda, mas me fascinava. mas um dia, houve um rompimento traumático advindo do outro: minha mãe me pegou contemplando as imagens. ela riu, mas, eu, mortificada de vergonha, nunca esqueci.
chega a adolescência, vamos perder a virgindade. queria ter tido uma abertura melhor para falar sobre com minha mãe, mas, como a maioria das adolescentes, eu aprendi na prática: foi no banco de trás de um carro, eu não sei o nome dele e não foi legal. eu já sabia que o hímen não sangra, é uma membrana, é o canal vaginal que o faz. e fez. e fiquei envergonhada pela ação do outro, que, como anos atrás, com os primeiros contatos da sexualidade, não achou nada demais. o ciclo: eu me envergonho e o outro acha graça. uma espécie de relação desigual masoquista, porque eu repito os padrões que me destroem, é o que eu conheço. é o que somos ensinadas, afinal.
as ideias de michel foucault em seu livro o corpo utópico, as heterotopias, relacionam os conceitos de corpo, infância, habitar, reflexo, lugar e não-lugar (físicos e imaginários), etc. no qual:
as crianças, afinal, levam muito tempo para saber que têm um corpo.
que me levou à reflexão sobre a relação de casa-afeto e as consequências na vida adulta dos padrões cíclicos que a descoberta, uso e prática da sexualidade trazem e como isso se desdobra em relacionamentos, mas sobretudo, com a figura do eu.
esse conceito de heterotopia se faz presente no sentido de que analiso a virgindade como uma. uma vez que heterotopia se refere a lugares físicos ou não, que apresentam sua existência e significado variados devido a sua complexidade de unir e aglutinar interpretações. por exemplo, para foucault, o cemitério. uma vez que, é onde estão os cadáveres, é a representação da materialização e finitude da existência (não nossa, das do outro).
mas essa poderia ser sua dialética? pois se os cemitérios são construídos fora dos centros das cidades, nas margens, e os corpos estão em caixões e submersos em terra, a materialização, a identificação corpórea e finita, estão mascaradas? para esquecer que um dia estaremos lá? e trago esses pensamentos para a investigação da nossa memória adormecida, já somos adultas há tanto tempo, esquecemos como fomos iniciadas na vida sexual? como essas experiências nos moldaram e nos influenciam inconscientemente até hoje? os pensamentos que expressam o fim da infância e adolescência. a morte de uma fase para que outra surja e as novas experiências sejam vividas e novas memórias criadas. contudo, algumas destas, desses períodos, acabam voltando.
há ainda um outro tipo de heterotopia, as abertas, que se mesclam com as já discutidas:
só se entram os verdadeiramente já iniciados. acredita-se que se teve acesso ao que há de mais simples, de mais exposto, quando, de fato, se está no coração do mistério.
é uma busca eterna, pelo o que me faz bem e pelo o que me faz mal, o que me excita e o que me broxa, e, o mais importante, entender as complexidades não dicotômicas do prazer.
no filme, a mulher que inventou o amor de jean garrett, a personagem principal, doralice, é uma jovem com uma visão do amor e do sexo muito romantizadas. ela sonha que um homem muito bom que a ame muito vai casar com ela e eles vão ser muito felizes. mas doralice é brutalmente estuprada no açouge em que trabalha. a ficha demora a cair, ela ainda tenta viver na sua fantasia infantil, mesmo começando a trabalhar como prostituta. ela descobre o sexo, mas ainda é tímida e envergonhada. então, com o passar do tempo e dos homens que conhece, ela percebe, finalmente: o mundo utópico que a prometeram não existe.
o amor não a satisfaz e sexo não a faz feliz. ela é uma mulher amarga, doente, perversa, melancólica e miserável. não há salvação para doralice. que busca por meio de amantes algum tipo de prazer, não totalmente sexual, mas que a complete, o desejo paranoico do amor não lhe sai da cabeça. ela o persegue: alguém ainda vai me amar. mas ela só encontra dor e tenta se alienar do seu destino com uma sexualidade cruel. ela humilha e machuca seus amantes, mas a verdadeira ferida é ela. quando ela goza, vê que o prazer acabou e que só existe dor. não há mistério em seu coração. o ciclo está fechado para sempre.
e como quebrar esse fatídico processo? se essa construção de imaginário de como a sexualidade feminina deve se portar advém do seio familiar? que bebe, das estruturas socioculturais patriarcais? o filho pródigo e a filha virginal. a virgindade como um totem de bem estar social, de poderio da classe média alta, um regulador do estado sobre os cidadãos e dos pais sobre as filhas. porque, se partimos de que a virgindade funciona a partir de uma dialética dicotômica totêmica, isto é, que sua significância como simbologia e rito de passagem, se encontra tanto na sua da sua materialização como na sua contradição, o não, o antes, a infância, a não consumação, sendo, o campo virtual do imaginário.
no qual, ambas so existem uma por conta da outra. em que, o seu mantimento é cultuado pela tradição, mas é inevitavel que esse estado corpóreo permaneça por muito tempo. é uma adoração extremamente cruel, que incute submissão. que é castradora, que patologiza o desejo. o conservadorismo tem um prazer pela perversão. beija o rosto, mas que quando este se afasta, não pensa suas vezes em lhe bater com o mesmo fervor que um dia demonstrou carinho e compaixão.
paul b preciado, em seu livro manifesto contrassexual, desenvolve sua teoria acerca da breve genealogia do orgasmo com base no projeto textual de michael foucault, histórias da sexualidade. uma vez que, foucault separou em quatro as tecnologias da sexualidade, que são: a histerização do corpo da mulher, a pedagogização do sexo da criança, a socialização das condutas procriadoras e a psiquiatrização do prazer perverso. podemos então dissertar sobre a primeira topificação, pelo prisma da patologização do corpo e da mente da mulher. a sexualidade feminina foi encarada por décadas como, quando não uma enfermidade obsessiva, um gozo que se encontra no outro.
dado que, nos meninos, ele é falico e nas meninas, se dá pela ausência deste. como se desde os primórdios dos estudos sobre sexualidade, a mulher estivesse num papel de subjugação em detrimento do homem. analisar pela falta que o outro lhe causa. ao invés, de trocar a comparação dicotômica subserviente, pelo prazer que se pode desenvolver e alcançar com a falta, pela imaginação e materialização do elemento de identificação minimizado. em razão, a lacan atrelar a feminilidade não a uma essência, mas a uma relação/oscilação. há um mantimento inegável da dicotomia, entretanto, esse vínculo não não será feito com o outro e sim, com ele próprio. é o que darian leader critica em seu livro, gozo:
em vez de desginar alguém cujo corpo está imerso em gozo divino, o místico, aqui, é simplesmente alguém incapaz de estar inteiramente só em algum momento.
infelizmente, foucault não desenvolveu uma análise sobre formas atuantes da sexualidade plural do corpo feminino, como preciado cita:
a heterossexual ou a lésbica, a casada ou a solteirona, a frígida ou a ninfomaníaca, a casta ou a prostituta.
que, não sao arquétipos socialmente pré-moldados, são papéis dicotômicos sim. contudo, que se correlacionam entre si e não com o outro diretamente.
e que nos levam a prosseguir com a lógica conservadora de tentativa de dominação e castração da sexualidade. seja, por exemplo, demonizando as mãos masturbatórias e as proteses histéricas/máquina orgástica/ dildo do discurso teórico de paul b preciado. a masturbação foi vista como patologia e, em uma primeira visão, até se pareça irônico, que o último exemplo citado fora utilizado como uma forma de assistência às mulheres que sofriam de histeria. mas, quando esta deixou de ser uma doença, o remédio acabou virando veneno ao paladar dos conservadores.
isto porque, se antes o orgasmo forçado pela medicina era um ato controlatório e mecânico, agora, o gozo é livre. e os assusta pensar que a mulher, não mais histérica, agora usa seu ex objeto simbólico de agressão à sua sexualidade à seu favor. e, os aterroriza pensar que, essa mulher, pode ser a jovem virginal. o conflito de aceitação sociocultural de pensar que a masturbação é natural tanto para as meninas como para os meninos, fisiologicamente falando, se desconsiderarmos as influências pornográficas e machistas nas sociedades. a mocinha virgem que se masturba e sonha em transar logo mais. choca, porque o gozo é negado e a virgindade é cultuada.
no terceiro capítulo do livro teoria king kong de virginie despentes, o é impossível estuprar esta mulher cheia de vícios, ela narra algo que infelizmente, é bem comum: estupro. a história, que poderia ser a minha ou a sua, começa de um jeito familiar e logo, já entendemos o que vai acontecer.
tenho dezessete anos. somos duas meninas de minissaia, eu uso meias finas rasgadas e all star vermelho. estamos voltando de londres, onde gastamos todo o dinheiro que tínhamos comprando discos, tinta para cabelo e diversos acessórios cheios de rebites e pregos, ficando sem um puto para a viagem de volta. um carro com tres garotões brancos, típicos moradores da periferia da época, cervejas, baseados, falam de renaud, o cantor. como eles são três, nos recusamos a subir no carro. eles, no entanto, se desdobram em gentilezas, fazem piadas e conversam. e nós subimos no carro. no momento em que as portas se fecham, no entanto, sabemos que fizemos uma estupidez. mas, ao invés de gritar “vamos descer” alguns metros depois, quando ainda dá tempo de voltar, nós nos dizemos, cada uma em seu canto, que precisamos parar de ser paranóicas e de enxergar estupradores em todo lugar. já faz mais de uma hora que conversamos com eles, eles têm jeito de serem preguiçosos, divertidos, nada agressivos. essa proximidade, afinal, ficará como uma dessas coisas que não se apagam: corpos de homem dentro de um lugar confinado, em que estamos presas, junto a eles, mas sem ser como eles. nunca iguais, com nossos corpos de mulheres. nunca em segurança, nunca como eles. nós somos o sexo do medo, da humilhação, o sexo estrangeiro. sua virilidade, sua famosa solidariedade masculina constrói-se a partir dessa exclusão de nossos corpos, é a esses momentos que ela está ligada. um pacto que repousa em nossa inferioridade.
desde que li esse livro me pergunto porquê com tanta frequência o estupro se encontra no ciclo da vida da mulher. em algum momento, se faz presente. e existe um antes e depois desse acontecimento. porque se antes, tínhamos ainda um resquício de inocência, ela é expurgada. talvez, nem percebamos de primeira, mas quando se chega perto demais de um homem ou quando se começa a mostar vulnerável, algo no nosso corpo enrijece. o corpo sempre lembra. e então nos fechamos.
já faz tanto tempo, talvez ele não tenha feito por mal, nós dois estávamos bêbados e isso e aquilo. tentamos nos enganar e, quando chegamos a conclusão final, a pergunta que anula todas as nossas hipoteses, aquela pergunta específica que nos corrompe a alma, pergunta esta que cada uma sabe bem qual é, nos recriminamos para parar de pensar. ele tem amigos e família, um curso e um emprego, uma vida toda para ser vivida e, ele provavelmente nem se lembra disso.
porquê, ninguém nos fala que as pessoas que nos fazem mal não são monstros identificáveis, que podemos apontar na rua, e sim alguem tão comum que ainda te faça duvidar de si mesma? mesmo que você saiba que está certa. porque o estupro é quase um rito de passagem da mulher e não temos acesso a vivências narrativas assim cedo? porque tudo fica no campo do imaginário simbólico? e porque eu mesma, só falo agora?
é como derrida discorre em seu livro monolinguismo do outro ou a prótese de origem, sobre como nenhuma linguagem pertence a ele e, no entanto, não há outro modo de falar, não há outro modo de amar. a resposta é desconstruir pela linguagem. esta, que é tradição, que abarca do âmago da intimidade de cada indivíduo até o coletivo do macrocosmo. ao falar, relembramos. e quando isso ocorre, ganhamos força narrativa.
aquela história é nossa e eu quero falar dela. mesmo que às vezes, nos sentimos não tão interessadas em nós mesmas, cansadas de auto analisar cada interação e experiência, e de deixar de lado, na metade do pensamento. mas, falar e escrever, seja qual for sua etimologia e aplicação textual, funciona como um esqueleto. pois é o há de mais antigo e forte, é o que sustenta e, essa é a fala. porque a partir dela, há a resposta do outro, que irá compor o restante do corpo, é pelas infinitas colisões de diálogos e interpolações que conectam, que criam guias orais/textuais de certas experimentações, que criam novas tradições e juntam grupos sociais.
a linguagem, pode e deve ser atrelada então, ao campo tangível da arte. de maneira que sua relação com a oralidade seja materializada. e exemplos como esses são diversos, uma vez que desde os primórdios da humanidade existem representações de inúmeros ritos de passagem, que incluem diversos atos sexuais, sejam para cultos à fertilidade, a prosperidade de famílias, ao prazer carnal, entre outros. como por exemplo, a primeira representação do beijo:

pintura rupestre, parque nacional da serra da capivara, piauí, circa 12 mil a.c
o kama sutra, livro de escritos e ilustrações que influenciaram não apenas todo o oriente, mas o restante do mundo, com suas práticas e ensinamentos numerosos e profundos, que tratam sobre inúmeras formas da paixão e do afeto: sexo (do flerte ao ato), adultério, homossexualidade e família. contempla a diversidade e complexidade de todos os atos de amor de forma muito natural:

assim como os amores e sexos sáficos, intimamente representados em distintos períodos e vanguardas:


bem como, manifestações de arte que representassem as instituições patriarcalistas, o pacto social disfarçado de casamento. passando de uma prisão para outra. se antes a figura do pai dominava, agora é a do marido. sempre subserviente à família e aos homens. virgindade como ínsignia de prestígio e de moeda de troca.

e por fim, com obras mais abstratas simbolicamente falando, como as produzidas pelo grupo guerrilla girls, grupo feminista americano da década de 1980. em que, elas usavam máscaras de gorila e suas identidades eram desconhecidas e, com suas artes-manifesto criticavam o machismo gritante na sociedade artística. um exemplo emblemático, foi a criação de um cartaz que denunciava uma estatística do MoMa (the museum of modern art), de que menos de 4% das obras expostas foram feitas por mulheres, ao passo de que 76% de representações de corpos nus eram de mulheres.

em conclusão, como o totem da criança/adolescente encontra a simbologia dos ritos de passagem? ambos apresentam semelhanças: a memória, o passado, a intimidade consigo mesmo, o processo de se tornar algo, ao passo de que já se é. a quebra de dicotomias entre as metáforas do signo são expressas de diversas maneiras. seja pelo imaginário teórico, pela oralidade narrativa, pelo imagético ou materialização artística. e como esses totens encontram a amálgama conectiva comum? como ocorre a criação de uma rede de identificação? por meio da elaboração expositiva da infância heterotópica. pela linguagem e manifestações artísticas é possível voltar seu olhar para as experiências do outro. fechados naquele elo, o tempo para, são crianças e adolescentes de novo, ao mesmo tempo que são arrebatados pelas intervenções, e, com o olhar novamente de adultos, percebem a dureza e realidade cotidiana das instâncias apresentadas. mas que bom que temos umas as outras.

texto: camila simões
arte: dressa constantino

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