levei bem mais tempo do que imaginava com a leitura de a história do novo sobrenome e levei bem mais tempo também para condensar tudo que pensei, senti e gostaria de dizer. dá pra dizer que é porque é o maior livro da tetralogia, mas também, é ainda mais intenso e de difícil assimilação do que o primeiro. não porque a escrita deixa a desejar uma certa leveza, mas porque as memórias de Lenu aqui são tão brutais e parecem tão vivas que tive pesadelos ao longo do pouco mais de um mês que levei para ler.


iniciei a leitura no dia 18 de fevereiro e concluí no dia 28 de março e por um período me senti muito nostálgica e sentimental – quando comecei a leitura da série pela primeira vez anos atrás, comecei na praia e esse ano passei o carnaval também na praia, onde levei esse volume comigo. era quase como se as páginas pertencessem ao mar e à areia. em paralelo e me pegando de surpresa porque isso me fugiu à memória, a praia no livro era o cenário em que mudaria tudo para Lenu e Lila de forma intensa.
queria agradecer todo mundo que leu o primeiro post dessa coluna, e veio falar comigo ou deixou um comentário. fiquei muito feliz de saber o alcance desses comentários e as coincidências de pessoas que começaram a conhecer esses livros agora! era o meu objetivo.
aviso: spoilers. caso queira ficar sem saber o plot completo, recomendo pular para o fim para as observações finais super relevantes.

ter percebido como Lenu é uma narradora não confiável me tomou conta de uma forma que me senti muito mais fascinada por tudo que contava e para além disso, a cada página onde descrevia algo que não dizia respeito ao que ela sentiu ou pensou mas sim à uma terceira pessoa, que em 90% dos casos era Lila, eu me perguntava: como você consegue recontar tantas memórias além das suas com um nível absurdo de detalhes depois da passagem de tantos anos e vidas? e ela me deu uma resposta: em 1966 Lila confiou em Lenu para que ficasse com os seus cadernos cheios de conteúdo descritivo sobre o início de sua vida adulta para que Stefano não os encontrasse.
a presença de Lila se fez tão forte nessas páginas que Lenu sentia como se o corpo de Lila estivesse ali com ela, se apropriando dela mesma. o peso dessa sensação foi tão intenso que Lenu só conseguiu certo alívio quando descartou os cadernos em um rio próximo.
as memórias de Lila nesses cadernos preenchem um espaço antes vazio de detalhes para a história que Lenu conta da amiga. desde as primeiras noites de núpcias, Lila é agredida por Stefano. é estuprada e tomada por um terror infantil, enxergando no marido a imagem de seu pai, Dom Achille. o terror de imagens fantasiosas infantis se mesclam com o terror de uma realidade de submissão de violência.
a parte mais amarga desse terror, é como tudo era o normal.
“(…) tínhamos vistos nossos pais baterem em nossas mães desde a infância. Tínhamos crescido pensando que um estranho não podia sequer nos tocar, mas que o pai, o noivo e o marido podiam nos encher de tapas quando quisessem, por amor, para nos educar, para nos reeducar.”
além disso, todos acreditavam em Lila quando ela dizia que os hematomas, os machucados eram de acidentes domésticos. todas as mulheres sabiam a conduta, a etiqueta e do acordo silencioso den quando os homens que amavam e que amavam elas lhe davam um tapa e uma coça de jeito. como se a soma já não fosse negativa o suficiente, todos no bairro acreditavam que tudo que Lila precisava era de um soco bem dado, o que estabeleceu ainda mais respeito por Stefano – ele estava agindo como um homem.
e uma verdade ainda mais amarga que Lenu admite é como essa posição de Lila como vítima trazia uma prazer sútil para ela – sua amiga ousada e inconsequente agora precisava de ajuda e agora era coberta por uma fragilidade nunca antes vista.
com a volta de Lila da lua de mel, Lenu passou a estudar em seu apartamento e era muito encorajada pela amiga. lá, também descobriu uma diferente face de riqueza e abundância que ia além do outro e do diamante: geladeira e cozinha cheios de comida, cômodos espaçosos, salas decoradas. mas em meio a essa riqueza, Lenu percebeu que essa vida de bens domésticos virou um esconderijo para Lila, que se parecia se intimidar com sua capacidade de aprender e não lia mais nem estudava, apenas se recolhia nessa riqueza.
enquanto Lila se estabelece como senhora Carracii, os Solara querem colocar um retrato dela na loja em piazza dei martiri, a mesma foto que antes estava na vitrine de uma costureira e Stefano ordenou para que fosse retirada. em uma conversa entre amigas sobre a situação, surgiu uma aposta: Lila dizia que em algum momento Stefano cederia para a dupla tenebrosa (odeio muito eles às vezes me faltam até adjetivos), enquanto Lenu dizia que ele nunca cederia. apostadas, se Lenu perdesse, ela não poderia ser aprovada com uma média menor que oito, deveria estudar muito e se Lila perdesse teria que voltar a estudar e a conseguir o diploma com ela e se sair melhor que ela nos exames e era o que Lenu queria, um recomeço, um retorno à sombra da amiga, para lhe trazer força e segurança.
para a infelicidade de Lenu, Lila ganhou. Lila ganhou e comprou livros novos para Lenu para incentivar seus estudos. Lenu não acreditava, nunca tinha antes estudado com livros tão novos com cheiro de gráfica. o gesto comoveu tanto sua mãe, que não entendia se era pela generosidade da amiga ou pela impotência diante à pobreza que a impedia de ela mesma comprar livros para filha.
seu retrato de noiva moraria agora na sola dos Solaras, mas Lila não se satisfez com ele como estava, queria desfigurar essa memória materializada. começou o trabalho de recorte e desmembramento da fotografia ao lado de Lenu, que teve muito prazer de fazê-lo junto à amiga.
“Passamos os últimos dias de setembro trancadas na loja, nós duas e três operários. Foram horas magníficas de jogo, de invenção, de liberdade, que não nos acontecia daquela maneira, juntas, talvez desde a infância. Lila me arrastou para dentro de seu frenesi. Compramos cola, tintas, pincéis. Aplicamos com extrema precisão (ela era exigente) os recortes de cartolina preta. Traçamos contornos vermelhos ou azuis entre os restos da foto e as nuvens escuras que a devoravam. Lila sempre fora exímia com linhas e cores, mas ali fez algo mais, algo que, apesar de eu não saber expressar o que era, pouco a pouco me fascinou.”
eram como meninas de novo. esse trabalho foi como uma anulação dessa condição de viver em submissão. por um momento eram Lenu e Lila, as únicas no mundo procurando uma nova imagem através da autodestruição.
fiquei muito curiosa para ver como a série adaptou o produto final desse retrato, e quando encontrei o resultado, fiquei um pouco decepcionada… achei a criação muito limpa. apesar de ter seguido fielmente a descrição da elena ferrante sobre as posições e recomposição de cada parte da fotografia, o acabamento que esse trabalho tinha na minha cabeça era de algo muito mais cru, marcado, ainda bonito mas não porque era desconstruído de uma forma elegante mas sim porque berrava.
o quadro infelizmente teve vida curta, um incêndio misterioso o destruiu. apesar do choque, Lila ficou contente, gostaria que o casamento, a loja, os sapatos e os Solara também pegassem fogo como o quadro. o mistério acerca da causa do incêndio durou um tempo com Gigliola sendo acusada mas negando fortemente dizendo que o fogo foi causado porque o diabo se manifestava por Lila afinal, sua infertilidade era a prova de que o diabo estava com ela.
ah sim, a infertilidade de Lila… ai.
como se não bastasse a agressão e estupros que sofriam do marido, era esperado por ele e por todo bairro que Lila engravidasse o mais rápido possível. para provar que Stefano era homem, para provar que Lila não era mais menina. Lila nunca desejou engravidar e isso tardava a acontecer, até que aconteceu e perdeu o bebê pouco tempo depois.
essa prisão de expectativas e vivências violentas tornaram Lila muito infeliz, que pedia para que Lenu mesmo sendo melhor que ela, nunca a abandonasse. amor verdadeiro.

entramos agora em uma das minhas partes favoritas desse livro: a festa da professora Galiani. Lenu foi convidada, relutou para ir em parte porque percebeu que o convite chateou Lila, mas uma vez que ofereceu à amiga a oportunidade de acompanhá-la, ela aceitou.
enganado é quem pensa que Lenu teria superado Nino. ele ainda morava em todas as suas fantasias de afeto e romance e naquela festa descobriu que a filha de Galiani era sua namorada. foi uma descoberta que deixou Lenu abalada mas essa sensação durou por pouco tempo. Galiani falava muito bem de Lenu para seus filhos então todos os holofotes recaíam sobre ela: foi fortemente elogiada e se sentia livre para impressionar – “Depois me ouvi pronunciando frases como se outra pessoa tivesse decidido falar por mim”.
mas algo mudou em Lila aquela noite. quando Stefano buscou as duas amigas, ela recapitulou de forma ríspida para o marido todos os eventos da noite, magoou Lenu com seus comentários curtos e maliciosos, fazendo com que se sentisse inadequada e ignorante. mas só em 1966, lendo os cadernos que Lenu descobre o quanto aquela noite também fez Lila se sentir inadequada e ignorante, como se sentiu fora daquele lugar, como dirigiam a palavra apenas para Elena Greco.
gosto muito desse momento do livro porque tenho muita afeição pela Lenu, torço para ela a todo momento e ver ela se sentindo confortável e adorada o suficiente para ser uma nerdola people pleaser que ela é, é muito divertido e satisfatório para mim. entender também como esses momentos em que Lenu brilha tocam Lila tornam essas memórias ainda mais interessantes. apesar de Lenu ter se machucado com os comentários da amiga, não deixo de me perguntar se em algum momento sentiu um tiquinho de prazer ao supor que teriam vindo de um lugar de inveja.
a partir desse momento da história, uma cadeia de eventos envolve Lenu e Lila ao ponto em que penso que se esse livro é inteiramente uma obra de ficção, elena ferrante fez um trabalho admirável trazendo um retrato tão vivo de pessoas erradas no lugar certo e todas as consequências desses encontros.
a ida à ischia.
a infertilidade de Lila era algo que ainda perturbava muito a família, levando ela a ser consultada por um médico que sugeriu que tomasse banhos de mar para se fortalecer. Lila insistiu muito para que Lenu fosse, mas ela recusava, afinal, ainda estava magoada com os comentários da festa da professora. mas tudo muda quando o canalha do Nino aparece e encanta Lenu novamente com beijo (desprezível), o que faz com que ela diga para Lila que iria apenas se fossem para a ischia, onde Nino estaria.
foram então para ischia Lenu, Lila, Nunzia e Pinuccia.
(sobre Nino Sarratore) “’E foi ele quem arruinou Melina’. Lila respondeu com uma risadinha: ‘Ou quem sabe, pelo menos uma vez a fez se sentir bem’.”
deveria ser muito previsível, mas eu tinha apagado completamente da minha cabeça os eventos a seguir então o impacto foi forte o suficiente como se eu nunca tivesse lido essa história antes. se a todo momento que Lenu comentava sobre Nino, Lila revirava os olhos ou fazia um comentário malvado, eu deveria entender que em algum momento essa suposta indiferença viraria uma atração… é um dos maiores clichês… eu já vivi isso também (do lado de Lenuccia).
os encontros das meninas na praia com Nino e Bruno Soccavo viraram encontros de Lila e Nino. esses episódios machucaram Lenu de uma maneira que se sentia traída pela própria amiga. a dor não era declarada e só fazia sentido manter esses sentimentos para dentro – “Mantinha meus sentimentos em surdina porque me assustava a violência com que, ao contrário, em meu íntimo, eu queria, pessoas, elogios, vitórias?”
mas nada nunca é apenas como é para Lenu, assim como amava Lila, amava Nino, não suportava a ideia dos dois juntos, mas começou a se enxergar como necessária para os dois, afinal, confiavam nela para manter essa relação secreta. queria que dependessem dela, queria ser a com o maior poder entre o casal, tanto que quando Bruno Soccavo tomou interesse por ela, não cedeu a nenhum afeto que poderia tecer por ele. queria focar na sua missão de ser o que pode estar entre Lila e Nino Sarratore. a mente dessa menina é um buraco de loucuras.
algo me fascina muito é a forma como a narradora Elena Greco lê a Lenuccia de décadas atrás e assume com muita naturalidade como tinha formas de pensar muito era sagazes: “Há momentos em que recorremos a formulações insensatas e fazemos cobranças absurdas para ocultar sentimentos lineares. (…) Aos homens, a gente se afeiçoa aos poucos, prescindindo do fato de coincidirem ou não com o modelo masculino que elegemos nas várias fases da vida. E Bruno Soccavo, naquela fase de sua vida, era gentil e generoso, teria sido fácil nutrir um pouco de afeto por ele. Mas a razões para recusá-lo não tinham nada a ver com um suposto aspecto desagradável dele. A verdade é que eu queria controlar Lila. Queria ser um empecilho.”
um dia, Lila disse que gostaria de passar uma noite inteira com Nino o que pegou Lenu de surpresa. apesar de resistir ao pedido, logo cedeu disseram à Nunzia que iriam até barano para encontrar com a Nella e Oliviero. Lenu sim, iria para barano, mas Lila encontraria com Nino para passarem a noite juntos.
em barano, Lenu reencontra os Sarratores. reencontra Donato. e indo contra todas as expectativas que eu tinha para esse reencontro, ela tem uma relação sexual consensual com um dos homens mais nojentos dessa tetralogia (quase todos são, não há muito o que esperar). quando tudo acaba, tem sentimentos conflitantes, sente tudo menos prazer.
naturalmente, é um comportamento vingativo – criou um relacionamento inteiro com Nino em sua cabeça e quando se sentiu traída por ele por ter se envolvido com a amiga, resolveu se dar para quem ele mais despreza, o próprio pai, ainda que Nino nunca descobrisse o que aconteceu.
quando Stefano aparece de surpresa em ischia e descobre a verdade sobre o que Lila esteve fazendo durante a viagem, age com uma violência fora do que qualquer uma naquela casa poderia esperar. assim como Lila dizia ter visto Dom Achille em Stefano quando ele a estuprou, Lenu também viu no marido da amiga o mesmo terror infantil nessa reação violenta.
com os cadernos de Lila em mão, Lenu lê como a amiga coloca que desde o casamento tinha uma sensação de morte iminente e como tivesse sido ressucitada por Nino Sarratore.
os momentos que sucedem ischia reforçam como a viagem foi como um evento majestoso e canônico, existe o antes de ischia e depois de ischia.

Lenu passa a se dedicar de forma feroz aos estudos, até ter a oportunidade de fazer um exame para estudar em pisa e sua saída de nápoles é marcada por muito medo, o mesmo medo que senti quando percebi que o mundo é muito maior que o meu bairro: ela tinha medo de tudo, de errar de trem, de não saber onde usar o banheiro, de não saber se orientar. “Meti todo o meu dinheiro no sutiã, como minha mãe fazia, e passei horas numa ansiedade alerta, que conviveu simultaneamente com uma sensação crescente de liberdade.”
é aprovada na escola normal e sente todas as mudanças que vão desde arrumar malas e seus poucos pertences até a mudança de perspectiva, de deixar o lugar que sempre conheceu.
quando toma a decisão de ir até a piazza dei martiti contar para Lila sobre sua aprovação, descobre que a amiga mantem uma relação escondida com Nino, que está grávida do estudante e quer deixar Stefano de vez. e de repente tudo continua a mudar para Lila também.
Lenu narra sua vida em pisa em um passo direto e linear: estudava e saía suficientemente bem nos exames, descobriu uma versão reativa de si batendo em uma menina que zombava do seu sotaque que também a acusara de roubar seu dinheiro, e foi ao baile de boas-vindas com um dos dois vestidos que possuía e conheceu franco mari, um menino muito rico e inteligente que mostrou um mundo de paisagens, conhecimento e intimidade para Lenu, mas ainda assim não o amava.
“Como é fácil falar de mim sem Lila: o tempo se aquieta, e os fatos salientes correm pelo fio dos anos como bagagens na esteira de um aeroporto; você os apanha, os coloca na página e está feito.” – é como se a passagem de tempo ao lado de Lila exigisse pensamento, análise, escolha de maneiras de tecer uma narrativa que alimente o seu objetivo de narradora. mas confesso que gostei muito de ler esses momentos da vida de Lenu sem Lila, de ver como vivia um mundo onde era quase inatingível pelo bairro.
Lila abandona Stefano pela primeira vez, mora com Nino em uma casa onde o convívio é inicialmente muito romântico, ela nem percebe os defeitos e estragos da casa onde moram de tão apaixonada. mas depois essa fantasia se rompe, como se Nino se desse conta de que cometeu um erro e abandona Lila em uma noite após uma briga.
ela passa a notar tudo que há de errado com a casa que tinham escolhido.
Enzo, tão pouco apareceu no primeiro livro, agora passa a ter uma grande importância: descobre da condição de Lila quando Antonio, mandado por Michele, descobre onde Lila está e conta para ele e Pasquale. Enzo encontra Lila, se declara e se dispõe a ajudá-la a abandonar Stefano.
mas tudo parece sem fim, uma vez que Lila volta para o bairro e conta para Stefano que está grávida de outro homem, e o marido agressivo reage de forma surpreendente acolhendo a esposa grávida como se o aquele bebê em sua barriga fosse seu também. um estado surreal e delirante de negação.
Lila deu luz à Rinuccio, a quem se dedicava se esforçava muito para que ele e seu sobrinho Dino, se tornassem homenzinhos muito inteligentes. mas esse momento se encerra assim que Stefano assume um relacionamento com Ada e mantem Lila trancada no apartamento. quando Rino se revolta por Lila não ajudar mais Dino a ser inteligente, por não ter mais dinheiro de Stefano, por ele humilhar Lila se relacionando com Ada, começa a agredir Pinuccia da mesma forma que Stefano agredia sua irmã – uma forma de se reafirmar homem.
com isso, Lila confia à Lenu os seus cadernos, não quer que Stefano os encontre – não para de batê-la, não queria sua individualidade. Lenu prometeu não ler mas na primeira oportunidade visitou todas as páginas escritas por Lila e era como se fosse exorcizada pela escrita. cada traço da escrita de Lila diminuía as palavras de agora de Lenu e cada página acendia outros pensamentos, o que gerou um desencanto por pisa pela escola normal, como se lá fosse um refúgio previsível. como se fosse um sonho, e o sofrimento de Lila no bairro e no casamento fossem a realidade.
Lenu então conhece Pietro, de quem se aproxima lentamente e se encanta pelo que faz e por sua família.
enquanto trabalha em sua tese final, confiando em Pietro para conselhos e orientações, em um salto, começou a escrever em terceira pessoa tudo o que aconteceu em barano com Donato Sarratore. quando terminou a história, deixou ela com Pietro, que agora era seu noivo.
era agora formada, um diploma em letras com distinção e louvor.
Pietro passa o texto de Lenu para sua mãe Adele, que se apaixona pelo trabalho de Lenu e organiza a publicação de seu primeiro livro. “Será que eu, justo eu, tivera a sorte de realizar o que Lila e eu tínhamos planejado fazer juntas?”
a professora Oliviero falece, e Lenu toma conhecimento disso quando recebe seus cadernos do fundamental que a professora tinha deixado prontos para que fossem enviados para ela. misturado aos cadernos, Lenu encontra a fada azul, livro escrito por Lila que foi fortemente criticado pela professora mas agora em suas mãos, encontra anotações de Oliviero louvando a história da amiga quando criança. Lenu então percebe como aquele pequeno livro escrito por uma menina com apenas dez páginas era o coração secreto do seu livro e nem assinatura tinha. precisava encontrar Lila e mostrar.
Lila chama por Enzo que a ajuda a sair do bairro e passam a morar juntos em um apartamento em san giovanni, vivendo com um salário apertado do rapaz para sustentar dois adultos e uma criança. durante um passeio, esbarra com Bruno Soccavo que consegue um emprego para ela em uma de suas fábricas. é um emprego terrível, com condições insalubres, uma gestão ainda mais podre e a qualquer momento estava sujeita a ser assediada.
Lenu sofre um choque ao encontrar Lila em condições tão difíceis e cheias de sofrimento. mostra a fada azul para amiga na esperança de que ela entenda que ela, ela também é genial. mas assim que se despedem, Lenu vê Lila jogando o livro de dez páginas em chamas.
o livro se encerra com Lenu em um evento de lançamento de seu livro em milão – vira alvo de críticas de um professor que não teve nada bom a dizer e Nino Sarratore vem à sua defesa. infeliz.

um ponto que marcou muito nessa leitura, foi a relação de Lenu e sua mãe, que sempre se mostrou muito resistente aos estudos da filha, pois acreditava que o lugar da menina seria trabalhando e ajudando com a educação dos irmãos e com as tarefas domésticas. mas ao mesmo tempo em que no final do mês embolsava todo o dinheiro de Lenu recebido pelo trabalho na livraria sem dizer nada, na manhã seguinte levantava cedo para preparar um café da manhã para a filha que passou a noite estudando. era ovo batido, e a mãe se dedicava tanto a esse ovo que Lenu ouvia da cama o cloc cloc da colher.
criticou a escolha de Lenu de sair de casa para estudar em pisa, mas ainda assim, deixou dinheiro para que a filha fosse fazer o exame da escola e quando já estava ingressada e foi consumida por uma gripe forte no período do natal, saiu do bairro pela primeira vez. com comidas natalinas e uma voz e dialeto muito altos invadiu o dormitório de Lenu, arrastando e organizando todo o quarto. e quando foi embora, Lenu se comoveu pensando na mãe se deslocando sozinha, com o passo arrastando em uma cidade desconhecida.
esses gestos de ternura da mãe de Lenu me lembram da minha mãe, que trabalhava no meio da cidade desde cedo até a noite e ligava em casa pontualmente às 10h da manhã para conversar comigo e com meu irmão. minha mãe que também sozinha passava a madrugada fazendo bolos de aniversário para que possamos levar na manhã seguinte para cantar parabéns na escola. e ela que recentemente quando operei os sisos fez questão de bater tudo que eu comia para que não precisasse mastigar.

“Foi um momento terno, eu e Nunzia na cozinha agora em ordem, os pratos e as penas brilhando após serem lavados, com cuidado, ela que me dizia: ‘Como você fala bem, Lenu, se vê que você tem um lindo futuro pela frente’. Então seus olhos se encheram de lágrimas, murmurou que Lila também deveria ter continuado com os estudos, era o destino dela. ‘Mas meu marido não quis’, acrescentou, ‘e eu não soube me opor: na época não tínhamos dinheiro, mas ela poderia ter sido como você; em vez disso, se casou, tomou outro rumo e não é possível voltar atrás, a vida nos leva para onde quer.’”
assim como no primeiro livro, é reforçado o fantasma da dicotomia Lenu a boa, Lila a má. Nunzia mãe de Lina a reafirma, Nella, Oliviero. me pergunto o quanto isso vem dos fatos e o quanto isso vem das memórias de Lenu… me lembra muito de como a Jane Austen batizava todas as suas personagens lindas e carismáticas como Jane em seus livros. mas independentemente de uma ser boa e outra má, não consegui deixar de pensar na crueldade.
o amadurecimento e a passagem do tempo são cruéis. especialmente cruéis quando não há condições para liberdade, porque somente há pobreza, misoginia e violência.
existe crueldade no destino de Lila estar nas mãos dos homens que a cercam, existe crueldade nas agressões e estupros que sofre do marido, no abandono do amante, existe crueldade em Lenu perdendo a virgindade com o mesmo homem que a assediou.
existe crueldade quando Lenu percebe que a vida que tem era para ser de Lila também.
naturalmente fui levada a pensar em cada acontecimento como pontos-chave da história de cada uma e qual o peso que cada um teve em seu destino, o que teria sido melhor e o que teria sido pior, infelizmente ou felizmente Lila não engravidou de Stefano, infelizmente ou felizmente Lenu transou com Donato Sarratore e escreveu um livro sobre o corrido, mas rapidamente concluo que é inviável pensar nos infelizmentes e felizmentes quando tudo é cruel. Gigliola talvez estivesse certa, acredito que o diabo estava sim com Lila, afinal, ela casou com Stefano e se relacionou com Nino, esteve com duas versões do diabo.
a crueldade de ser uma mulher que envelhece – viver uma vida preenchendo os requisitos do que é ser uma mulher, casar e ter filhos e ocupar um espaço de submissão, normalizando a violência, normalizando a falta de liberdade… não é um felizmente. se rejeita, o que Lila tentava fazer, é lida como puta e prostituta. mas a mulher que ainda segue esse esperado papel, perde seus traços, têm corpos de mães nervosas: “(…) tinham dez, no máximo vinte anos a mais do que eu. No entanto pareciam ter pedido os atributos femininos aos quais nós, jovens, dávamos tanta importância e que púnhamos em evidência com as roupas, com a maquiagem. Tinham sido consumidas pelo corpo dos maridos, dos pais, dos irmãos, aos quais acabavam sempre se assemelhando, ou pelo cansaço, ou pela chegada da velhice, pela doença. Quando essa transformação começava? Com as gestações? Com os espancamentos? Lila se deformaria como Nunzia? (…) E tudo o que eu estava aprendendo na escola se dissolveria, o bairro tornaria a prevalecer, as cadências, os modos, tudo se confundiria numa lama escura.”
Lenu teve oportunidade de não ocupar esse papel, através dos estudos e de conquistas que antes era um sonho só para ela e Lila, agora conferiram a ela o privilégio de escolher manter seu nome Elena Greco em suas publicações mesmo se casando com um Airota. e no momento em que toma essa decisão, não consigo deixar de lembrar de quando Lila percebeu que se tornou mais algo dos Carracci, o Cerullo que cairia em um esquecimento e não prática, assinaria Rafaella Carracci e os filhos teriam que se esforçar para lembrar do nome não mais lembrado e os netos, ignorariam. “Subjugada, Raffaella Cerullo perdera a forma e se dissolvera dentro do perfil de Stefano, tornando-se uma emanação subalterna dele: a senhora Carracci.”
no posfácio, Maurício Santana Dias me lembra que assim como o retrato desfigurado, a fada azul também tem seu fim em chamas acesas. tudo que vem de Lila, tudo que vem de sua voz se desintegra. e nesse momento, eu espero que Lenu esteja deixando a amiga falar através de suas palavras. ✾

observações finais e muito relevantes
personagens que mais amei: Lenu e Lila
personagens que mais odiei: os Solaras, Stefano, Donato, Nino, Rino, Bruno Soccavo
músicas que mais ouvi enquanto lia: o escaper da sarah kinsley
momento em que mais li: antes de dormir
nota pro livro: 10 bilhões de 10

texto por luana (luanacintilante, arimuraluana)



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