espiritualidade e anti-intelectualismo contemporâneo: redes sociais e performance

mas quem disse que era um ser e que existia? ele vive. isto não lhe basta? ganharei o nada antes de ti, deus, dizia o corpo ao espírito, porque vivo […] o corpo humano nunca está acabado. é ele que fala, ele que bate, que marcha, que vive. onde está o espírito, que nunca se viu exceto para lhes fazer crer, nos corpos à sua volta, como uma besta, uma doença.

antonin artaud, o corpo humano.

o esquecimento. o medo da morte em vida e dela em sua totalidade. a expressão máxima da finitude do que temos de mais precioso, material e incompreendido. o temor de ser esquecido enquanto ainda vivemos. que o corpo simples e humano que habitamos se degenere e deixe de existir, não só fisicamente, mas no esotérico. como o corpo utópico de michel foucault, esse invólucro de carne e osso e viscosidades. nossa casa e prisão. detentos. como podemos então buscar um meio de fuga? nosso mantra ilusório que repetimos todos os dias na frente do espelho. buscar criar um corpo aberto, uma fantasia de que devemos ser atravessados por tudo, transcender acima das máscaras e maquinações, mais do que as noções de fisicalidade permitem, ser por fora e poder se ver por fora. sem matéria, sem tradições, sem distrações sedutoras.

a vida sob o sol não é apenas um sonho?

– asas do desejo (1987) de wim wenders

enquanto não conseguimos nos transmutar dessa maneira, o que nos resta? o que somos? um corpo máquina. que, como um manequim, aguarda suas pulsões mecânicas de controle e ordem, e, então, surge nosso ímpeto de poder de morte, que revela essa lógica dicotômica de censura x desejo e selado x perfurado. como darian leader discorre em gozo:

a dor pode ter um função não apenas como marcadora de lugar, mas também como preço a ser pago, ligado ao tema da culpa e do castigo. para que ela mude, essa dinâmica precisaria de alguma forma de reconfiguração […], a própria transferência que fazia com que a incorporação da culpa na dor deixasse de ser necessária.

e aí podemos pensar no conceito de corpo de estrela de serge margel, isto é, o controle do poder de morte na ociosidade utópica. porque se levarmos em conta que para foucault os exemplos da nossa morte são o cadáver e o espelho, vemos nossa carne apodrecer e murchar e devemos então, levar nosso corpo utópico, os lugares heterotópicos, ambos que ultrapassam a significância entre real e imaginário, a dicotomia, a dialética, o que existe e o que não existe, simultaneamente aqui e lá e ao mesmo tempo, em nenhum deles. e em específico, as heterotopias de tempo, aquelas que “param o tempo” quando presenciadas. e é o que se almeja, quebrar a dicotomia passado e presente, transmutar os sentidos desses objetos para que o tempo e o eu-outro, sim, possa modificá-los, por meio de intervenções. 

sim, as transformações do corpo-máquina não são realizadas diretamente por quem habita o corpo. mas por quem o deseja. o corpo de estrela é um maquinário repleto de glamour, ou seja, de sedução e obscenidade. e para baudrillard

é o corpo que se reveste de suas próprias secreções.

no qual, ele maquina uma ilusão, pega o corpo e suas intenções naturais e transforma de dentro para fora, tornando-o menos do que oco, uma vez que sua carcaça ainda existiria, é menos que corpóreo e menos que simbólico. é uma fina superfície espelhada, o que existe do lado de trás é igual o que é refletido, é menos que um corpo morto, é a ilusão da vida para o outro. seus fluidos lhe cobrem totalmente, como a origem da palavra gramática do gramie, remela em francês, como margel elucida.

essa gosma que fica no nossos olhos, embaçando nossa vista, essa prisão idealista. uma simbologia do glamour sórdido, revela o poder de morte, o temor do esquecimento, a busca pela perfeição. e que corpo ideal é esse? aquele pensado e planejado pelo outro. aquele inexistente. aquele é uma ilusão. que é possível ver tudo, não há mistério nele, ele é tudo.

o desaparecimento natural do ser e sua metamorfose em corpo de estrela é cultuado, porque a troca promete um poder. a morte de quem sou em troca do desejo eterno, da adoração irracional, do controle da morte e da vida eterna utópica. exemplificando: ao lançar um novo texto, ao receber a validação da performance, me enojo, porque sei que aquela secreção mostrada é uma ilusão e, parto para outro escrito com a mesma obsessão e obstinação de outras inúmeras vezes, crendo que será diferente, para só então me frustrar, mas com a minha própria vitória. mas ainda há uma certa consciência nesse exemplo, porque a promessa é criada pelo corpo-máquina, mesmo que se subjugue ao olhar do outro e que o ciclo de tentativa de busca pelo poder da morte ainda exista.

dessa forma, podemos atrelar o surgimento do corpo de estrela a submissão. visto que, se a formação deste se dá pela figura do outro, esta que, é masculina, que cria uma cadeia de procura e conquista. o homem deseja ser seduzido pela mulher, mas não qualquer uma, não a real, em forma materializada, não a intimidade, não a relação, não a sexuada. é além disso, eles buscam o que não existe. o glamour do corpo de estrela é a sedução da promessa impossível, um corpo perfeito, virtual, que seu exterior seja igual ao interior, fino e transparente, uma simbologia fantasmagórica. uma promessa que não pode ser cumprida, aquela mulher ideal não existe e isso é a coisa mais obscena e desejável. sua secreção não vem de dentro, ela já cobre todo o corpo.

trazendo para um contexto atual, de performances ilusórias nas redes sociais, por exemplo, podemos enxergar o glamour, porque ele é da arte do momentâneo, da transição, dos stories postados que duram apenas um dia, um show aberto por 24 horas. porque ao postar algo, eu crio uma promessa para quem vê, de que aquilo é a melhor arte, a melhor comida, a melhor cidade, o melhor corpo, etc e me frusto, às vezes com a reação do outro. porque, se não formos corpos estrela e sim corpos-máquina, esperamos algo em troca, o corpo estrela nada espera ele apenas é, e quando o corpo máquina não recebe o que planejou com sua exposição, ele se frustra, porque esperava do outro uma promessa também. e aqui a figura do outro se assemelha a do corpo de estrela: a promessa é justamente a de não prometer. 

a destruição do princípio vital. a banalização da alma. a redução dos sentidos atrelados ao corpo como extensão do nosso eu sensível. nada podemos oferecer, porque sempre se pedirá em troca e cada vez mais. e quanto mais buscamos entregar, mais a demanda aumenta e se torna irreal. margel relaciona a definição de lacan sobre amor para o contexto de promessa, que o arquétipo do outro pede ao corpo estrela: 

dar algo que não se tem a alguém que não o quer.

não temos o que é preciso, nunca teremos e sempre que tentarmos atender o que se pede, falharemos, porque não se deseja a realidade, nem mesmo o corpo, o sexo, as relações, a conexão. a promessa, ela é o desejo, o que se almeja, o tesão, o que ludibria, engana, machuca, destrói, corrompe e completa. sim, completa a fantasia cruel e impossível de quem deseja e se deixa enganar. uma sede que nunca passa, mesmo o copo de água estando na sua mão, não se toma, se enoja com a pequena quantidade, com a temperatura e com o seu formato. não se deseja matar a sede, mas sim de se imaginar tomando a mais cristalina e refrescante água, porque ela não existe necessariamente, o que se anseia é o ato imaginativo. 

para além das performances nas redes sociais, podemos atrelar essa discussão à religião. esta, apresenta suas tradições mecânicas de (auto) controle e dominação e suas técnicas variam com o passar dos tempos e necessidades que surgem para atrair diferentes tipos de público mas todas possuem algo em comum: a promessa (o desejo por dias melhores, dinheiro, amor, vida estável, etc) numa espécie de dialética da fuga. uma vez que, se a promessa é o que passa a vigorar como o mais importante, qual o conteúdo desta? a máxima desta é não prometer absolutamente nada. ser para sempre uma incógnita impossível de ser realizada. porque erramos e somos de carne e osso.

e a religiosidade se usa do artifício da censura para se desenvolver, com suas tradições sócio-culturais e ordens, com costumes esses que se expressam e norteiam instâncias imagéticas dos corpos, bem como suas representações e inscrições no mundo. de modo que essa dialética mostra o seu outro lado pelo erotismo. e que um só existe por conta do outro. seria impossível existir uma forma de transgressão social que não seja atrelada como dicotômica inversa a algum tipo de repressão, é preciso ir contra algo e fazer o diferente para que rompa com padrões pré-estabelecidos. 

dentro do erotismo, o corpo de estrela vai se comportar como um corpo útil, ou seja, segundo a tecnologia política do corpo de foucault, ao mesmo tempo que este corpo é capaz de gerar, ele também é controlado. o corpo de estrela gera suas secreções transparentes irreais, sua promessa impossível e cruel, ao passo de que o faz em troca de seu eu natural em função da figura do outro e com o glamour obsceno erótico em sua posse, realiza sua promessa vazia. em que podemos, dar como exemplo, o que seria um rapto ganimédico contemporâneo.

na tese de doutorado o enquadramento performativo como trabalho de arte de eduardo montelli, edu discorre sobre o mito de ganimedes, criança de grande beleza que é raptada por zeus e passa a servir os deuses do olimpo. ele morre e se transforma em uma constelação. e como essa narrativa pode ser vinculada ao que foi analisado? ganimedes é o corpo de estrela, ele se deixa ser raptado, ele permite a sedução do outro, promete sua beleza grandiosa e passa a acreditar que o seu corpo, agora é útil, devido a ação do outro, da sua submissão em detrimento ao que ele pode oferecer. chega ao auge, finalmente, pode gozar eternamente, fugir completamente da existência corpórea, existir para sempre como algo espectral e magnífico, como estrelas no céu, para toda a eternidade permissíveis de serem admiradas.

para com a atualidade, a censura não se faz presente como antes, de forma que, não possuímos formas de transgressão culturais fortes no âmbito das tecnologias e performances em redes sociais, ou seja, o anti-intelectualismo reina.  todos usam twitter e substack como um diário online, instagram e tiktok como um caderno de colagem, se permite que todos façam e falem sobre tudo sem nenhum embasamento e fundamentação, basta se estar online. edu escreve:

os sujeitos, então, são bombardeados por todos os lados pelo imperativo “goza!”, tanto no sentido do desempenho sexual, quanto no de realização profissional ou espiritual. […] o gozo é irrealizável justamente porque a “vida real” o impossibilita: somente o outro-eu imaginário e espectral pode gozar completamente. […] não somos coagidos, mas seduzidos a nos entregar completamente ao desejo do outro, que aprendemos que também é o nosso desejo.

e refleti. se por um lado há a juventude burguesa de esquerda propagando o anti-intelectualismo, a outra parcela dela, se recusa, mas acaba caindo nos mesmos moldes de denúncia: vídeos no tiktok com uma estética bem pensada, textos no medium e substack em forma de manifesto curto e stories que tentam sintetizar tudo isso. e, indo além, me lembrei do que meu professor de artes e filosofia, brunno, disse em uma aula, sobre como a esquerda estava distorcendo paulo freire, afinal, a direita nem sequer o ler.

mais profundamente, para além dos jovens e seu anti-intelectualismo midiático, temos os profissionais acadêmicos, estes que por vezes tratam o estudo e ensino, mesmo utilizando o método de paulo freire, com um quê de academicismo. ora, obviamente que as técnicas e metodologias apresentam sua importância, mas atentar o olhar para as vivências e distintas formas de aprendizagem (fora dos alienantes exemplos citados), merece o mesmo nível de atenção e respeito para com os alunos.

o que é preocupante, pois, em resumo, a academia que forma cidadãos, elitiza cada vez mais os modos de se pensar, mesmo apresentado uma didática, a priori, mais igualitária. um corte profundo no sistema educacional superior e o intelectualismo brasileiro. e, na superfície disso, a juventude, que na exemplificação que trouxe, peca em ambas as tentativas de performances nas redes. no final, tudo caminha para o corpo de estrela.

uma vez que, as redes sociais não nos forçam, mas somos seduzidos pela tentação da exposição. de mostrarmos nossos processos artísticos, nossos corpos, nossas roupas, por onde andamos e com quem e o que estamos fazendo. prometemos uma vida irreal e impossível, um fragmento ilusório translúcido e raso. nos vendemos pela aprovação do outro, porque é o que somos programados para desejar, embora nunca seja o bastante e, sabemos disso. mas amanhã, postaremos outro storie.

texto: camila simões

arte: lua arimura

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