as décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por uma nova forma de se pensar a relação entre política, corpo e cultura. o movimento da contracultura ansiava pelo o paraíso aqui e agora, evocando uma vida simples e em comunidade, a experiência com a arte e a solidariedade entre os indivíduos. seus temas orbitavam em volta das drogas, do pacifismo, do misticismo e da vida em comunidade. os movimentos hippie, black power e flower power foram expoentes destes ideais e serviram como marco para a ação da juventude do período. 

a primeira expressão da contracultura no brasil foi com os cantores da jovem guarda. estes eram tidos pelos jovens intelectuais do movimento estudantil como alienados, vazios e imitadores, uma vez que a jovem guarda afirmava um novo comportamento porém dentro dos limites estéticos e culturais aceitáveis pela sociedade da época. a partir do final da década de 60, ocorre um afastamento da juventude das baladas românticas e das sonoridades pasteurizadas difundidas sobretudo pelo the beatles. a juventude  ansiava por uma música, um movimento, que expressasse suas angústias, seus anseios políticos e sociais. assim, na década de 1970, temos um dos mais importantes movimentos contracultura do país: a tropicália. a tropicália era centrada na juventude inconformada com os padrões societários, tecendo elogios à rebeldia e à ironia. seu objetivo principal era expor e problematizar o processo de modernização capitalista brasileiro, fazendo uma oposição, por um lado, entre a riqueza, o cosmopolitismo e a modernidade, e, por outro, o subdesenvolvimento, a desigualdade e o conservadorismo.

neste mesmo período, longe dos centros urbanos, jovens negros das periferias do rio de janeiro e de são paulo criaram, nas pistas de dança, uma nova identidade: negra e orgulhosa. em contraste com a contracultura predominantemente branca, surgia uma estética e uma identidade negra e periférica que se afirmava através de uma nova sonoridade musical, do estilo, da festa, do movimento. nos bailes black do rio e nos bailes de samba-rock de são paulo, a pista era território de liberdade, tesão e utopia. ali, o groove era linguagem, o corpo era manifesto e a beleza era coletiva.

everyone was beautiful, and everyone was horny. 

a formação dessa cena alternativa nas periferias das grandes cidades brasileiras, por um lado, era sintoma dos limites da cultura de esquerda consagrada pela juventude engajada dos anos 1960 e 1970. as questões de raça e racismo eram preteridas em favor da atenção quase que exclusiva a questões de classe. alguns grupos de esquerda consideravam a dança e os sons dos bailes meras importações que serviam apenas como alienação e escapismo diante das dificuldades sociais do período. outrossim, concentrada em espaços urbanos periféricos, em meio a desigualdade social, privação de serviços sociais, como saúde, educação, emprego, e subrepresentada pelo cenário cultural, esta população encontrou suas próprias formas de entretenimento e sobrevivência.

selecionei algumas músicas representativas desse período nessa playlist: as interpretações vocais, os instrumentos, os grooves; o tesão e a vontade de mudança daqueles artistas que alteraram para sempre a música brasileira.

a playlist pode ser escutada no spotify da blush e da hastha (linhadoequador.com) ˚‿︵‿︵‿︵˚

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