técnica significa um método para eliminar todas as impurezas que levam ao desperdício de energia; para fazer do trabalhador um agente de produção “puro”, sem conflitos, complexos ou medos. –Dane Rudhyar

esse final de semana teve show da Kim Gordon aqui em São Paulo, por conta do festival Popload. a esse ponto os leitores da Blush já sabem que ela é uma das padroeiras do coletivo, citada 3 vezes na nossa lista de 700 mulheres. sempre foi uma vontade curiosa muito grande minha ver uma performance dela ao vivo, principalmente depois de um texto dela que descreve um show como se observasse um ritual… foi nesse texto alias que ela, como artista visual, descobriu que podia fazer música também e esse ponto pulsa muito em mim a ponto de ter mudado toda minha relação de assistir um show, dançar e vibrar, ouvir a música, trocar de pontos de vista durante o show, a necessidade de estar muito perto da grade e muito longe do palco também.

traduzi rapidinho o texto e convido vocês a lerem:

DROGAS BARATAS E VÍNCULOS MASCULINOS

“Ao longo da vida, alguém se torna “desafinado”. Quatro homens. Três guitarras, afinadas discordantemente, na mesma tonalidade, e bateria. Quinze seções separadas por contagens alternadas de oito e dezesseis, dedilhadas pelo compositor Rhys Chatham. Vestindo um smoking branco, em pé no centro, ele toca por oito contagens, as notas ressoando como sinos de igreja. Ele se vira com um pé para a frente e, segurando sua guitarra como uma arma, olha desafiadoramente para o público. Fim do prelúdio. Simultaneamente, Wharton Tiers, Robert Longo e Jules Baptiste começam a colidir com o dil e se mover para frente como uma locomotiva no sonho molhado de alguém. Ritmo sincopado, tocando uma batida a cada dezesseis batidas e, em seguida, um acorde a cada dezesseis batidas contra os harmônicos de Rhys, um solo que se torna uma melodia do começo ao fim. Como Glen Branca afirma no N.Y. Rocker em referência ao trabalho de Rhys, “Os tons podem começar a saltar tão freneticamente que parecem não ter relação com o ritmo base”. O prelúdio retorna, Rhys toca dezesseis notas desafinadas. Jules, vestido com calças escuras, um casaco de couro desleixado, uma combinação branca e um chapéu, pega a garrafa de Locker Room e a entrega a Robert, que a leva ao nariz e a entrega a Rhus, que a pega enquanto continua a tocar com a outra mão. Wharton, sentado no fundo, vestindo uma camisa xadrez, sorri descaradamente, mas não se entrega. 1, 2, 3, 4… A segunda seção segue como a primeira, o acorde se tornando um pouco mais longo. Jules começa a sorrir para algum lugar, como se estivesse parado na plateia. Robert está vestido com um terno escuro, sua guitarra se funde ao seu torso, dando a aparência de um objeto em vez de dois. Ele começa sua improvisação a partir do anterior, bem profundo, com os acordes, em vez de trabalhar com a qualidade clássica dos harmônicos de Rhys. Mantendo sua formação, ele toca uma linha de baixo tradicional do rock e se vira para o baterista, Wharton, saltando no ar para dar impulso às linhas de baixo monumentais, enfatizando a distância nos harmônicos e movendo a música para a frente. Por um instante, Jules parece sobrecarregado pela densidade enquanto observa Rhys, balançando intensamente para frente e para trás em direção à plateia. E Robert, que parece ter tomado Wharton, começa sua execução onde você menos espera; ela vem em formas assimétricas, arejadas; rítmicas incompletas. As notas agudas assobiam e se tornam simétricas ao ritmo de Robert. E então Rhys, interrompendo-a, retorna àquele prelúdio que começa a parecer preliminares. Indo para a próxima seção, a intensidade já está estabelecida, uma pequena garrafa já passada de mão em mão. Falando sobre sua execução durante esta parte, Rhys carinhosamente afirma que eles se tornam monstros. Rhys estabeleceu a estrutura básica em algo impuro, uma guitarra desafinada. Alcançar a perfeição ou a pureza da forma na música é impossível, pois não há nada de puro na música, exceto um estilo que faz parte da tradição da música clássica e modernizado por compositores da “nova música” como La-Monte Young, Phil Glass e Steve Reich. Uma vez que você inclui os músicos como indivíduos, um certo grau de controle é aberto e a música pode então ser impura e potencialmente mais emocionante. Torna-se mais como o rock, que frequentemente depende de um grupo específico de pessoas estabelecendo tensões, tempos e tons. Drogas baratas tornam-se um meio de dissipar a autoconsciência em busca de dedicar total atenção à música. Não da mesma forma que as drogas sensoriais intensificadas dos anos 60 inspiraram os compositores da “nova música” que tocavam para um público viciado em drogas, ao contrário. Essas drogas são para os músicos, para que eles possam se entregar à sua execução. Então, de certa forma, elas se tornam a técnica para a música, permitindo uma impureza para a expressão de momentos mais puros. Robert começa a atacar Rhys agressivamente na próxima seção. A essa altura, os sons se tornam distorcidos, atingindo uma densidade convincente que torna difícil dizer se ele está indo para trás ou para frente. Os harmônicos criam fenômenos psicoacústicos. Algumas pessoas afirmam ter ouvido vozes masculinas. Os sinos da igreja retornam, entrando no ritmo sincopado cujo solo harmônico é mais disperso. Para superar a excitação da seção anterior, o resto da banda recomeça com uma intensidade próxima à alcançada após o almoço, que reintroduziu o prelúdio. A música continua crescendo por um curto período e então para. Wharton, Jules e Rhys se viram e saem do palco. Robert começa a tocar uma espécie de improvisação de jazz/blues. Jules retorna, recebendo a melodia como um baixo, e toca um solo de rock. Então Wharton retorna e, finalmente, Rhys, desconstruindo a música ao contrário e, simultaneamente, reconstruindo-a com uma nova atitude.

Rhys Chatham é um jovem compositor sério que compõe música suja.”

Kim Gordon para a revista Real Life, 1980

não é só um convite a analisar a energia do ambiente e o corpo se transformando em colisão. é uma provocação que tensiona a hierarquia do artista entre o palco e o público, questiona o quão limpo é performar e robotizar um corpo orgânico tentando reproduzir e alcançar a perfeição por pelo menos alguns segundos, perceber que é mito, e é daí que vem o encanto de todo o acontecimento.

não é necessário o melhor lápis pra desenhar, não é necessário o instrumento mais caro pra atingir a entrega perfeita, é nesse campo que mais uma vez a arte entra na música. é sobre sentir e traduzir da sua forma no momento, é experimentar o som como quem experimenta o estar junto, intenso, desafinado, desacabado… a glória não vem só do momento de sincronia perfeita, mas da conversa auditiva e sentimental do processo.

pra nós que criamos, encaro a Kim Gordon e todas suas produções como um lembrete muito forte a entrega da fricção, ao erro, as tensões e ao espírito.

tudo tudo tudo nasce da tentativa e da bagunça.

deixando mais visual ainda, abaixo deixo uma performance que a Kim e o Dimitri Chamblas fizeram em Paris, 2019 que apoia o pensamento:

beijo beijo, criem muito

gifzinho do show de ontem, no cinejoia, 2025
minha mesinha de canto da sala, retrato esmaecido da kim

retrato da kim minha mesinha de canto da sala
retrato da kim na primeira expoblush irl, 2024

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