eu to tentando parar de beber coca cola há muito tempo, desde o início da adolescência, eu lembro de me sentir culpada em relação a quantidade que eu tomava e tentei me negar e impor uma restrição em mim mesma. eu não cresci com acesso fácil a coca cola por que minha mãe não gostava de comprar pra casa, então eu geralmente bebia fora de casa e especialmente em eventos de família. minha madrinha sempre me conta a história de que uma vez quando eu tinha 3 ou 4 anos, na olaria dos meus avós, eu peguei a garrafa de coca cola e abracei ela, dizendo “eu te amo coca cola!” muito engraçado— todo mundo deve ter pensado. aos 20 anos, a única vez que eu consegui cumprir a auto-restrição foi quando eu me apaixonei profundamente por uma pessoa que eu também não tinha com fácil acesso. eu fiz uma promessa, falando com o céu; por favor faça com que ele responda a minha mensagem, a qual estava sendo ignorada por uns dias, e em troca eu vou parar de beber coca cola por um ano, ou talvez eu ate tenha dito pra sempre (o desespero dessa época casou recalque nas minhas memórias) e assim eu fiz, eu tentei muito e levei essa auto-negação muito a sério, eu me lembro de nem querer mais coca cola, eu senti que eu era outra pessoa. E lindamente, ele me mandou mensagem, a gente se encontrou na minha casa, ele foi embora, e o processo de desespero e espera recomeçou. e é assim que as promessas funcionam: agora que eu consegui o que eu pedi inicialmente, eu preciso continuar com a restrição, se não alguma coisa muito ruim acontece, eu acho.
dois dias se passaram e ele foi embora de vez, eu fiquei muito brava que a promessa não funcionou, então eu bebi coca cola de novo.
FIM.
No dia que eu conheci ele, minha saia era vermelha, batom vermelho, sapato vermelho, colar vermelho, casaco vermelho, brinco vermelho e meia calça preta, como coca cola.
eu conheci ele no cinema, a noite, mulher sob a influência. de manhã, sem imaginar que eu conheceria ele, eu comprei minha cópia de paixão simples da annie ernaux. até hoje eu tento parar de beber coca cola.

em paixão simples, a ausência como mais alta forma de presença é exemplificada nas promessas que Ernaux faz pra ela mesma no decorrer da sua rotina, ela dá dinheiro aos pedintes e faz desejos, ela espera que em troca o amante dela ligue. dias ou tarefas normais são amaldiçoadas pela ausência de alguém e te aproximam do divino; do mágico, da devoção.

“an existence lived entirely for someone else”
ter comprado esse livro no mesmo dia e algumas horas antes de conhecer ele me da uma sensação de metalinguagem e presságio. pelas palavras de Ernaux, o livro é “an offering of a sort, bequeathed to others.” enquanto eu esperava pela resposta dele, já sem coca cola, eu lia o livro e tudo parecia uma piada de mal gosto, com a similaridade, a coincidência. além do homem que eu estava apaixonada ter a mesma inicial do amante de Ernaux, pelo menos no livro.
o sentimento que a escrita dela me evocou era o mesmo da paixão que eu sentia no momento, e o sentimento que ela sentiu quando ela viveu aquilo era o mesmo que eu vivia no momento. eu decidi fazer a promessa antes de ler o livro, o que comprova uma certa teoria em paixão simples — a suspensão da racionalidade e a extensão do limite das coisas que somos capazes de fazer enquanto somos possuídos por paixões—. que conseguir ficar sem coca cola não é um grande e árduo feito, mas a decisão de fazer uma promessa e a seguir fielmente pra talvez presenciar alguém, e com esse alguém experienciar um sentimento. eu não considerava ou conseguia conceber o ato de beber coca cola durante a espera por ele, não existia nada mais importante ou passível de sentido do que a presença dele, já que eu sempre tentei parar de beber coca cola e só consegui sob essas condições. tudo que eu fazia ou pensava no dia a dia era uma maneira de chegar mais perto dessa presença, descrito lindamente por Ernaux:
“I could experience only absence or presence.”
“I measured time differently, with all my body.”
‘When I began to write, I wanted to stay in that age of passion, when all my actions…were channeled towards one person.’
eu terminei o livro no intervalo entre a espera com esperança e o fim. um grande potencial de libertação foi me dado ao ler esse livro. para além da coca cola, eu sentia a inadequação de viver em função dele, o questionamento sobre a qualidade do sentimento, sadio ou não, e o que significa atribuir qualificações a um sentimento tão arrebatador: se é benéfico. Ernaux escreve sobre se soltar das amarras da razão, mergulhando na própria paixão e instintos. entregar-se ao tumulto em uma vivência onde a dependência de outra pessoa é quase total, causando tanto autodestruição quanto a descoberta do eu no outro, sufocando o raciocínio lógico e consciente, onde a única medida do tempo é a presença e a ausência de um amante. que o sexo pode ser uma transgressão, mas o verdadeiro erotismo causa transmutação, que amplia a experiência humana. que apesar dela não ter vivido o amor pleno, ou que pode ser considerado o amor pleno, ela teve a sorte de experienciar esse potencial –que faz parte dela–, ao se sucumbir á ele e que a oportunidade desse tipo de transgressão é luxuosa.
“When I was a child, luxury was for me fur coats, long dresses and villas by the sea. Later, I thought it was to live the life of an intellectual. Now it seems to me that it is also the ability to live a passion for a man or a woman.”

“Whether or not he was “worth it” is of no consequence. And the fact that all this is gradually slipping away from me, as if it concerned another woman, does not change this one truth: thanks to him, I was able to approach the frontier separating me from others, to the extent of actually believing that I could sometimes cross over it.

“I discovered what people are capable of, in other words, anything: sublime or deadly desires, lack of dignity, attitudes and beliefs I had found absurd in others until I myself turned to them. Without knowing it, he brought me closer to the world.”





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