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ninguém melhor para uma entrevista no mês doce-amargo de junho do que pedro minet,
com seu novo livro: superstar
pedro minet é escritor multitalentoso de poemas e prosas, recentemente anunciou o lançamento de seu próximo livro: superstar. ninguém melhor do que ele mesmo para nos dar um gostinho do que essas páginas escondem. pensando nisso – e na obra perfeita do destino que o fez cair justo no mês doce-amargo – a blush o convida para uma entrevista exclusiva.
o lançamento oficial acontece no rio de janeiro, na próxima quinta-feira,
26 de junho, às 19h30 no oscar selvagem pub (rua paulo barreto, 121 – botafogo)
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sinopse:
um menino é convidado para ser muso de um escultor famoso, um jovem sugar baby vaga por uma noite soturna em búzios enquanto espera seu amante chegar, um ex-garoto de programa falido reencontra um cliente antigo e descobre que pode estar envolvido em atrocidades inimagináveis. nesse labirinto de espelhos de meninos desejados e dissociados – estudantes católicos, atores pornô, estrelas literárias em ascensão – a tentação de se perder nas imagens projetadas sobre si é onisciente, onipresente. misturando gêneros e estruturas narrativas diversas, ficção e realidade, o resultado é uma espiral assombrosa e encantadora na mesma medida por uma terra do nunca tropical onde cada jura de amor parece vir acompanhada de uma condenação de morte, e a beleza e juventude são sempre dádiva, fardo e arma.







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BLUSH: o único conto previamente reproduzido de superstar, pedro e os lobos, foi publicado em primeira mão aqui na blush. texto intenso e que explora bastante a relação – tão presente no livro – entre puro e impuro, profano e sagrado, amor e guerra. o eros é doce-amargo em superstar?
PEDRO MINET: absolutamente. provavelmente mais amargo do que doce, mas há respiros. suspiros. diria que o livro enfoca muito as contradições e consequências do desejo; desejar, ser desejado, desejar ser desejado. a adrenalina de sentir que isso te dá algum controle ou poder, e a devastação quando se entende que o jogo nunca foi seu. especialmente quando se está crescendo, tentando entender como navegar essas dinâmicas; quando se quer tanto experimentar, sentir, buscar, encontrar, mas é difícil distinguir o que é o seu desejo e o que é o do outro se impondo sobre o seu quase a ponto de engoli-lo. ênfase no “quase”, porque geralmente se é cuspido antes do fim, já mastigado o suficiente para ter de carregar as marcas das presas para sempre. como depois, já mais maduro, essas experiências formativas ecoam e são reavaliadas. quanto poder você realmente tinha? quem usava e quem era usado? poderia ter sido diferente? se tivesse sido, quem você seria? o rastro de guerra que o desejo deixa, essa capacidade avassaladora que tem de transformar e criar e desintegrar. como um furacão, com esses meninos sempre no olho – olhando a si mesmos, de fora e de dentro do corpo, no olho do furacão do desejo. um desejo contaminado, claro: por consumo, por violência, por imagem, por poder. mas será que existe desejo puro? há um certo movimento no livro, de num momento, por exemplo, você estar acompanhando um menino colegial saindo com caras mais velhos por dinheiro depois da escola e em outro conto mais a frente um ex-garoto de programa já em sua decadência, jovem adulto, lembrando de quando fazia o mesmo. ainda que não necessariamente sejam o mesmo menino – isso fica a cargo do leitor decidir -, tem esse desdobramento. é um pouco como levar eros ao tribunal. apresentar as evidências do êxtase e do estrago, do doce e do amargo, ao júri dos leitores, e perguntar: qual o veredito?
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BLUSH: você escreve sobre meninos que são objeto de desejo de homens mais velhos e mais poderosos do que eles, e conta histórias de dinâmicas de poder por meio do sujeito que, a princípio, poderia ser apenas uma vítima das relações que experiencia. o que significa, pra você – como escritor e menino – tomar as rédeas da narrativa dessa forma?
MINET: sinto que é uma das motivações centrais do que faço. é um pouco como a galinha e o ovo; não sei a que ponto foi uma escolha assumir essa perspectiva ou simplesmente é o ponto de vista que tenho a partir das minhas próprias experiências… sendo “menino”, como disseram. quando se existe em certos tipos de corpo, carregando certos tipos de história, é quase inevitável acabar se encontrando nessas dinâmicas. dinâmicas que têm muito de apagamento, de subjugação, de abuso mesmo, mas que também têm muita ambiguidade. porque há muitas vezes uma atração da parte “mais frágil” por esse perigo, por essa destruição. que talvez seja maldirecionada e informada por questões mais profundas, mas também significa que o menino não é simplesmente uma presa sendo surpreendida e arrastada para o abate. é o que breillat diz sobre o masoquista sempre ser mais forte do que o sádico, e que já era expresso pelos meninos dos poemas de coleção de meninos mortos: “como você machuca alguém que gosta de ser machucado?” “quem tem o que você quer no fim das contas sou eu”.



os meninos cujas histórias acompanhamos em superstar seriam meras notas de rodapé em algum documentário de true crime ou tabloide sórdido ou até um clássico de literatura “respeitável”: adolescentes gays em estado de vulnerabilidade, garotos de programa, atores pornô, musos, sugar babies, jovens artistas usando sexo para avançar na carreira, twinks do grindr sem senso algum de autopreservação. mas aqui eles são os protagonistas, e mesmo tão dissociados e fragmentados, passando por todo tipo de provação sofrida, é no mundo deles que o leitor se vê. um mundo onde se vê debaixo, do buraco, da “base da cadeia alimentar”, do outro lado da lente, de onde tudo é mais claro e também mais difuso e sinuoso. talvez a escolha da qual falei ali em cima tenha sido de não aceitar o silêncio que essa posição parece impor, de dar voz a essa perspectiva, que é minha mas não é só minha, e que um dia me pareceu quase que incomunicável.
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BLUSH: sua obra é assumidamente influenciada pelo universo cultural que te rodeia e, mais do que isso, é construída também a partir de experiências do seu próprio sistema solar. você entende a autoficção e a apropriação do zeitgeist como uma possibilidade de reinventar a (própria) realidade?
MINET: sim, mas acho que é uma reinvenção que acaba questionando a ideia do que seria uma “realidade própria”, porque expõe o quão maleável é o que a gente enxerga como fixo nas nossas identidades, nossas histórias, nossas verdades. além do quanto de controle realmente temos sobre esses mitos, esses arquétipos, essas ficções com as quais decidimos nos vestir e nos armar. muito do que publiquei antes de superstar já poderia ser (e foi) descrito como autoficção, mas nesse livro mergulhei fundo no conceito de forma que nunca fiz antes. como um objeto de estudo mesmo, de investigação, uma moldura por dentro da qual pudesse partir para uma série de caminhos, pintar uma série de retratos distintos de um mesmo menino… eu? principalmente na segunda parte do livro, da qual pedro e os lobos faz parte, em que os contos seguem, praticamente em ordem cronológica, como capítulos de um romance de formação, as aventuras e humilhações de um jovem escritor – às vezes pedro, às vezes minet, às vezes sem nome – em seu primeiro ano de reconhecimento literário, depois de debutar com um livro que pode ou não ser chamado coleção de meninos mortos.

alternando entre primeira e terceira pessoa, indo do diário ao ensaio pessoal ao melodrama ao exposé à fábula, e escrevendo esse personagem, que é inegavelmente “eu” mas também não sou eu, como escreveria qualquer outro totalmente distante de mim. porque, uma vez introduzido na ficção, ele é sempre personagem. carne nova na cena, ambicioso, cínico, muito consciente de suas capacidades de manipulação e sedução, e ao mesmo tempo muito sensível, impulsivo, autodestrutivo. não demora para que se encontre desnorteado num labirinto de projeções e personas que parecem levar a uma espiral sem fim de desilusão e desumanização. a mesma auto-objetificação que o ajuda a ser notado e lido e adorado traz abuso e apagamento, muitas vezes pelas mesmas pessoas. é o que falei mais acima sobre tentar vencer num jogo que nunca foi seu. quem tem o poder vai fazer questão de puxar o tapete em algum momento. mas o menino, mesmo derrotado, pode escrever. contar. reinventar, redimindo a realidade. esse é o seu poder.
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BLUSH: seu processo criativo se relaciona bastante com imagens, vídeos, músicas, games… como essas referências se mesclam ao seu fluxo de ideias e escrita?
MINET: minha escrita é profundamente intertextual, mesmo; é como meu cérebro funciona, sempre fazendo associações e criando diálogos entre textos. às vezes as referências são sutis, fugidias, outras bem explícitas e destrinchadas. num conto, por exemplo, há uma discussão entre dois personagens sobre os álbuns de lana del rey que acaba servindo como um metacomentário sobre o próprio livro. acho que meus textos em algum nível são sempre amálgamas de outros textos combinados e dilacerados e reapropriados de forma a produzir algo totalmente novo e pessoal. quando digo textos falo de tudo: livros, filmes, letras de músicas, games, conversas com amigos, experiências íntimas. tudo acaba sendo texto no fim das contas. também não há hierarquia; no superstar você tem chopin lado a lado com bad gyal, kawabata com slam dunk, lynch com are you afraid of the dark. cartografia de símbolos, como mapa de terra do nunca, que juntos constroem esse universo do livro. tenho minhas suspeitas que esse ethos tem a ver com ter crescido no tumblr, aquela prática diária de construir blogs que eram grandes mosaicos de todo tipo de mídia aparentemente distante uma da outra mas que juntos formavam um retrato fiel da pessoa por trás da conta. ou do que ela queria que o mundo fosse. tumblr também aparece no livro.





os arquivos que estou mostrando aqui incluem recortes de revistas teen antigas, campanhas de moda, comerciais banidos, cenas de filmes, homoerotismo noir, hits da mtv, etc.
p.s. todas as imagens e vídeos incluídos no post foram enviados por minet como parte de seu arquivo de referências no processo de escrita do livro
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BLUSH: ainda pensando na explosão de refs midiáticas que permeiam o universo de superstar: se você pudesse escolher 1 filme, 1 álbum & 1 livro que converse intimamente com a obra (e com o tema do mês ;3), quais você indicaria?
MINET:

the smell of us,
larry clark

honeymoon,
lana del rey

voyage in the dark, jean rhys
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pedro minet nasceu e vive no rio de janeiro, capital. em 2023, lançou seu primeiro livro de poemas coleção de meninos mortos, pela editora urutau. superstar, seu segundo livro – o primeiro de contos – está sendo lançado agora, em 2025, pela editora patuá. você pode acompanhar esse e outros lançamentos de minet em seu instagram
a foto utilizada na capa foi tirada por laura drummond em ensaio para a revista guilhotina





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